Menos Estado e mais boleto: crônica de um Brasil privatizado
Privatizações avançam sob o discurso da eficiência, mas expõem um modelo que transforma direitos em mercadoria e amplia o poder do capital
A narrativa neoliberal, que espanca o Brasil e outros países fora do eixo sul global, é construída sobre pilares de areia. Pierre Dardot e Christian Laval, na célebre obra “A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal”, apontam um farol nesse sentido ao mostrar que o neoliberalismo não é apenas um conjunto de medidas econômicas, mas uma lógica que reorganiza a vida social, política e institucional. Para os autores, o sujeito de racionalidade neoliberal não surge espontaneamente. Ele é produzido por um sistema que molda comportamentos, cria padrões de conduta e dissemina valores capazes de naturalizar a busca incessante por desempenho. Nesse ambiente, o indivíduo deixa de ser apenas cidadão ou trabalhador e passa a ser instado a se perceber como empresa de si mesmo, permanentemente responsável por investir em si, competir, render e superar os demais. No centro dessa engrenagem está a competição, transformada em regra geral de existência.
No sistema neoliberal, a competição não se resume a uma disputa entre forças econômicas; ela se converte em ordem que atravessa instituições, corrói subjetividades e redefine prioridades, tanto na iniciativa privada quanto no setor público. A partir dessa lógica, a vida social é reorganizada sob o critério da performance. Passa-se a decidir quais políticas públicas são “viáveis”, quais áreas “merecem” investimento, que tipo de prática econômica deve ser priorizada e, sobretudo, quais instituições públicas são “consideradas essenciais” para o funcionamento do Estado e quais são rotuladas, muitas vezes de forma vil, como estruturas deficitárias ou dispensáveis. Aqui, há premissas: o “bom funcionamento do Estado” e a “utilização correta da máquina pública”.
É nesse ponto que a narrativa neoliberal revela seu traço mais perverso: ela não apenas propõe reformas, mas redefine a linguagem pela qual a sociedade passa a compreender a si mesma. Direitos viram custos. Servidores se tornam números, e serviços públicos passam a ser avaliados por especulações de sua rentabilidade, em vez de sua função social. O que deveria ser debatido no campo da política é deslocado para o vocabulário da eficiência, como se administrar uma instituição de Estado se traduzisse em mera operação contábil, e não em ações voltadas ao coletivo, mesmo que carregadas de conflitos, interesses e responsabilidades.
Nessa esteira, em nome da modernização e da “entrada ao século XXI”, consolida-se o imaginário no qual o Estado é sempre um vilão perdulário, enganador e dilapidador da coisa pública, incapaz de gerir seu próprio patrimônio e, por isso, deve ser dispensado de seus deveres, ainda que constitucionais; ainda que fundamentais. O herdeiro de toda essa amálgama podre e ultrapassada deixada pelo Estado precisa, necessariamente, ser oriundo da iniciativa privada, pois esta, sim, é virtuosa, transparente e disposta a guiar o bem — outrora público — para sua função mister: levar serviços de qualidade ao povo.
As marteladas de Tarcísio
A privatização da maior empresa de saneamento público da América Latina foi feita às pressas. A companhia responsável por abastecer 30 milhões de lares paulistas viu suas ações serem espancadas num leilão tenebroso, como se ela fosse a casa da família Usher. O lero-lero inicial prometia benefícios imediatos ao consumidor e, num átimo, passaram a valer reduções tarifárias anunciadas pelo governo paulista. O problema é que essa lereia só é vistosa no release elaborado por marqueteiros, mas bem modesta na vida real e incapaz de responder à questão: o que acontece quando uma companhia de saneamento passa a ter como horizonte prioritário a remuneração do capital privado?
Passado o brilho da cerimônia e dos olhos esmigalhados de Tarcísio, mais de 2 mil demissões já foram contabilizadas, e a pressão por corte de custos, bem como a inexistência de projetos coerentes de novos investimentos, tornaram-se regra. O que se chamava eficiência passou a ser desgourmetizado e apresentado com sua faceta mais antiga: menos gente, mais cobrança por resultado para os acionistas e menos transparência. O mais engraçado nisso tudo é que a competição, apregoada como indispensável no neoliberalismo, se viu cheia de lama num processo de licitação em que só se fez presente uma empresa que nunca teve expertise na área: a Equatorial Energia, ligada ao banqueiro Daniel Dantas.
Do outro lado da moeda, a ENEL Distribuição São Paulo, privatizada desde 1998, tem visto suas ações serem questionadas após sucessivos apagões, falhas constantes na prestação de serviço em regiões periféricas e metropolitanas e, não raros, escândalos de corrupção. Ou, em bom neoliberalês: “entraves de compliance”.
A bananada de Romeu
Como tudo que é bom precisa ser copiado, Romeu Zema (NOVO), o “outsider” comedor de casca de banana, juntamente com o presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALEMG), Tadeuzinho (MDB) (filho do ex-prefeito de Montes Claros – MG, condenado por improbidade administrativa e outros crimes, Luiz Tadeu Leite), e seus pares, fizeram uma vitamina bacenta da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA). Nesse imbróglio, de transparente só o gel do cabelo do líder emedebista, pois o início do processo de privatização da estatal mineira foi marcado pela remoção da obrigatoriedade da exigência de consulta popular.
O governo também desenhou a privatização da Copasa de modo a permitir que o Estado deixe de ser controlador, mantendo apenas uma golden share e prevendo um modelo de corporation, sem acionista concentrando o comando. A lei que autorizou a operação entrou em vigor em dezembro de 2025. Em janeiro de 2026, o desenho oficial já indicava oferta secundária de ações, usando os recursos da venda para amortizar a dívida estadual. Em março de 2026, a privatização ainda não havia sido concluída, embora o governo mantivesse a expectativa de finalizar o processo no primeiro semestre e houvesse notícias de que a venda poderia sair em até dois meses.
É nesse ponto que a violência travestida faz seu trottoir. Zema chama a medida de modernização. Tadeuzinho fala em prioridade, aperfeiçoamento e entrega de serviços. Mas, quando o debate sobre água e esgoto é deslocado para o mesmo balcão onde se negociam dívida, cronograma eleitoral e interesse de investidores, o que se vê não é apenas uma reforma administrativa. É a velha mutação neoliberal do bem público em ativo negociável. A Copasa deixa de ser discutida como instrumento de política pública e passa a ser tratada como peça útil numa engenharia fiscal e de mercado, dessas em que a sociedade entra com o patrimônio e o capital entra com a régua.
Temos um modus operandi dos processos de privatização encampados pela direita brasileira: a obscuridade. O que se ouve no discurso não é o que se vê na prática.
A vibração da BR Distribuidora: a privatização que cobrou seu preço na bomba
O caso da BR Distribuidora, rebatizada como Vibra Energia, não foge à regra. A privatização começou em 2019, quando a participação da Petrobras caiu abaixo de 50%, e foi concluída em 2021, com a venda do restante da fatia estatal. Desde então, a empresa deixou de ser subsidiária da Petrobras e passou a operar integralmente sob lógica privada, com nova estratégia de mercado e foco na rentabilidade dos acionistas. Mesma base das outras privatizações aqui relatadas.
O problema é que esse caso é maior que todos os outros, pois se trata da maior distribuidora de combustíveis do país, corresponsável pelo abastecimento de postos cuja bandeira — e obrigatoriedade de compra — nem existe mais. O impacto mais sensível dessa mudança é político: a Vibra Distribuidora tem, em suas mãos, o poder de decidir as eleições de 2026. Em 2016, um dos maiores motivadores populares para justificar o impeachment de Dilma Rousseff foi o preço dos combustíveis, ali apontados como escandalosos.
A crítica persistiu durante o hiato Michel Temer, perpassou pela (indi)gestão Bolsonaro como um simples acaso, mas foi reestabelecida em virtude da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. A diegese é que o preço dos combustíveis está alterado por causa da guerra, mas o fato de a distribuidora ter aumentado substancialmente o preço do seu serviço, sem que ainda esse acontecimento seja determinante no Brasil, que é autossuficiente em produção de gasolina e etanol, é amainado pela mídia mainstream.
Ao perder a distribuição de combustíveis pela Petrobras, o Estado brasileiro perdeu o poder de regulação dos preços e de subsídio das diversas etapas nessa cadeia produtiva e logística. Esse fato já seria suficiente, mas, no Brasil, o preço dos combustíveis nunca foi somente uma variável econômica. Ele funciona como termômetro social, gatilho de humor coletivo e arma política de grosso calibre. Mexe com o frete, com o alimento, com a passagem, com o gás de cozinha e com a percepção cotidiana do povo sobre quem o governa.
A entrega da BR Distribuidora ao apetite corporativo não pode ser tratada como uma mera transação de mercado. Quando se privatiza uma empresa com tamanha capilaridade, não se vende apenas um ativo: entrega-se uma engrenagem decisiva para a vida nacional e uma lógica que não responde mais ao interesse público, mas à lascívia da Faria Lima. Uma distribuidora com a musculatura da Vibra não apenas mexe com um mercado, ela molda o mercado.
Num país em que a memória inflacionária ainda mora nos nervos da população, essa capacidade de pressão é mais veneno que remédio, é poder concreto que não aparece, que não faz palanque, que não debate as variáveis e possibilidades com o Planalto e que é capaz de provocar um estrago como nunca antes foi visto no Brasil: se o preço do combustível baixa, é por conta da excelente gestão de uma organização privada; se sobe, é por culpa da ineficiência do governo vigente, mesmo que este não mais possua os instrumentos de regulação que o Estado brasileiro um dia possuiu.
É por isso que o caso da Vibra é mais delicado do que o da água em Minas ou o da energia em São Paulo. O combustível é um insumo nervoso, desses que fazem funcionar não apenas motores, mas imaginários sociais inteiros. Ele arrasta o custo de vida, reorganiza cadeias produtivas, afeta o humor do eleitorado e se converte em munição eleitoral de alta octanagem. Quem controla essa engrenagem passa a ter, ainda que indiretamente, um tipo de influência que nenhum discurso liberal costuma admitir em voz alta: a de interferir no ambiente político nacional por meio da manipulação de uma necessidade básica travestida de flutuação de mercado. O problema não é a bomba no Irã.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
