Mentira de Laerte Rímoli

O jornalista Laerte Rimoli assume a presidência da EBC, e a diretoria-geral será comandada pela jornalista Christiane Samarco
O jornalista Laerte Rimoli assume a presidência da EBC, e a diretoria-geral será comandada pela jornalista Christiane Samarco (Foto: Tereza Cruvinel)

Participei ontem como depoente, no Senado,  da segunda audiência pública promovida pela comissão especial que analisa a Medida Provisória 744, é presidida pelo deputado Ságuas Morais (PT-MT)  e tem como relator o senador Lasier Martins (PDT-RS). Esta MP é a que altera a lei fundamental da EBC, a lei 11.652/2008. Só ali tomei conhecimento do que disse a meu respeito,  entre outros disparates, na audiência da semana passada,  o atual presidente da EBC, jornalista Ricardo Rímoli.  Há pouco, conferi o vídeo daquela audiência e ele exige que eu repita aqui o disse ontem no Senado: Laerte, no que me diz respeito, foi mentiroso.

Em dado momento o senador Lasier Martins perguntou-lhe sobre os custos com os principais “talentos” da TV Brasil e com que frequência participavam da programação. Laerte respondeu que alguns jornalistas eram contratados como pessoa jurídica e citou o valor de alguns contratos, não especificando claramente que tais valores não significavamm salários dos apresentadorse mas custos globais de produção dos programas. E sem citar o nome do Palavras Cruzadas, programa  de que eu participava, pois demonstrou imenso desconhecimento da grade da emissora, afirmou:

– Paulo Markun tinha um contrato de  575 mil reais anuais,  que se somavam a  mais 182 mil reais anuais da Tereza Cruvinel. Isso dava 700 mil/ano. Quero aqui até fazer uma ressalva porque a Tereza é uma jornalista que nós respeitamos,  e este contrato de 182 mil não é um absurdo pela qualidade dela, pela competência dela.  Agora, uma  vez por semana a Tereza se sentava numa bancada com Paulo Markun para fazer uma entrevista...

Mentira deslavada. Meu contrato envolvia a participação semanal no programa Palavras Cruzadas e comentários nos telejornais da TV Brasil, que eram no mínimo três, além de comentários nos radiojornais. Tenho competência como  entrevistadora e como comentarista e ele reconheceu isso. Deixei a RedeTV ganhando mais e voltei à EBC para superar uma frustração: quando presidi a empresa, entre 2007 e 2011, dediquei dias prolongados de mais de 14 horas de trabalho à implantação e gestão da empresa, não podendo lhe emprestar minha colaboração como jornalista. De modo que, ainda que eu ganhasse 182 mil anuais apenas para sentar-me uma vez por semana numa bancada como entrevistadora, estava ganhando 15 mil reais mensais, algo muito inferior ao que poderia ganhar no setor privado. Laerte mentiu para me desqualificar, aspergindo mais uma de suas ignorâncias sobre a empresa que preside.  Abro meu contrato que ele rasgou a quem quiser conferir o que digo. Senti vergonha alheia, assistindo ao vídeo, diante de sua incapacidade de fornecer respostas precisas às perguntas do relator.

Logo que foi nomeado, na segunda semana da interinidade de Temer, ele rompeu unilateralmente os contratos com os jornalistas contratados. Não nos pagou sequer a multa pelo rompimento e repete sempre, como fez no Senado, que estavam todos a serviço do governo deposto do PT.  Estranho, como disse Ricardo Melo, que sendo petistas comprometidos,  tenhamos tido, todos, trajetórias vitoriosas na chamada grande imprensa.  Este desmentido eu não posso deixar de fazer por uma questão ética, moral e profissional. Isso posto, devo dizer algo sobre a audiência de ontem.

Os parlamentares governistas, mais uma vez, fugiram do debate. O que todos os depoentes tentamos fazer foi demonstrar ao relator que, suprimindo o mandato do diretor-presidente, e submetendo todos os diretores à nomeação e demissão ad nutun do presidente da República,  a MP de Temer acaba com a independência editorial dos dirigentes.  Faz da EBC um puxadinho do Planalto. O mandato não é para garantir emprego,  mas autonomia. Da mesma forma, insistimos na preservação do Conselho Curador como garantia de participação da sociedade na definição das diretrizes da programação, algo que distingue a comunicação pública conceitualmente. Algo praticado em todos os sistemas similares do mundo. Sem o mandato, sem o Conselho, a EBC perde sua essência. Passa a ser uma agência de comunicação do Governo.

Se é isso que Temer quer, apropriar-se do que foi construído para ser coisa pública, da sociedade,  deve assumir claramente seu propósito.  Mas então, terá que assumir o ônus e estraçalhar o resto da lei da EBC, suprindo outras referências à missão da empresa como gestora do sistema público de comunicação previsto pela Constituição Federal no artigo 223.

Felizmente, parece não ser esta a tendência do relator, mas sim a de propor algumas reformulações na concepção do Conselho, por exemplo. A EBC é um projeto em construção, tem problemas a serem resolvidos e devem ser enfrentados.  Mas o que esta MP propõe é mais um retrocesso nas conquistas recentes da democracia brasileira. É a involução que espero não ver chancelada pelo mesmo Congresso onde, em 2007, eu, Franklin Martins e muitas outras entidades e personalidades da sociedade civil, das universidades, da produção cinematográfica e audiovisual, da produção cultural e de outros setores,  negociamos a aprovação da Lei 11.652/2008.

 

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