Mentiras e os medos no discurso do premier de Israel na ONU

"Discurso de Bennett foi uma demonstração do fracasso do projeto colonial do estado judeu na Palestina, que pretendia conquistar a totalidade do território da Palestina Histórica e avançar para a conquista de todo o Oriente Médio"

www.brasil247.com - Primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, durante discurso na Assembleia-Geral da ONU em Nova York
Primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, durante discurso na Assembleia-Geral da ONU em Nova York


O mundo assistiu, no dia 27 de setembro, ao discurso do criminoso de guerra e primeiro-ministro de “Israel”, Naftali Bennett, perante a Assembleia Geral das Nações Unidos, recheado de mentiras e que configurou uma inequívoca demonstração de medo em relação ao futuro da ocupação colonial sionista na Palestina.

Pela primeira vez e de maneira calculada, um premier da ocupação não mencionou a questão palestina. Para Bennett, essa é uma questão doméstica de Israel e não é da conta do mundo. Bennett disse ao jornal The Jerusalem Post que “Tornar-nos gêmeos siameses com os palestinos é errado e inútil. As relações com outros países não serão definidas por eles.”

O discurso de Bennett foi uma demonstração do fracasso do projeto colonial do estado judeu na Palestina, que pretendia conquistar a totalidade do território da Palestina Histórica e avançar para a conquista de todo o Oriente Médio com o lema “Do Nilo ao Eufrates”, os dois rios que estão representados pelas linhas azuis da bandeira israelense.

Não é demasiado recordar que, em 1947, no processo de discussão do Plano de Partilha da Palestina na Organização das Nações Unidas (ONU), o rabino E. L. Fischmann, representante oficial da Agência Judia para Palestina, fez reiterados discursos e lobby das reivindicações do seu chefe Theodor Herzl, nos quais defendia que a “Terra Prometida”, um dos mitos fundamentais usados pelos sionistas, se estenderia do Rio Nilo, no Egito, até o Eufrates, pretensão que incluiria, além da Palestina, a Síria, o Líbano e o Iraque.

Como sempre, o que se viu foi mais um líder israelense encenar o papel de vítima na tribuna da ONU, quando é sabido o exato caráter colonialista da ocupação sionista, que continua a se expandir enquanto comete crimes com o objetivo de prevenir o surgimento de um Estado palestino, conforme determinado pelas resoluções da ONU e pelo Direito Internacional.

Nestes tempos, é coerente dizer que a pandemia da Nakba (tragédia) não terminou em 1948 com a fundação de “Israel”, muito menos com o massacre perpetrado pelas forças israelenses durante a agressão terrorista da Guerra dos Seis Dias ocorrida em junho de 1967, que ocupou a Faixa de Gaza, vastos territórios do Sinai, no Egito, e as Colinas de Golã, pertencentes a Síria. O esforço continua hoje, com os sionistas usurpadores correndo para realizar o processo de desenraizamento completo e destruição da Palestina.

Bennett usou o tempo destinado à sua intervenção para “chorar as pitangas”, afirmando que sua entidade está "literalmente cercada" pelos grupos de resistência palestinos (Hamas, Jihad Islâmica e Frente Popular para Libertação da Palestina), pelo Hezbollah libanês e por outros grupos e países. O representante israelense apontou o dedo sujo para o Irã, afirmando: "do Líbano à Síria, passando por Gaza e Iraque e Iêmen, todos eles querem destruir 'meu país' e todos têm o apoio do regime de Teerã."

A maior parte do seu tempo foi dedicada a atacar e se queixar contra o Irã e o programa nuclear persa, que, segundo ele afirma, buscam o desenvolvimento de armas nucleares. Bennett chegou a dizer que “Israel não tem esse privilégio. Não vamos nos cansar. Não permitiremos que o Irã adquira uma arma nuclear”, embora continue negando que Israel possui mais de 200 ogivas nucleares, realidade revelada pelo jornal britânico The Sunday Times, com base em informações reveladas pelo cientista nuclear israelense Mordechai Vanunu. 

O premier fez uma confissão de fragilidade, ressaltando um aspecto a ser observado, que foi a referência aos drones iranianos, quando disse que "o regime de Teerã" criou uma frota de milhares de drones que "podem nos atacar a qualquer hora, em qualquer lugar". Ainda segundo ele, “Um deles, um Shahed-136, já atacou fatalmente um navio. O Irã e seus representantes no Iêmen, Síria, Iraque, Líbano... estão armados com eles e nos desafiam o tempo todo”.

Porém, o que sobrecarrega a ocupação israelense não fica restrito aos fracassos militares de Israel em Gaza em maio deste ano e à determinação dos palestinos na Cisjordânia em resistir às agressões. Bennett expressou o temor dos sionistas pelo surgimento do pólo geoestratégico denominado "eixo de resistência", que inclui o Irã, o Iraque, a Síria, o Líbano e a Palestina ocupada, com suas forças de resistência.

O premier não mencionou, mas o conflito de maio afetou severamente a economia israelense, provocando prejuízos superiores a 2 bilhões de dólares devido ao fechamento das atividades de portos e aeroportos, de 30% das fábricas e da exploração de gás nas plataformas do campo de Tamar, à queda sem precedentes no mercado de ações, além de à desvalorização da moeda israelense, o shekel, que teve uma queda de 14% em relação ao dólar, elevando a recessão da economia já atingida pela covid-19.

Apesar de Bennett exaltar a amizade e o apoio dos Estados Unidos, os acontecimentos de maio despertaram muitas vozes no congresso norte-americano com parlamentares criticando o apoio de Washington a Israel, como o senador Bernie Sanders, que publicou artigo no The New York Times no qual afirma que os EUA não poderiam continuar desempenhando “o papel de advogado de defesa do governo de extrema direita e racista de Israel”. 

Por outro lado, observa-se, na população israelense, o sentimento de que não houve e dificilmente haverá vitória da entidade sionista sobre o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) e as outras forças da resistência palestina, que desmoralizaram e puseram por terra os chamados acordos de normalização entre o regime sionista e alguns estados árabes, o que arrefeceu o entusiasmo e desencorajou outros processos em andamento.

É salutar a conexão de Iraque, Irã, Síria e Líbano, quatro países geograficamente conectados e estrategicamente aliados, que estão criando um corredor do Mediterrâneo à Ásia Central por terra e mar com enormes implicações geoestratégicas e econômicas. E o eixo de resistência pode se estender além do Oriente Médio. Merece destaque a união das forças da resistência com as forças que, no Magrebe Árabe, constituíram uma frente de rejeição à normalização com o inimigo israelense.

É preciso que todas as forças que defendem a justiça e o respeito ao Direito Internacional exijam dos países independentes, especialmente as Nações Unidas, que ajudem a deter a ocupação colonial israelense e a garantir o retorno dos refugiados e deslocados palestinos, para que possam viver com dignidade na sua terra ancestral da Palestina, tendo a sagrada Jerusalém como sua capital. 

*Sayid Marcos Tenório é historiador e especialista em Relações Internacionais. É vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019. 412 p). E-mail: [email protected] – Twitter: @HajjSayid

 

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