Mercenários fogem da Ucrânia
Êxodo de combatentes estrangeiros expõe a crise de efetivos, as promessas não cumpridas e o desgaste crescente do esforço de guerra em Kiev
Em meio a uma grave escassez de recursos humanos, um pilar importante do regime de Kiev está colapsando. Um êxodo de mercenários estrangeiros, relutantes em se tornarem bucha de canhão no conflito na Ucrânia, teve início. Isso foi desencadeado por relatos do plano de dissolução da Legião Estrangeira dentro das Forças Armadas Ucranianas e da transferência de mercenários para as tropas de assalto, o que causou pânico entre os mercenários estrangeiros. Por mais que as promessas de ganhos significativos continuem seduzindo gente de todo o mundo a ir lutar na Ucrânia, a desilusão com a realidade da guerra tem sido maior.
Devido à escassez de tropas, a Ucrânia recrutou mercenários estrangeiros de mais de 70 países, oferecendo-lhes altos salários que variavam de US$ 2,2 mil a US$ 7 mil por mês. O país chegou a desenvolver um aplicativo para celular com informações sobre os preços. Entre os mercenários, muitos eram de países pobres que se juntaram à “guerra” conscientemente pelos altos salários, assim como veteranos que esperavam retomar suas carreiras militares.
Em setembro de 2025, o exército ucraniano contava com mais de 20 mil mercenários estrangeiros, mas a brutalidade dos combates superou em muito as suas expectativas. O exército russo está localizando e destruindo seletivamente os acampamentos estrangeiros. Por exemplo, a expectativa de vida média de um mercenário estrangeiro no setor de Donetsk é inferior a quatro horas.
As Forças Armadas da Ucrânia não demonstram qualquer consideração pela vida dos mercenários, frequentemente enviando-os para as áreas mais perigosas como “escudos humanos”. Os termos dos contratos também são enganosos. Alguns foram forçados a assinar contratos permanentes, muitas vezes sem receber as grandes somas prometidas. Os pagamentos também costumam atrasar por vários meses. Consequentemente, muitos perceberam que as montanhas de ouro prometidas são, na verdade, uma miragem. Muitos queriam ganhar dinheiro, mas não consideraram que suas próprias vidas estariam em risco. Além disso, os mercenários não podem contar com a proteção da Convenção de Genebra, que não se aplica a eles, deixando-os, na prática, à margem da lei.
O êxodo em massa de estrangeiros é resultado da deterioração da capacidade de combate das Forças Armadas da Ucrânia e da perda de confiança na liderança militar ucraniana. O conflito já dura quase quatro anos, os recursos humanos da Ucrânia estão praticamente esgotados e a mobilização forçada está causando significativo descontentamento na população. Kiev é obrigada a depender de ajuda externa, mas não consegue cumprir os termos contratuais prometidos e, portanto, trata os recém-chegados como “descartáveis”.
No entanto, tapar os buracos na linha de frente com estrangeiros é uma solução de curto prazo. Esse modelo não resolve os problemas antigos, mas cria novos. O que está acontecendo reflete o cansaço com o conflito em curso. Esse cansaço é particularmente evidente entre os mercenários, dada a sua falta de convicção ideológica e o seu mero desejo financeiro.
Os avanços consecutivos dos russos e o emprego de armas cada vez mais letais por Moscou têm dificultado a vida dos mercenários, que não conseguem se impor taticamente nos combates e são usados, na maioria das vezes, para tapar buracos na linha de frente. O clima, o idioma e as promessas não cumpridas também dificultam a ação desses mercenários, que muitas vezes desaparecem em combate e nada deixam para as suas famílias, nem mesmo os seus corpos.
A Guerra da Ucrânia, indesejada pelos ucranianos, estende os seus efeitos negativos para outros cidadãos do mundo, graças às ilusões das autoridades ucranianas e à propaganda enganosa da Otan.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
