Messias não era o alvo: narrativa, investigações e rentismo
A realidade é muito mais complexa e revela que o verdadeiro comando da política brasileira repousa, hoje, nas mãos de um Centrão pragmático
A recente e histórica derrota do governo na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) não é apenas um revés pontual, mas o sintoma mais agudo de uma reconfiguração profunda no xadrez político nacional. Pela primeira vez desde 1894, o Senado barrou uma escolha presidencial para a mais alta corte do país. Contudo, engana-se quem enxerga nesse episódio um mero embate entre lulismo e bolsonarismo. A realidade é muito mais complexa e revela que o verdadeiro comando da política brasileira repousa, hoje, nas mãos de um Centrão pragmático, articulado e desprovido de amarras ideológicas.
A aliança que derrubou a indicação de Messias é emblemática dessa nova dinâmica. Vimos a convergência de interesses entre figuras tão díspares quanto Davi Alcolumbre, Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes. Este triunvirato de ocasião não se formou por afinidade programática, mas pela necessidade mútua de sobrevivência e manutenção de poder e status quo. Trata-se de uma aliança entre o Centrão pragmático, frações da extrema-direita bolsonarista e setores do Supremo Tribunal Federal, costurada com um objetivo claro: enterrar as investigações sobre o Banco Master e blindar parlamentares envolvidos em desvios de verbas públicas do famigerado orçamento secreto.
No dia seguinte à rejeição de Messias, o Congresso derrubou os vetos presidenciais à lei que reduz as penas dos envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro e, simultaneamente, engavetou a CPI do Banco Master. Fizeram um acordo tácito para fingir que as investigações incômodas não existem, evidenciando que a blindagem política fala mais alto do que qualquer disputa partidária. Mas há mais: ao mesmo tempo que enterram investigações que os comprometem, essa aliança trabalha para construir a narrativa de um governo Lula como "pato manco", um presidente que teria perdido a governabilidade. É uma estratégia dupla: proteção mútua para os seus e deslegitimação do Executivo perante a opinião pública. A derrota de Messias, nesse contexto, não é apenas um revés institucional, mas uma peça de um tabuleiro muito maior de jogo político onde investigações são enterradas, narrativas são construídas e o poder é redistribuído longe do escrutínio democrático.
Nesse cenário, a figura de Davi Alcolumbre emerge como o arquétipo do poder contemporâneo no Congresso. Pouco afeito a debates ideológicos e duro nas negociações, ele construiu sua força na ocupação de espaços, no controle de verbas e na costura de acordos que transcendem a polarização. A dupla derrota imposta ao presidente Lula demonstra a dificuldade do Executivo em manter uma base sólida em seu terceiro mandato, especialmente quando os interesses do Legislativo esbarram em investigações sobre o "orçamento secreto" e outras pautas sensíveis.
Contudo, a complexidade dessa derrota não cabe nas conclusões simplistas que a mídia tem apressadamente divulgado. Não é possível reduzir o episódio a antevisões determinantes sobre reflexos eleitorais. A cinco meses das urnas, eventos dessa natureza não necessariamente definem o resultado final. Mais importante é compreender que a derrota atingiu muito mais do que os derrotados óbvios. Lula escolheu Jorge Messias não apenas por sua confiabilidade jurídica e biografia sem manchas, mas também por se tratar de figura eminente entre os evangélicos. Essa escolha carregava o propósito estratégico de reduzir a distância entre o candidato petista e os evangélicos, segmento tendente ao bolsonarismo. A presença do ministro André Mendonça, pastor, no STF já refletia a importância que a hierarquia evangélica atribui à sua representação na mais alta corte. Portanto, a rejeição de Messias foi também a rejeição de uma perspectiva evangélica, um segmento eleitoral crucial.
Nessa aparente derrota, porém, reside um estoque considerável de contra-ataques para Lula e seus aliados. Não apenas para rebater qualquer exploração eleitoral da recente derrota, mas para transformá-la a seu favor na campanha dirigida aos evangélicos. Trata-se de uma oportunidade ainda em aberto, cuja exploração dependerá da criatividade política do governo e do núcleo de pré-campanha.
Entretanto, para além das manobras de cúpula, há um desafio estrutural que o governo precisa enfrentar: por que as inegáveis conquistas sociais e econômicas não se convertem automaticamente em intenções de voto e popularidade? A resposta reside no fato de que o próprio lulismo, ao cumprir seus objetivos mais imediatos de inclusão pelo consumo, deslocou as expectativas da população para um patamar que o atual modelo não dá conta de satisfazer. A inclusão social despolitizada, baseada no crédito e no endividamento das famílias, gerou alívio imediato, mas não dissolveu a percepção generalizada de injustiça. O Estado continua sendo sentido como distante ou hostil por muitos, e a palavra sistema foi capturada pela direita para canalizar a frustração de quem se sente abandonado.
A economia brasileira, marcada pela financeirização e reprimarização, cobra seu preço político. A inflação dos alimentos, a precarização do trabalho e a sensação de mobilidade social bloqueada, onde a maioria ascende à base do mercado e lá permanece, alimentam a ideologia do empreendedorismo e o ressentimento. O próprio presidente Lula reconheceu recentemente que a esquerda, muitas vezes, tornou-se gestora do neoliberalismo, permitindo que a extrema direita capitalizasse o mal-estar e a indignação das promessas não cumpridas.
Diante dessa conjuntura, a sociedade brasileira se vê órfã de um projeto nacional de desenvolvimento. Enquanto a classe política se digladia por nacos de poder e impunidade, o país carece de uma visão de futuro que transcenda as disputas eleitorais imediatas. É nesse vácuo que surge a necessidade premente de construirmos um projeto de nação. Por muito tempo, importamos acriticamente o modelo econômico e social de países desenvolvidos do ocidente, em especial, dos Estados Unidos, ignorando que o sonho americano desmoronou sob o peso da financeirização da economia, da estagnação da renda e de uma desigualdade social abissal. Os Estados Unidos não são modelo para ninguém, muito menos para um país com as complexidades e potencialidades do Brasil.
Precisamos de um desenvolvimentismo genuinamente nacional, que recoloque o Estado como indutor do crescimento, mas com foco na redução das desigualdades, na reindustrialização e na garantia de direitos sociais. A reeleição do presidente Lula em 2026 apresenta-se, nesse contexto, não apenas como uma disputa eleitoral, mas como uma necessidade geopolítica e estratégica. É fundamental para reequilibrar a correlação de forças na América do Sul e fortalecer o Brasil como líder do campo democrático global, contrapondo-se ao avanço de forças reacionárias e ao enfraquecimento das instituições multilaterais.
É muito cedo para antevisões definitivas sobre os desdobramentos políticos e eleitorais dessa conjuntura. O que sabemos é que a verdadeira frente ampla que o Brasil precisa não é esta forjada nos corredores do Congresso para barrar investigações ou aliviar penas de golpistas. A frente ampla necessária é aquela capaz de unir as forças progressistas e conservadoras, mas com valores democráticos, em torno de um projeto de nação soberana, que enfrente o pragmatismo fisiológico do centrão, supere os limites da inclusão pelo consumo e ofereça à população uma alternativa real de prosperidade. O desafio está posto: ou sucumbimos à política de balcão de negócios que blinda os seus, ou resgatamos a capacidade de sonhar e construir um Brasil mais justo, desenvolvido e verdadeiramente independente.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
