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Luciano Elia

Psicanalista, membro do Laço Analítico/Escola de Psicanálise, Chefe do Departamento de Psicanálise e Coordenador do Programa de Mestrado Profissional em Psicanálise e Políticas Públicas do Instituto de Psicologia da UERJ.

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Metáforas macabras do desmoronamento de um país

Tais desastres são produzidos, engendrados por uma lógica social, cultural, política e econômica, por um conjunto de fatores da civilização brasileira que resultam, em sua história, em uma atualidade bastante degradada em termos civilizatórios

Metáforas macabras do desmoronamento de um país
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Freud distingue três fontes do sofrimento humano: A potência destrutiva da natureza, a debilidade de nosso próprio corpo e a insuficiência dos arranjos destinados a mediar as relações dos homens entre si. 

Tendo-os distinguido, acrescenta que, das três, indiscutivelmente a mais penosa é a terceira, que ele denomina "sofrimento de origem social": o fracasso de qualquer forma de mediação das relações entre os humanos. Por que ele a destaca como a pior e mais sofrida dessas fontes de mal-estar? Seria o ser humano mais nocivo do que os grandes desastres naturais e as doenças do corpo?

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Esta resposta me parece insuficiente, e o próprio Freud indica no desdobramento do seu escrito que o que particulariza a terceira fonte de sofrimento, quebrando a aparência de uma seriação patamarizada pelo desnível que nela introduz, é o fato de que  as relações inter-humanas implicam o próprio homem na produção do mal-estar que elas engendram, o responsabilizam, o incluem como quem concorre na fabricação mesma do mal-estar, enquanto que as outras duas permanecem na ordem do imponderável, escapam completamente ao desejo. Podem até ser mais devastadoras em seus efeitos objetivos, mas, como não contam com a responsabilidade humana, são subjetivamente muito menos espinhosas.

Intempéries da natureza são, por definição, imponderáveis. Entretanto, temos vivido, horrorizados, desastres anunciados no Brasil como uma série que não promete encontrar paradeiro. Esses desastres, embora destruam a natureza, nada tem de naturais e inscrevem-se na terceira fonte freudiana de mal-estar.

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Entre 5 de novembro de 2015 e 24 de janeiro de 2019, com uma escala tenebrosa em 2 de setembro de 2018, ocorreram dois rompimentos devastadores de barragens em Minas Gerais, a primeira na cidade de Mariana (5/11/15) e a segunda quinta-feira passada (24/1/19), em Brumadinho, ambas envolvendo a morte de centenas de pessoas, a destruição de suas casas e dos recursos que sustentavam suas vidas e as dos que sobreviveram à tragédia, e o incêndio do mais importante museu do nosso país, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, acervo histórico- antropológico inestimável, que amputou nosso patrimônio cultural em uma parte nada periférica de seu corpo, talvez mais de uma de suas pernas, se o compararmos a um bípede.

Tais desastres são produzidos, engendrados por uma lógica social, cultural, política e econômica, por um conjunto de fatores da civilização brasileira que resultam, em sua história, em uma atualidade bastante degradada em termos civilizatórios: uma oligarquia abjeta, escravocrata, desavergonhada na sua ganânsia (propositalmente escrita com o s que condensa gana e ânsia) de poder e manutenção de privilégios obscenos, um dos maiores e mais injustos níveis de desigualdade social do mundo, aversão a direitos sociais, opressão e violência contra os pobres e negros, mantidos em condição de escravos e convenientemente produzidos por toda a engrenagem social como delinquentes para que esta condição não se desfaça, mantendo-se e reproduzindo-se infinitamente, um estado servil aos interesses da elite abjeta e do capital internacional, que guerreia contra a população cujos direitos deveria assegurar, enfim, todos esses fatores (cuja lista aqui não é exaustiva mas tenta ser paradigmática da conjuntura nacional) resultam em uma sociedade que caminha na contra-mão de qualquer processo civilizatório.

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Tivemos um intervalo nesse processo histórico, intempestivo, a contrapelo - no sentido de Foucault: a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores, os dois governos do Presidente Lula (2003-2010) e o governo-e-meio da sua sucessora, a Presidenta Dilma Roussef (2011-2016).

Nesse período o Brasil começou a entrar nos trilhos da história, a reverter o processo degradante de nossa sociedade, a extinguir a fome e a miséria extrema em uma parcela imensa de sua população, a promover a formação intelectual e profissional, inclusive em nível superior, dos mais pobres e habitantes do interior, a desenvolver a economia e situar o país em índices de respeitabilidade internacional inéditos, a gerar, assim, uma altivez jamais experimentada pelos brasileiros quando confrontados com os estrangeiros, quando fora de seu país, situação que indefectivelmente nos mergulhava em uma condição de inferioridade e auto-desrespeito. O Brasil inclusive chegou a uma posição de liderança nos BRICS, e seria a sede do seu Banco.

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O resultado dessa tentativa, em larga medida bem-sucedida, de reverter a correnteza histórica da degradação social brasileira foi um golpe jurídico-parlamentar-midiático que vinha sendo urdido desde o início do primeiro governo Lula e que culminou no impeachment fraudulento da Presidenta Dilma -  farsa banhada com declarações lastimáveis dos parlamentares, assinando inapelavelmente a fraude que protagonizavam como palhaços de uma corte que os comandava, a instauração de uma criminosa operação intitulada Lava jato, capitaneada pelo inepto e comprometido juiz Sergio Moro cujo objetivo maior, como nos antigos jogos de War, era o aniquilamento do Presidente Lula, preso sem provas desde abril de 2018 por "crimes" inexistentes, num processo cujo caráter cômico não o torna menos trágico!

Este processo culmina no pior, no inacreditável, um surreal entretanto amargamente real: a eleição para presidente do Brasil do candidato mais fraco, mais improvável, mais despreparado, mais inculto, mais perigoso, mais desastroso em todos os sentidos, associado ao crime, às milícias do Rio de Janeiro, espantalho para as relações internacionais colocado no jardim onde os abutres não serão espantados porque foram eles que o colocaram ali.

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É nas preliminares deste desfecho, reta final do governo golpista que  acontece, em 2 de setembro de 2018, o incêndio do Museu Nacional. Destruição e perda definitiva de milhares de peças de valor inestimável,  metáfora macabra que extingue a parte mais relevante da História do Brasil. A destruição do Museu Nacional não matou, como os dois rompimentos de barragens, centenas de pessoas e não devastou toda uma região e seus recursos vitais, arrastados pelas águas que o Brasil intencional e criminosamente descontrolou, mas queimou, como quem "queima um arquivo", a história e a cultura nacionais.

O rompimento das barragens dos rios mineiros é tragédia hiper anunciada: uso de materiais mais baratos para garantir um lucro sempre maior às empreiteiras, descaso e inépcia técnica, flexibilização da fiscalização por parte de um governo que é seu cúmplice, prioridade do capital sobre o meio ambiente - no caso - com a vida humana das populações ribeirinhas.

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De modo inteiramente idêntico, o incêndio do Museu da República resultou do descuido com a manutenção do edifício que abrigava todo um tesouro histórico, descuido irresponsável e inconsequente, forçando-nos a ler em tanta irresponsabilidade estatal as marcas de uma intenção latente, reflexo de um processo social e cultural que não faz outra coisa senão incendiar e devastar de outro modo a sociedade brasileira, suas camadas esmagadoramente majoritárias e desprovidas dos recursos mais básicos de sobrevivência e, quando conseguem sobreviver, é sempre em condições sub- humanas.

O incêndio do Museu no Rio e o rompimento das barragens em Minas Gerais são metáforas, macabras certamente, porquanto simbolizam um processo de morte e destruição. Mas seus efeitos nada tem de metafóricos, e o aniquilamento do acervo histórico do Museu recusa peremptoriamente o atributo de simbólico que lhe seria conferido pelo fato de atingir um tesouro cultural e não vidas humanas.

Ele é igualmente real, igualmente traumático, e igualmente revelador de um mesmo e único processo político e anti-civilizatório: a quintocentona estrutura pútrida do poder, das oligarquias nacionais, do subjugo ao capital internacional, do estado e consequentemente de toda a sociedade brasileira, que votou majoritariamente, em outubro último, na retomada, recrudescida, do processo de degradação e aniquilamento do país, do qual esses tristes episódios são o fruto e o rebento macabro.

Por maiores que sejam os efeitos devastadores da natureza e a inexorável decrepitude do nosso corpo, nada se compara aos desastres resultantes das irremediáveis relações entre os homens, como nos ensina Freud. É estarrecedora a potência do mal que engendramos, a corrosão que somos capazes de produzir no corpo social, sobretudo quando temos, à nossa frente e à nossa mão, a escolha e a possibilidade absolutamente claras, acessíveis, de fazer exatamente o contrário: se não desconhecemos as soluções, o que explicaria nossa tendência a escolher o pior?

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