Meu livro na Globonews

"A tentativa de criar um pequeno escândalo em torno da presença do meu livro A Outra História da Lava-Jato na biblioteca dos condenados de uma penitenciaria nos arredores de Curitiba mostra que pode haver mais pluralismo e liberdade de opinião numa biblioteca de cadeia do que no jornalismo da Globonews," escreve Paulo Moreira Leite. "Premiado no Jabuti, o mais importante premio literário do país, o livro jamais foi tema dos programas de uma emissora que tem um numeroso conjunto de programas de entrevista e debate, um deles dedicado exclusivamente a livros" 

"A tentativa de criar um pequeno escândalo em torno da presença do meu livro A Outra História da Lava-Jato na biblioteca dos condenados de uma penitenciaria nos arredores de Curitiba mostra que pode haver mais pluralismo e liberdade de opinião numa biblioteca de cadeia do que no jornalismo da Globonews," escreve Paulo Moreira Leite. "Premiado no Jabuti, o mais importante premio literário do país, o livro jamais foi tema dos programas de uma emissora que tem um numeroso conjunto de programas de entrevista e debate, um deles dedicado exclusivamente a livros" 
"A tentativa de criar um pequeno escândalo em torno da presença do meu livro A Outra História da Lava-Jato na biblioteca dos condenados de uma penitenciaria nos arredores de Curitiba mostra que pode haver mais pluralismo e liberdade de opinião numa biblioteca de cadeia do que no jornalismo da Globonews," escreve Paulo Moreira Leite. "Premiado no Jabuti, o mais importante premio literário do país, o livro jamais foi tema dos programas de uma emissora que tem um numeroso conjunto de programas de entrevista e debate, um deles dedicado exclusivamente a livros"  (Foto: Paulo Moreira Leite)

Vários amigos me enviaram o vídeo de uma reportagem de aproximadamente cinco minutos da GloboNews sobre a vida dos prisioneiros da Lava Jato em Curitiba.

Num determinado momento, a câmara entra na biblioteca usada pelos condenados e, depois de mostrar a capa de grandes clássicos da literatura, faz uma pausa um pouco mais demorada para focalizar em grande destaque a capa de "A Outra História da Lava Jato", que publiquei no final de 2015.

Conforme a reportagem, a presença da obra, nas dependências da penitenciária, "chama a atenção". Em seguida, em tom de justificativa para a própria observação, pois sempre caberia uma pergunta ("chama a atenção de quem, cara pálida?"), a Globonews acrescenta: o livro "traz uma visão crítica sobre a operação."

Então está tudo explicado. Num país onde a liberdade de expressão é princípio constitucional, uma emissora que integra um dos maiores grupos de comunicação do mundo acha estranho que a biblioteca de uma penitenciária apresente uma obra com uma "visão crítica sobre a Lava Jato."

Não é um livro bom, ruim, péssimo. Nem pertinente, nem cretino. O problema, a notícia, é que tem uma visão "crítica."

"Chama a atenção" por se encontrar numa estante, que é o lugar onde os livros podem existir e respirar suas verdades, sonhos e pesadelos, um ambiente tão natural como um computador em cima da mesa, uma escultura  no museu, um filhote brincando num quintal. "Chama atenção" porque faz um debate que nem a Globo nem a Globonews tiveram coragem de enfrentar, sobre Direito, Política e Democracia, preocupação de um grande número de juristas e personalidades democráticas do país. Todo cidadão que não se deixa tratar como vaca de presépio sabe a origem daquilo que se chama "choque de instituições" e coisas parecidas.

Antes de encontrar o livro na biblioteca de uma penitenciária, a GloboNews nunca teve sua atenção despertada por "A Outra História da Lava Jato". A obra foi ignorada na época do lançamento, ainda que um jurista como o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, assine a nota de contra capa, e a emissora possua numerosa equipe de entrevistadores, que, entre outras atrações, mantém um programa dedicado à literatura -- de boa qualidade, convém admitir.

Embora seja uma obra com tiragem modesta, de uma editora pequena, sem grandes esquemas de lançamento, e todos os adjetivos diminutivos que você quiser acrescentar, o esforço deliberado para tratar "A Outra História..." como um não-livro reproduz o tratamento que sistemas totalitários reservam a dissidentes, não-pessoas. Vem daí o estranhamento de que um não0 livro seja tratado como... um livro e encontre pessoas com interesse em saber o que ele tem a dizer. Não pode. "Chama atenção."

Esse tratamento chegou ao ponto máximo  no final de novembro. quando subi ao palco do auditório do Parque Ibirapuera para receber o Jabuti, principal prêmio de literatura do país, segundo lugar na categoria Reportagem e Documentário. Silêncio, mais uma vez.  

Uma observação esclarecedora. Na mesma reportagem a GloboNews ignorou que, na mesma biblioteca da mesma penitenciária, para os mesmos cidadãos encarcerados, também se ofereça "Lava Jato", de Vladimir Neto, repórter da casa. Em minha opinião, uma obra apenas laudatória em tempos de horror e perigo. Não importa. Está lá para quem quiser ler.

Numa reação comum em situações como essa, alguns amigos acham que, seguindo a máxima cunhada pelo inesquecível Carlos Imperial, eu deveria celebrar os segundos dedicados ao livro com a frase: "Falem mal, mas falem de mim." Reconheço que pode fazer algum sentido num ambiente de miséria absoluta e impotência diante do monopólio da comunicação no país. Mas no fundo é o reflexo de muita derrota, muito pessimismo. Não é uma resposta para uma nação ou um povo que precisa de informação. Mas apenas merda para um monte de merda.

E assim chegamos a mais uma descoberta entre tantas que pudemos fazer neste terrível ano de 2016. Coisa de ditaduras grandes, aquelas que envergonham contemporâneos e traumatizam descendentes, produzem cenas lamentáveis e episódios grotescos como denunciar obras dissidentes. Quando teremos a primeira fogueira?

O ponto escandaloso é registrar que há mais pluralidade -- um traço essencial da democracia e da liberdade -- na biblioteca de uma penitenciária do Paraná do que no jornalismo da GloboNews

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