Milei, o novo personagem do ridículo político

'Os argentinos não sabem o que elegeram, mas encontram a expressão estético-política do problema que os atinge', escreve a colunista Marcia Tiburi

Candidato presidencial argentino Javier Milei
Candidato presidencial argentino Javier Milei (Foto: REUTERS/Mariana Nedelcu)


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Os argentinos e seus dois desesperos

O novo presidente da Argentina é a mais nova expressão da mutação chamada “ridículo político”.

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Política é uma questão de performance, e a performance do ridículo captura as pessoas pela catarse. Rir é bom, mas há um tipo de riso que é tornado impossível no momento da vergonha alheia. O ridículo é efeito dessa impotência. E é com ela que a política contemporânea tem avançado trazendo à cena personagens grotescos e desqualificados, que se capitalizam com a miséria de suas próprias figuras.

Não nos assustemos com o paradoxo do quanto pior melhor. É de toda uma operação de paradoxos e criação de confusões estéticas que se trata e a perversão política em jogo se alimenta dele. A sensação de “mundo invertido” (per-verso) não é um acaso.

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O ridículo político é um jogo estético que depende de uma hipnose das massas. Todo perverso sabe hipnotizar e confundir. Bolsonaro foi o Rei do Ridículo até ser desbancado por Milei, mais perverso e delirante do que ele.

É a vez dos argentinos caírem na lorota da extrema-direita e seus personagens bizarros. Como explicar a escolha de um projeto neoliberal alucinante com um líder alucinado para resolver os problemas sociais e econômicos da Argentina? O que leva a crer que alguma coisa vai melhorar quando tudo segue a piorar um pouco mais? Agora, vemos os argentinos dominados por dois desesperos. Um é o econômico, efeito do fracasso neoliberal. Temos a dizer que tratar a causa do problema como sua solução não é burrice, mas astúcia do sistema econômico. O outro desespero é mais profundo. Ele é bem representado pelo eleito, fascista cênico, meio “coringa”, totalmente cínico, que grita vazio e perdido de si mesmo, entregue ao narcisismo e à paranoia. O “Joker” promete resolver a tragédia econômica usando a farsa do Estado Mínimo e sua balela neoliberal para adestrar pobres que não terão Estado que lhes sirva, dedicado que está inteiramente ao enriquecimento dos ricos.

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Assim a incoerência neoliberal fica visível. Na verdade, é uma astúcia que precisa ficar oculta pela gritaria histriônica do maníaco em surto. Um neoliberal nunca deveria se candidatar e jamais ter cargo público. Falo dessa artimanha há anos. Enquanto isso, a mídia aderente trata Milei com o eufemismo pomposo de “anarcocapitalista”.

Anarcocapitalismo é apenas o novo nome da guerra odienta dos ricos contra os pobres em que a pulsão de morte, ou o desejo de matar, cumpre um papel gigante. Os argentinos não sabem o que elegeram, mas encontram a expressão estético-política do problema que os atinge.

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