Militares, para que te quero. Temos Arthur Lira

"Jair Bolsonaro comemora a vitória de Lira, como se fosse um golaço do seu time. Não é. Restará a ele e aos filhinhos dizer 'sim senhor', para o novo presidente da Câmara", avalia a jornalista Denise Assis sobre a eleição para presidência da Câmara

(Foto: Michel Jesus/Câmara dos Deputados)
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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia

Leia minha coluna "Errei, sim", que faz uma correção sobre essa

Esqueça aquele revolucionário clássico que existe em você. A coleção de estrelinhas: as esmaltadas, as de plástico, o pin já meio enferrujado, e jogue no fundo da gaveta. Aquela camiseta com a estampa da Dilma coração valente, recorte e transforme em pano para limpar o vidro da janela. Tornaram-se coisa de “acumuladores”.

Aquele fantasma do golpe com retorno dos militares ao poder, não passa de uma alegoria para textos de efeito. Já, há algum tempo, desde a metamorfose de Bolsonaro – resultado da constatação de que as fileiras não o seguiriam numa aventura fora da Constituição -, que este risco já fora cancelado. Desde ontem, porém, quando o painel da Câmara apontou o resultado de 302 votos pró Arthur Lira ficou mais que patente que Bolsonaro não precisa mais do general Braga Neto dominando a Casa Civil. E, se quiser, pode dispensar o agora “empijamado” general Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Aquelas trocas de amabilidades com o general comandante Edson Pujol, também se tornaram desnecessárias.

Para que golpe tradicional? Bolsonaro não é mais o que pensava que era.  O dono do pedaço. A partir de hoje, os salamaleques, ele os deve ao presidente eleito para a Câmara, sim, Arthur Lira, o que quase estrangulou a ex-mulher, conforme entrevista da própria Jullyene Lins, com quem foi casado durante 10 anos.

Levando-se em conta que para qualquer alteração na Carta Magna são necessários 308 votos e ele praticamente os tem – o que são seis votos para quem obteve a avalanche de 302? – está tudo dominado.

Um dia qualquer, Arthur, ainda de pijama, calça as pantufas, estica o corpo num espreguiçar e, de mau humor, decide que chega deste negócio de liberdade de expressão, liberdade de ir e vir e que dará um jeito nisto, baixando um AI-18. (Não um AI-5, como alardeia o ignorantão Eduardo Bolsonaro. Ele não sabe, mas depois do AI-5, o seu fetiche, vieram outros 12). Bastará encaminhar um projeto do tipo “fecha tudo” – sonho de consumo de Bolsonaro – e pronto. Seus 302 seguidores votam, se abraçam em júbilo e eis nós de novo “perturbando a paz e exigindo o troco”, tal como cantou Paulo Cesar Pinheiro.

Vivemos o triste momento de dobrar a desbotada palavra de ordem: “o povo unido jamais será vencido” e guardar numa caixa. Enrolar a faixa: “abaixo a inflação”; aquele cartaz: “chega de arrocho salarial” e pensar numa saída honrosa. Há quem só veja a do aeroporto… (Despertar a militância poderá levar alguns anos). E, imaginem com toda a maldade no coração, na seguinte manchete: “Cai a dupla Bolsonaro/Mourão”. É ele, Lira, o terceiro na linha sucessória!

O golpe está dado, está em curso, galopa no nosso lombo com medidas que, tal como fez Arthur Lira, com a ex-mulher, vai aos poucos nos esganando, nos tirando o ar. Pautas econômicas draconianas, falta de oxigênio nos hospitais, nos leitos dos acamados por Covid-19 e pelo adiamento absurdo da produção e compra de vacinas, nos afogam lentamente. (Obrigada, Rodrigo Maia)!

Alianças nos colocam de joelhos até nos levar a morrer na praia, como aconteceu na noite de ontem, 10 minutos depois de Lira ser declarado presidente da Câmara. Às favas com o estatuto. Os que puseram a bunda na janela em troca de cargos na mesa diretora, foram barrados no baile na primeira contra dança. (Ah! Mas podem apelar ao Supremo! Com esse judiciário???)

Enquanto isto, Jair Bolsonaro comemora a vitória de Lira, como se fosse um golaço do seu time.  Não é. Restará a ele e aos filhinhos dizer “sim senhor”, para o novo presidente da Câmara que, olhando-o de baixo acima, pode determinar: “isto eu não pauto não”. E aí, lá se vão mais bilhões, cargos e outro naco do poder que ele um dia pensou ter, e a cada dia encolhe mais e mais, engolfado pelo “troca-troca” em que se meteu. Generais, agora, só se for para gerenciar o balcão das negociatas. Durante a campanha de Lira ficou demonstrado que disto eles entendem bem.  

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