Milly Lacombe, Kaká e o racismo estrutural

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Pega fogo cabaré do futebol brasileiro! Na ausência de grandes jogos em tempos de isolamento, nos resta entreter com as polêmicas que o esporte mais popular do país costuma provocar. A da vez, fica por conta da declaração da jornalista Milly Lacombe, quem também é colunista do site UOL, declarou que o ex jogador Kaká, a versão Ayrton Senna dos gramados no quesito bom mocismo, porém, sem a mesma capacidade técnica do automobilista, foi apenas um jogador comum.

Para ela, Kaká sempre foi superestimado por ser branco e de classe média alta, e, mesmo tendo sido um “bom atacante”, foi favorecido por seu perfil social e por seu fenótipo racial. Eu, que em função do machismo estrutural, um dia duvidei da capacidade das mulheres entenderem de futebol, estupidez da qual agora estou curado, além de corroborar com a opinião de Milly, gostaria de citar alguns exemplos de jogadores historicamente subestimados no futebol brasileiro, possivelmente por não gozarem do mesmo privilégio social e racial que o ex ídolo são paulino.

Na minha humilde opinião de torcedor, que desde que se entende por gente acompanha futebol, Kaká foi um Caio Ribeiro com sorte. A semelhança entre as carreiras dos dois ex atletas é enorme. A começar pelo perfil étnico e social de ambos, passando pela imagem de príncipes encantados montados num cavalo branco, até chegar ao estilo de futebol praticado nos condomínios dos jardins da elite paulistana. Tendo as suas duas primeiras “virtudes” aqui citadas, sido muito mais exploradas pela mídia do que a terceira, por razões esportivas e estruturais óbvias.

Seguindo o mesmo raciocínio de Milly, eu considero que Kaká foi um bom jogador. O resto é forçação de barra de torcedor e de jornalista esportivo mais empolgado com as características pessoais do ex atleta, do que com o seu desempenho futebolístico. Atualmente, o meio campista Diego Ribas do Flamengo, passa pelo mesmo processo de transmutação idolátrica produzida pelo mesmo tipo de torcedor e de jornalistas empolgados com o comum. Tal processo está alicerçado numa estrutura racializada, que nos impõe como conceitos de superioridade, a raça, a classe e o estereótipo.

Quantos jogadores de futebol negros estão na galeria dos cerebrais, dos pensadores e dos diferenciados intelectualmente dentro e fora de campo? Pelé, o maior de todos os tempos na opinião de muitos, apesar do título de “Rei”, costuma ser muito mais elogiado pelo seu vigor físico, do que pela sua inteligência. Por que será? Fora de campo, suas leituras da realidade não costumam mesmo credenciá-lo ao posto de “pensador”. Mas até isso precisa ser analisado sob o ponto de vista estrutural, uma vez que seus posicionamentos, sempre isentos de responsabilidade, são milimetricamente calculados para não macular a sua majestade diante do sistema que lhe ofereceu a coroa. Apesar de todos os seus méritos para conquista-la.

Como falei anteriormente, muitos jogadores, e não apenas negros, costumam ser subestimados na memória e na história do nosso futebol. E, quando não subestimados, não recebem o mesmo carimbo de importância dado a outros menos talentosos do que eles. Andrade e Adílio, ídolos da geração mais vitoriosa do Flamengo, apesar da grandeza do futebol apresentado ao longo de suas carreiras, nunca chegaram a disputar uma copa do mundo e suas passagens pela seleção foram quase insignificantes. Tecnicamente indiscutíveis, nunca conseguiram ser absorvidos pelo endeusamento coletivo que, por exemplo, conseguiu alçar Kaká, um jogador tecnicamente muito inferior aos dois, à condição de melhor jogador do mundo.

O pentacampeão Rivaldo é outro exemplo de subestimação. Ídolo no Corinthians, no Palmeiras e no Barcelona, onde também foi eleito melhor do mundo, ele não costuma ser destaque na mídia. Muito mais jogador do que Kaká, em todos os quesitos de avaliação técnica, o seu perfil não favorece o seu marketing pessoal. Negro, nordestino e de origem pobre, a nossa memória afetiva estrutural o enxerga como a antítese da imagem que Kaká sugere. Uma análise iconográfica induzida pelo preconceito instituído como caráter normativo em nossa sociedade. Subestimação baseada no racismo puro e simples.

Para não dizer que não falei de jogadores brancos subestimados ou nem tão valorizados como deveriam, cito alguns tecnicamente superiores a Kaká, mas que talvez não tivessem o perfil que a idolatria midiática pudesse aproveitar. Pita (ex São Paulo), Geovani (ex Vasco), Zenon (ex Corinthians e Tita (ex Flamengo), são alguns deles. Sem falar em Marcelinho Carioca, Djalminha, Edilson, Adriano, e muitos outros que jogaram mais do que Kaká, cujos perfis ou comportamentos sociais fora de campo, não colaboram com a comercialização de suas imagens.

O futebolismo “nutella” está em polvorosa com a declaração de Milly Lacombe. E foi preciso que a percepção feminina trouxesse luz à um mundo majoritariamente masculino e especialista no assunto. As tentativas de desqualificar a opinião da jornalista, passam pelo machismo estrutural de muitos que ainda acreditam que lugar de mulher é na cozinha. Mais do que desmitificar os conceitos sobre os quais alguns ídolos são forjados, Milly meteu o dedo na ferida mais sensível da nossa sociedade nos dias atuais. O racismo estrutural. O preconceito institucionalizado como política de estado. Algo para muito além dos campos de futebol e dos falsos ídolos que o sistema produz.

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