Minas à espera de Lula...
"Dois temas inquietam particularmente os mineiros neste momento de intensa turbulência política. Primeiro, quem são os políticos mineiros que compõem a extensa lista de propineiros da Odebrecht, encabeçada pelo senador Aécio Neves. Segundo, se o ex-presidente Lula virá a Ouro Preto, no dia 21 de abril, para receber do governador Fernando Pimentel, o Grande Colar da Inconfidência, a maior honraria que Minas dá a quem prestou serviços ao Estado", diz o colunista Carlos Lindenberg; ele lembra, no entanto, que antes de Fernando Pimentel, Aécio Neves já deu a Lula a mesma medalha e que a dúvida persiste: Lula irá ou não a Ouro Preto para falar em nome dos agraciados?
Dois temas inquietam particularmente os mineiros neste momento de intensa turbulência política. Primeiro, quem são os políticos mineiros que compõem a extensa lista de propineiros da Odebrecht, encabeçada pelo senador Aécio Neves. Segundo, se o ex-presidente Lula virá a Ouro Preto, no dia 21 de abril, para receber do governador Fernando Pimentel, o Grande Colar da Inconfidência, a maior honraria que Minas dá a quem prestou serviços ao Estado.
No primeiro caso, a relação é extensa e começa com o senador Aécio Neves, por sinal, quem botou ¨fogo no paieiro¨, como diria Fernando Henrique, ao não aceitar o resultado das urnas de 2014 – embora na noite do domingo da eleição, contados os votos, tenha divulgado nota reconhecendo a vitória da presidenta Dilma Rousseff. Menos de uma semana depois do reconhecimento da derrota, o PSDB entrou no Tribunal Superior Eleitoral pedindo a recontagem dos votos e uma auditoria no sistema de apuração, pela primeira vez, desde que a urna eletrônica foi introduzida no país.
Desde então, o senador mineiro não parou de tentar de tudo para tirar a presidenta reeleita do poder. Enquanto mexia os pauzinhos, como se diz em Minas, com a ajuda prestimosa do ministro Gilmar Mendes, presidente da Corte, - oTSE - que, nesse meio tempo, havia aprovado as contas de campanha da chapa Dilma/Temer, vencedora do pleito, Aécio, de outra parte, negociava com o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o impeachment da presidenta. E deu no que deu como nos conta a crônica política desses dias que correm. Eduardo Cunha está preso depois de perder o mandato e a presidência da Câmara, Temer usurpou o poder e assumiu o cargo, que pela vontade do povo pertence a Dilma, e Aécio é o campeão das delações dos executivos da Odebrecht, na companhia dos outros dois senadores mineiros, Antônio Anastasia e Zezé Perrela, numa relação que envolve mais de 200 nomes, no mais claro sinal de como a máquina do Estado foi apropriada por empresas privadas, capitaneadas pela Norberto Odebrecht.
Mas Aécio, Anastasia e Perrela estão em companhia de quase 40 nomes de mineiros que teriam recebido também dinheiro, supostamente do caixa dois da Odebrecht, que parecia interminável – quase R$ 3,5 bi nessa lambança entre o interesse público e o privado. Há, como nas outras relações, nomes de todos os pesos: governadores, ex- governadores, ex-prefeitos, deputados federais, estaduais, vereadores, enfim, uma salada para todos os gostos, até por que de partidos diversos.
É evidente, e não poderia ser o contrário, que todos negam. Alguns com propriedade, outros nem tanto, dadas as evidências e os indícios que em Minas não eram segredo para ninguém, a despeito da dificuldade de qualquer comprovação - daí o espanto de Emilio Odebrecht com o alarido da imprensa diante da descoberta das falcatruas, dele e de seu filho, Marcelo, a ponto de o dono da maior empreiteira do País se dizer assustado com a reação da imprensa, já que todos sabiam do que acontecia¨ , tendo citado nominalmente o Estadão, entre os jornais. “Mas era uma coisa normal, que vem de mais de 30 anos”, reclamava o empreiteiro, sem esconder a decepção, ainda que durante o depoimento ao Ministério Público, em dezembro do ano passado, pudesse rir de algumas passagens.
Enquanto em Minas se especula cada vez mais sobre novos nomes que poderão engrossar a relação dos que teriam recebido propina, ajuda, contribuição ou o que seja da Odebrecht, a outra interrogação é sobre a presença de Lula na celebração do Dia da Inconfidência, em 21 de abril. De fato, o governador Fernando Pimentel queria dar a Lula a distinção que considera que ele merece, agraciando-o com a Medalha da Inconfidência e deixando a seu cargo o discurso oficial da solenidade. Ocorre que o senador Aécio Neves foi mais rápido do que Pimentel: em 2003, logo após eleger-se governador de Minas Gerais, Aécio Neves, quem sabe comemorando o sucesso do voto “lulécio”, um voto em Lula e outro em Aécio, o que o ajudou a chegar ao Palácio da Liberdade, agraciou o presidente Luis Inácio Lula da Silva com o Grande Colar da Inconfidência, o grau mais alto da honraria mineira, tomando a primazia de Pimentel, que não tem como encontrar nesta comenda uma insignia maior para dar a Lula. Mas a dúvida persiste: Lula irá ou não a Ouro Preto para falar em nome dos agraciados?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
