Minério de sangue

Não é razoável que a Vale esteja visando menos gastos com as hospedagem dos moradores de Macacos (MG) sem garantir o seu bem estar e prover um laudo de responsabilidade assegurando de que não haverá um rompimento de barragem

Minério de sangue
Minério de sangue

Os "Recursos Naturais Malditos" é um termo comum utilizado em alguns países da África para definir a abundância de combustíveis fósseis e minerais que geram oportunidades de ganhos monetários e políticos, conflitos de interesses e mortes. O filme estrelado por Leonardo Di Caprio abrange essa questão em "Diamante de Sangue" que ilustra a guerra civil em Zimbabwe nos anos 90, cujo personagem principal é o diamante cor de rosa.

Não longe dessa comparação, está o minério de ferro extraído de Minas Gerais, que vem sendo chamado de "Minério de Sangue". Isso é em consequência da mineração irresponsável que visa ganhos monetários sem a devida preocupação com o meio ambiente e a vida dos habitantes próximos à área de extração deste recurso natural. Após vários desastres ambientais no estado, causado por rompimento de barragem de rejeitos, mais uma área de preservação está ameaçada: São Sebastião das Águas Claras, conhecida como Macacos, situada a 25 km de Belo Horizonte. Desde o dia 16 de fevereiro, quando a sirene da Vale soou neste distrito de Nova Lima sob ameaça de rompimento da barragem B3/B4, da Mina Mar Azul, 274 moradores encontram-se hospedados em hotéis e pousadas de Belo Horizonte e Macacos, evacuados pela empresa. O povoado, de aproximadamente 3.000 habitantes, que é muito visitado por turistas durante todo o ano, virou fantasma. Placas de "rota de fuga" por todos os lugares (onde só passa um carro por vez), caminhonetes da Vale rondando as ruas como em missão de paz da ONU. Restaurantes fechados e, os abertos no fim de semana, estão vazios. O trabalhador informal no setor de serviços está sem remuneração, agravando, assim, a situação de desalento que se formou neste local.

Um comunicado do Ministério Público destinado aos moradores, mencionou que até o dia 13/3, os desabrigados teriam hospedagens fornecidas pela Vale. Este, causou grande alvoroço na população por ter que sair às pressas de seus hotéis. Na véspera, houve uma reunião dos representantes da empresa junto ao MP e aos moradores. A Vale, então, retificou que, a partir do dia 17 deste mês, disponibilizará casas (não mais hotéis) somente para os moradores que se encontram na "área da mancha". Atestou, também, que instalou um radar capaz de detectar movimentações milimétricas na estrutura, além da transmissão online de duas câmeras.As dúvidas pertinentes são constrangedoras; no caso daqueles que não estão na área de risco terem que sair dos hotéis e voltar pra suas casas. Isso, porque que a Vale não fez nenhuma reparação em sua barragem, apenas instalou um radar para avisar aos moradores no caso de evacuação do distrito. "Por que antes era perigoso e agora não mais, já que nada foi feito?" Como estaremos realmente salvos, se há apenas uma via de acesso, com muitos carros tentando sair ao mesmo tempo de dentro do distrito no caso de ruptura da barragem?" "Como regressar sem um laudo assinado pela Vale garantindo nossa integridade física?"

É importante mencionar que foram exonerados 21 superintendentes estaduais do IBAMA pelo Ministro de Meio Ambiente/ Agricultura, Ricardo Salles. Dentre eles, o superintendente de MG, Dutra Grillo, que alertou sobre a barragem da Mina Córrego do Feijão em Brumadinho, a qual não apresentava "risco zero".A declaração do ex-superintendente do IBAMA se concretizou, uma vez que a extração de minério na cidade foi responsável pelo maior desastre ambiental no mundo causado por rompimento de barragem, ocorrido em janeiro deste ano. Reportaram-se 201 mortes, 107 pessoas desaparecidas e ao menos 350 km de contaminação do rio Paraopeba.

Poderíamos pensar em um incidente isolado, não fosse o rompimento de outra barragem ocorrido três anos atrás em Mariana, com a morte de 19 pessoas, 39 cidades afetadas, bem como, a destruição dos ecossistemas de água potável e matas. Em 2014, 3 mortes resultaram do rompimento de uma barragem da Herculano Mineração, em Itabirito. Contudo, essa não foi a primeira vez que a população de Macacos sofre com a possibilidade de um rompimento de barragem, sendo que, em 2001, 5 pessoas foram mortas e danos ambientais irreparáveis à fauna e a flora da região que compreende 195 hectares de vegetação preservada.

A Vale deve se responsabilizar pela segurança de todos os moradores de Macacos e tomar os procedimentos cabíveis de reparação da barragem, não apenas medidas paliativas. Não é razoável que a empresa esteja visando menos gastos com a hospedagem dos moradores sem garantir o seu bem estar e prover um laudo de responsabilidade assegurando de que não haverá um rompimento de barragem. Todos estes crimes ambientais procedentes da mineração imprevidente há que ser banida do estado de Minas Gerais. Aqui, não mais Minério de Sangue!  

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