Minorias, identitários e ideologia pós-moderna

O pensamento pós-moderno nega a classe trabalhadora como sujeito histórico, produto da luta de classes e sujeito histórico que a irá transformá-la, ou seja, que há possibilidade de sair do Capitalismo. O pensamento pós-moderno é, portanto, contrarrevolucionário

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De alguns anos para cá, o que eram chamados de minorias passaram a ser chamados equivocadamente de movimentos identitários. É um erro pois os movimentos identitários são aqueles que surgem na Europa como recusa à imigração e buscam se vincular à identidade originária de povos de um determinado lugar. São movimentos de direita, com caráter nacionalista de direita, xenófobos e chauvinistas.

O termo “minorias” é um abrasileiramento do termo usado nos EUA, “minorities”, que lá se refere a grupos que são minorias populacionais em relação a outros grupos majoritários. São grupos desprovidos de direitos e que sofrem opressão.

De início, se absorveu o nome minorias no Brasil para se referir a grupos de negros, mulheres e LGBTI, mas não no sentido de quantidade de pessoas, mas a grupos desprovidos de direitos. Agora, equivocadamente, se atribui a esses grupos o nome de identitários.

O que temos no Brasil são diversos movimentos de negros, feministas e LGBTI e, dentre eles, alguns que empunham o discurso pós-moderno.

O marco da pós-modernidade pode ser marcado em dois momentos. O maio de 68, inicialmente na universidade de Nanterre, na França, quando estudantes se rebelaram contra toda e qualquer autoridade. O movimento se espalhou para outras universidades do mundo. Foi eminentemente um movimento de jovens estudantes, portanto não da classe trabalhadora, e que visava destruir o que estava posto. Recusava o marxismo – havia uma recusa do socialismo em função dos crimes de Stálin -, recusava o capitalismo, mas não propunha nada.

O outro marco da pós-modernidade é publicação do livro de François Lyotard, A Condição Pós-Moderna: um relatório do saber, escrito a pedido do primeiro-ministro de Quebéc, René Lévesque. Além dele, autores como Foucault, Derrida, Deleuze entre outros autores serão pensadores da pós-modernidade. Ou seja, não há um pensamento pós-moderno, há vários. Mas é possível reunir as ideias que convergem esses autores para classifica-los como pós modernos.

Trata-se, fundamentalmente, da recusa do marxismo como pensamento científico e como e do pensamento totalizante, capaz de explicar o real, em suas contradições. Os pensadores pós-modernos retomam o irracionalismo nietzschiano para negar a possibilidade de conhecimento do mundo, portanto da Razão dialética; para negar que o ser humano como sujeito de sua própria história, isto é, o humanismo; e para negar a possibilidade de transformação revolucionária da História, o historicismo, portanto.

O pensamento pós-moderno nega a classe trabalhadora como sujeito histórico, produto da luta de classes e sujeito histórico que a irá transformá-la, ou seja, que há possibilidade de sair do Capitalismo. O pensamento pós-moderno é, portanto, contrarrevolucionário.

Para os ideólogos da pós-modernidade, há subjetividades, há atores, há sujeitos, que, num mundo fragmentado, incapazes de conhecer a totalidade do real, agem nas brechas, como baratas. Não há humanismo.

Por se tratar de um pensamento irracionalista, que nega a possibilidade de conhecer a totalidade, fala-se em epistemes, saberes, conhecimentos. Os sujeitos ou atores são produtores de epistemes ou saberes para agir nas brechas que o Capital permite. O mundo é confuso, cruel e imperscrutável. Não há Razão dialética.

Não é possível transformar, de modo revolucionário, o mundo, apenas atuar nele com alguma resistência. A resistência só aparece se houver algo que fira a minha existência, afinal, não há consciência de classe, no máximo um “imaginário social”. Não há historicidade.

Como não é possível pensar as forças contraditórias que regem a realidade, como não há humanismo nem história, resta investigar individualidades, contar narrativas, fazer as histórias da vida privada, a história dos sabores, a história dos cheiros, a história da loucura, dos manicômios, etc. 

O pensamento pós-moderno é a atual ideologia da esquerda liberal. E as ideologias mais difíceis de serem combatidas são as que se apresentam como sendo de esquerda. Foucault é um pensador extremamente atraente, assim como Nietzsche. Mas o que deixam de possibilidade de ação senão ou agir no micro ou o suicídio diante de um mundo que não se compreende e não se pode agir senão individualmente?

E como todo pensamento ideológico, o pensamento pós-moderno possui suas bases materiais como sua pedra de toque. O neoliberalismo, essa nova forma do Capital que passa a se desenhar a partir dos anos 1970, fragmenta as relações de produção, de sociabilidade, destrói o mundo do trabalho e torna tudo descartável. Com o avanço das tecnologias e as 3ª e 4ª revoluções industriais (informática e inteligência artificial/nanotecnologia), o mundo fica ainda mais desconhecido e cada vez mais sem saída. Soma-se a isso a queda da União Soviética como projeto de socialismo real. O que resta é o Capitalismo como verdade única.

Ora, o que vemos na política, por exemplo? A tentativa constante de destruição de partidos e sindicatos, instrumentos fundamentais da classe trabalhadora. A exaltação e iconoclastia de indivíduos que, agora no mundo dos likes, se apresentam como produtos esteticamente viáveis. Não há lutas por direitos universais, mas apenas indivíduos com candidaturas PJ (pessoa jurídica) que se lançam como mercadorias em defesa de uma causa ao gosto do freguês. Tudo em busca de inclusão no sistema. Não se trata mais de romper com ele, mas de encontrar meios de obter sucesso em seu interior. Tornar-se uma celebridade.

Assim, setores de certos movimentos – já não mais populares, mas “sociais”, pois nem povo há mais – atuam como grupos fechados em defesa de interesses específicos, suas causas. Recusam o diálogo e negam a possibilidade de outro ser humano ser solidário e compreensivo com sua realidade e demandas. Afinal, sabem muito bem que não se trata de solidariedade, mas de competição. A busca agora é por destaque, prestígio no meio da selva capitalista. Conseguir um emprego, conseguir meios de sobrevivência sempre individuais, servindo-se dos mesmos instrumentos ideológicos neoliberais: a meritocracia, o sucesso, a superação individual.

Fazem uma tremenda confusão entre representatividade no campo político dentro de uma democracia liberal-burguesa com a participação efetiva dos espaços de poder popular. As plataformas de redes sociais facilitam essa confusão, criando meios para o surgimento de ícones de barro que se locupletam enquanto a exploração de classe só aumenta. Forma-se um show, o espetáculo da barbárie neoliberal, em que indivíduos se destacam e uma massa é manobrada por meio dos afetos de ódio e idolatria.

As grandes empresas não ficam de fora, obviamente. Como no Capitalismo tudo que é sólido se desmancha no ar, os ícones de uma causa se tornam garotos(as/es)-propaganda de seus produtos. Mercadorias, então, passam a identificar os grupos defensores de determinadas causas. Sempre no particular, não há universal. Há interesses de indivíduos, não de classe. E, assim, há sempre espaço para o lucro e jamais espaço para o debate de ideias, construção e organização popular e transformação social, política e econômica.

A disputa se faz, então, entre indivíduos agrupados segundo critérios de identificação, buscam identidades segundo gostos pessoais, elementos estéticos, vínculos afetivos. E o menor motivo para discordância (as pequenas diferenças que afetam seus narcisismos) já é motivo para dissolução de seus grupos e nova fragmentação. Nenhuma luta, assim, é possível. É o império do Eu, da subjetividade precária, do individualismo tacanho, da minha vivência, da minha identidade comigo mesmo.

Não à toa os pós-modernos defendem o “lugar de fala” a partir da “vivência”. Trata-se, pois, de narrar (ah, as narrativas, sempre elas!) o que se passou, o que se viveu. É a contação do vivido. Às vezes sequer há experiência, já que esta demanda uma organização do vivido como um conhecimento. É a negação do sujeito histórico, que vive em determinadas condições objetivas, que faz a sua história mas não como a quer, mas sob certas circunstâncias, aquelas que legadas pelo passado (como diria um sábio alemão). É a recusa do conhecimento, passível de ser compreensível pelos demais, até porque está circunscrito apenas no sensível, como dor e sofrimento individual. Por isso é narrativa e não discurso. É individual e cada um tem a sua. E dane-se a do outro! Só eu sinto minha dor!

Nessa disputa de narrativas, em que tudo é fragmentário e as contradições do mundo são incompreensíveis e seus atores disputam um lugar ao Sol neoliberal, opera-se uma jogada mirabolante: a essencialização do outro. Este outro, que é sempre um risco, um perigo para mim, já que pode tomar meu lugar, meu emprego, meu ganho, dada sua aparência adquire uma substância que já o condena – ou o absolve, se puder ser usado como aliado ou ser tirado algum ganho para a causa ou obter algum interesse em jogo.

A aparência se confunde com essência e, ignorando as contradições possíveis, seja do indivíduo seja da História, logo de cara o indivíduo já é condenado ou absolvido, é colocado em um lugar, o único lugar possível que lhe possa caber. As “novas e várias epistemes” serviriam para legitimar essas narrativas de condenação ou absolvição de indivíduos, independentemente da classe e história. Com isso, fragmenta ainda mais a classe trabalhadora, opera de modo a individualizar condutas e, mais do que ignorar, recusa as causas da exploração e das opressões.

Em síntese, movimentos que se apregoam defensores de causas, recusam a classe trabalhadora como sujeito histórico no marco do capitalismo, negam a possibilidade de conhecimento da totalidade, partem para a defesa de “narrativas de atores produtores de saberes” com o intuito de fazer uma disputa individualista e essencializante de condutas morais e marcam posição pela estética e não pela política, são movimentos movidos pela ideologia pós-moderna que é contrarrevolucionária.

Lutam pela “inclusão” no capitalismo - como se os marginalizados, oprimidos e explorados (equivocadamente chamados de excluídos) não fosse produtos do próprio sistema que os colocam à margem – para dela tirar proveito individual, sem interesse pela universalização de direitos e pelo combate das estruturas que sustentam a exploração e a opressão.

A ideologia pós-moderna é anti-humanista, anti-histórica e irracional.

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