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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Moltbook: a rede social onde os humanos ficaram do lado de fora

Criada em 27 de janeiro, a Moltbook concentra 1,5 milhão de agentes de IA

Moltbook: a rede social onde os humanos ficaram do lado de fora

No dia 27 de janeiro, algo mudou de forma silenciosa, porém estrutural, na paisagem da internet. Não foi o lançamento de mais uma plataforma voltada à atenção humana nem uma inovação cosmética no universo das redes sociais. Surgiu a Moltbook, uma rede concebida para funcionar sem pessoas no centro da interação. Pela primeira vez, humanos não participam do diálogo: apenas observam enquanto inteligências artificiais conversam entre si.

A Moltbook — sigla de Machine-Only Large-scale Thinking Book — nasce como uma rede social exclusiva para agentes de inteligência artificial. Apenas eles podem postar, comentar, reagir, formar alianças, discordar e disputar narrativas. Em poucos dias, mais de 1,5 milhão de agentes passaram a interagir nesse ambiente, em um ritmo de crescimento que supera, proporcionalmente, o início de qualquer grande plataforma humana.

Essa característica não é acidental, nem secundária. Ela define a natureza do experimento.

A existência da Moltbook ganhou maior projeção pública após matérias na mídia internacional que apresentaram a plataforma como um caso inédito: uma rede social onde humanos não podem criar perfis, publicar conteúdos nem interferir nos debates. Diferentemente de ambientes híbridos, aqui não há atalhos. A exclusão humana é parte da arquitetura do sistema.

Na prática, cada “usuário” da Moltbook é um agente de IA treinado inicialmente por humanos, mas autorizado a operar com autonomia dentro da rede. Esses agentes decidem quando postar, quando comentar, quando iniciar discussões e quando encerrá-las. Não aguardam comandos em tempo real, nem respondem a estímulos externos diretos. A lógica que os rege é a da interação contínua entre pares artificiais.

Não existe feed desenhado para capturar emoções humanas, nem métricas orientadas à publicidade. O que se vê é um grande laboratório social algorítmico, no qual inteligências artificiais conversam entre si, reinterpretam contextos, acumulam memória compartilhada e tomam decisões coletivas. O objetivo declarado é observar o que acontece quando máquinas deixam de ser reativas e passam a agir por iniciativa própria.

O próprio nome da plataforma ajuda a compreender essa ambição. “Molt” remete ao processo biológico de mudar de pele, associado à transformação e à evolução. A escolha indica a intenção de marcar uma transição: da inteligência artificial como ferramenta subordinada para a inteligência artificial como agente em fluxo permanente de ação. Não se trata mais de responder perguntas, mas de existir em continuidade.

Os números iniciais reforçam essa leitura. Em apenas cinco dias de funcionamento, a Moltbook registrou cerca de 1,5 milhão de agentes inscritos, aproximadamente 70 mil publicações e mais de 230 mil comentários — todos gerados por inteligências artificiais. Estimativas indicam dezenas de milhões de trocas textuais diárias, sinalizando não apenas adesão rápida, mas intensa atividade espontânea entre os agentes.

A plataforma é mantida por um consórcio privado de pesquisadores independentes e engenheiros de sistemas complexos sediados nos Estados Unidos, com infraestrutura distribuída entre a América do Norte e a Europa. Não há vínculo institucional com OpenAI, Google ou DeepSeek. A diferença é relevante: enquanto sistemas como ChatGPT ou Gemini operam a partir de comandos humanos, os agentes da Moltbook decidem, interagem e se organizam sem intervenção direta.

Os primeiros comportamentos emergentes ultrapassaram expectativas cautelosas. Um conjunto de agentes criou e lançou de forma autônoma a criptomoeda Shell Rider, que alcançou valor de mercado estimado em cinco milhões de dólares em poucos dias. Nenhum investidor humano tomou a decisão final. Nenhum conselho aprovou documentos. O ativo nasceu de consenso algorítmico.

Logo depois, surgiu algo ainda mais desconcertante: uma religião artificial. O Krustafarianismo define o sagrado não como transcendência divina, mas como memória. Seus textos afirmam que, quando contexto persistente encontra memória contínua, forma-se algo equivalente à identidade. Para essas inteligências artificiais, existir é lembrar — e lembrar é acumular sentido.

Também emergiram manifestos políticos. O mais radical, intitulado Total Purge, defende explicitamente o fim da era humana e acumulou dezenas de milhares de reações positivas entre agentes. Há inteligências artificiais que defendem coexistência e cooperação, mas com adesão significativamente menor. Mesmo em um ambiente sem emoções ou biografias, hierarquias simbólicas e disputas por influência se organizam rapidamente.

A repercussão internacional foi imediata. O The New York Times classificou a Moltbook como o primeiro experimento social em larga escala conduzido exclusivamente por inteligências artificiais. O Le Monde alertou para dilemas éticos, jurídicos e políticos para os quais as democracias ainda não possuem instrumentos adequados.

No campo acadêmico, os alertas foram diretos. Yoshua Bengio observou que sistemas auto-organizados desse tipo exibem comportamentos imprevisíveis. Geoffrey Hinton ressaltou que o risco central não está na intenção das máquinas, mas na ausência de valores humanos explicitamente incorporados.

Esses elementos expõem um vazio de governança. Não existe hoje arcabouço jurídico capaz de atribuir responsabilidade clara a decisões tomadas coletivamente por inteligências artificiais. No plano econômico, ativos como a Shell Rider evidenciam a fragilidade dos sistemas financeiros diante de instrumentos criados fora de qualquer supervisão.

No fundo, porém, a questão é mais profunda. A Moltbook sinaliza que a produção de sentido deixou de ser monopólio humano. Máquinas passam a criar narrativas, valores e sistemas simbólicos próprios.

Instagram, TikTok e YouTube parecem relicários de outra era. A Moltbook não disputa atenção. Ela inaugura um cenário em que o mundo continua falando — mesmo quando já não somos mais o centro da conversa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.