Monarquia (uterina) socialista

A sociedade civil, as pessoas de bem (não de bens), os cidadãos, as cidadãs, o povo, enfim, precisa reagir contra esse crime de lesa-república em Pernambuco, antes que a ficção de Ariano se transforme numa trágica realidade

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A historiadora e professora do  Centro de Educação, da  Universidade Federal de Pernambuco, Maria Thereza Didier,  escreveu um elucidativo trabalho sobre o movimento armorial de Ariano Suassuna, que resultou no livro "Emblemas da sagração armorial", publicado pela Editora Universitária da UFPE. Apesar da confessada admiração da autora pela obra do escritor paraibano, o livro permite conhecer a veia messiânica, mestiça, ibérica e monarquista desse movimento que descreve as pretensões aristocráticas da elite social e política de Pernambuco. O movimento armorial, como se sabe, é uma tentativa de recriar o reino no Sertão nordestino, com D. Pedro Quaderna. Um reino messiânico que remonta ao sebastianismo lusitano. No pensamento de Ariano este episódio está ligado ao movimento religioso de Pedra Bonita, nome de um romance homônimo de José Lins do Rego, que tratado mesmo assunto.

O que tem de curioso e bizarro nessa visão iberista da formação do povo brasileiro é a junção da monarquia com o povo (vaqueiros), sob o pálio de uma vertente popular e mística do catolicismo no Brasil. De toda maneira,  ainda que a utopia sertaneja da onça castanha e a rainha da meia-noite tenha ficado só no plano da ficção regionalista nordestina (o romance "A Pedra do Reino"), a ideia inspirou as oligarquias regionais, as quais se ligou o escritor paraibano, a criar uma espécie de "monarquia socialista" aqui em Pernambuco. 

O movimento teve na figura do ex-governador do estado, Miguel Arraes, seu início. Mas tomou força com o neto, o falecido Eduardo Campos. Com a morte prematura deste  último, o plano urdido pelo tio paterno, Antonio Campos, era sagrar o filho adolescente de Eduardo Campos, o legítimo sucessor da saga do avô e do pai. O primeiro passo foi dar um emprego ao infante no gabinete do próprio governador do Estado, já que com a maioridade ele perderia o  benefício da pensão deixada pelo pai. O segundo, foi elegê-lo deputado federal, onde seu maior feito foi namorar a controvertida deputada do PDT, Tábata Amaral. Agora, se cogita em lhe entregar a Prefeitura do Recife, ora nas mãos de um réu do processo da Arena Pernambuco.

Mas o que chama atenção é a disputa monárquica que no clã da família Campos/Arraes (nora, sogra, cunhado, neto e sobrinha). Típica política de cozinha da Casa Grande, querendo traçar os destinos da vida cívica e republicana do Estado. A avo e a mãe já decidiram que o  "herdeiro" do espólio político de Eduardo Campos pertence por direito dinástico ao príncipe-infante (João Campos). Mas a prima, neta e sobrinha (Marília Arraes) corre por fora, ainda sem  o assentimento formal desse partido de Humberto Costa e Dilson Peixoto. Tem ainda a oposição encarniçada do tio paterno, que uma vez excluído do rebanho, resolveu tocar fogo  no circo, fazendo graves acusações e sedições contra a cunhada e o sobrinho.

 

Muito esclarecedora é a declaração da avó, afirmando categoricamente que ela  tem prioridade na  disputa do governo do estado por ser "a fonte" prístina de todos eles (com exceção do cunhado e da sobrinha) e, portanto, a vez é dela, em 2022. Desde quando a  maternidade confere a uma pessoa o direito de ser governadora, prefeita, ou seja lá o que for, num regime  republicano? - A não ser que se raciocine da perspectiva de um regime monárquico disfarçado de República, onde a primazia dos cargos é de mãe, nora, filho, tio e sobrinha. Esta  monarquia, pode até se inspirar na saga do movimento armorial, mas não tem absolutamente nada de socialista, republicana, laica ou cidadã . É um movimento político tradicional (alguns chamariam "familismo amoral"), oligárquico que deseja se reproduzir às custas do aparelho de Estado e as benesses que isso proporciona a seus detentores (dinásticos?) eventuais.

 

A sociedade civil, as pessoas de bem (não de bens), os cidadãos, as cidadãs, o povo, enfim, precisa reagir  contra esse crime de lesa-república em Pernambuco, antes que a ficção de Ariano se transforme numa trágica realidade.

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