Moro virou político e perdeu a salvaguarda de 'juiz imparcial'

"Moro virou político. Isso é ótimo, porque elimina-se aquela couraça do 'juiz imparcial', untada e besuntada pela mídia", diz o colunista Gustavo Conde, sobre a entrevista do ministro da Justiça ao programa Roda Viva da TV Cultura. Ele completa: "a oportunidade é boa para a oposição reestabelecer o debate público de qualidade"

Moro Roda Viva
Moro Roda Viva (Foto: Moro)

O universo da lacração é divertido. Tem a ver com a incitação necessária para ser sair da zona de conforto.

Mas quando ele se torna a regra, o modus operandi de toda e qualquer enunciação, ele perde o sentido.

Pior: torna-se um empecilho ao debate.

Se os setores da sociedade que ainda querem defender a democracia - nem vou falar "a esquerda" - não entenderem que esse vício da lacração é prejudicial a eles mesmos, o impasse político no Brasil vai continuar por um longo tempo.

Esse fenômeno pode ser observado nas reações diante da entrevista de Moro ontem no Roda Viva. Poucos querem observar o que de fato foi dito ou perguntado ali. Tudo é lixo, nada presta, Moro é mentiroso, jornalistas são tucanos e fim de papo.

E como a lacração é um vício, muitos lerão o parágrafo acima como apoio a Moro e ao jornalismo da TV Cultura.

Não é. É apoio ao pensamento crítico e à possibilidade de interlocução dentro dos setores progressistas.

O bolsonarismo só será enfrentado se o trouxermos para dentro da arena do debate público. Essa é a força da esquerda. Ali, ela é imbatível.

Mantê-lo proscrito como aberração é edificá-lo e blindá-lo de toda e qualquer possibilidade de estilhaçamento interno.

Esse meu comentário é também uma autocrítica. Eu incorri muitas vezes nessa lógica da proscrição do "outro" para potencializar as virtudes do "um".

É ferramenta retórica para ser usada com moderação, sob o risco de ela própria nos devorar.

E o que dizer de Moro no Roda Viva, se a vênia for concedida pelos guardiões do discurso?

Pouca coisa, de fato. Uma é que Moro virou político. Isso é ótimo, porque elimina-se aquela couraça do "juiz imparcial", untada e besuntada pela mídia.

Outra é que os jornalistas tentaram ser jornalistas. Sem muito sucesso, é verdade, mas eu não posso ficar chamando a Vera Magalhães de lixo.

Ela trouxe as questões do nazismo, da Secom e de outros escândalos do governo. Poder-se-ia dizer que estavam a serviço de João Doria, o "mantenedor" da Fundação Padre Anchieta.

Mas dizer isso seria um tiro de bazuca para matar um mosquito.

O cenário politico está mudando rapidamente. E ele munda mais rápido por inércia do que por uma ação efetiva da esquerda propriamente dita. Enquanto essa esquerda não abandonar esse tom lacrador, as coisas permanecerão difíceis.

Esse tom se alastrou de tal forma que o próprio The Intercept abusou dele em sua inserção paralela ao programa. Não que o The Intercept seja de esquerda, mas há uma esquerda profundamente inspirada por ele.

Tuítes esnobando o programa, ofensas, provocações gratuitas... Foi só isso que se viu em grande parte dos setores ditos progressistas.

É assim que queremos vencer a batalha da comunicação com a extrema-direita?

Óbvio que o cenário no jornalismo e na política continua complexo e que há más intenções para todos os lados.

Mas o que nós queremos, afinal? Diversão retórica?

Os processos políticos e sociais vão se acelerando e eu só consigo pensar numa coisa: é hora de apresentar um projeto político robusto e inovador para a sociedade brasileira. É hora de tomarmos o protagonismo e deixarmos de esperar o próximo comando seja lá de onde quer que ele parta.

É isso que pode nos manter vivos, aliás.

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