Morre Fernando Brito, dominicano preso e levado como isca, ao cerco de morte a Marighella

Em artigo de estreia como membro do Jornalistas pela Democracia, a jornalista Denise Assis revela bastidores sobre o frei dominicano Fernando Brito, que foi preso e torturado pela Ditadura Militar, e acusado injustamente de ter entregue para morte o líder guerrilheiro Carlos Marighella, cuja biografia foi retratada em filme de Wagner Moura; "Não. Fernando não entregou Marighella ao cerco", afirma Denise; "Descanse em paz, Fernando de Brito. Sua história foi passada a limpo em vida e agradecemos por sua luta", afirma 

Morre Fernando Brito, dominicano preso e levado como isca, ao cerco de morte a Marighella
Morre Fernando Brito, dominicano preso e levado como isca, ao cerco de morte a Marighella

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia - O dominicano Fernando de Brito, nascido no ano de 1936, em Visconde do Rio Branco (Zona da Mata- MG), não pôde esperar para ver nas telas como foi retratado na fita "Marighella", uma cinebiografia do líder guerrilheiro da ALN, feita por Wagner Moura. Personagem fundamental no episódio da morte de Carlos Marighella, Fernando Brito morreu de câncer, na sexta-feira, 15 de março, na cidade de Conde, interior da Bahia, onde viveu depois de breve passagem por Piraí, interior do estado do Rio de Janeiro. Fernando pertenceu ao grupo de freis dominicanos perseguidos por resistirem à ditadura civil-militar (1964-1985) que se instalou no país após a queda do presidente João Goulart.

Até meados de 1986, vivia assombrado pelos fantasmas da tortura. Os mesmos que levaram o colega, Frei Tito, ao suicídio, em um convento no interior da França, após ter sido trocado juntamente com outros 69 presos políticos, pelo embaixador suíço, Enrico Bucher.

Para conseguir equilibrar forças e espantar as lembranças turvas Fernando contava com a ajuda do psicanalista Hélio Pellegrino. Foi a ele que recorri, como jornalista, naquele ano de 1986, depois de insistentes pedidos de entrevista a Fernando. Não faltaram emissários que levassem a ele o meu pleito. Queria porque queria chegar a ele, pois, até então, o que se ouvia, era a atribuição da queda de Marighella a uma "deduragem" do dominicano. Não acreditava na versão. Queria ouvir dele o que, de fato, tinha acontecido.

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Pellegrino desconversava. Prometia ajudar, mas ao mesmo tempo ficava reticente, pois preservava, acima de tudo, a sua relação com o cliente. Um dia foi taxativo: "não acho conveniente. É submetê-lo de novo a sofrimentos. Ele não quer falar disto".

Considerei o argumento razoável, mas não a ponto de me convencer a abandonar o propósito de buscar a notícia e fazer frear os comentários que maculavam a imagem de alguém com passagem pelas mais bárbaras torturas na prisão. Durante três anos fiquei em seu encalço, até que um religioso da paróquia de Volta Redonda me deu a dica preciosa. O dominicano estava desenvolvendo um trabalho na CPT – Comissão Pastoral da Terra - na Rua Ipiranga, em Laranjeiras. Bom demais para ser verdade. O endereço que me foi passado era ao lado da minha casa e ele estaria lá, no dia seguinte, às 10h.

Avisei à chefia no Jornal do Brasil que faria uma "campana" naquele horário e pra lá rumei. Não tardou e eu ouvi passos pelo corredor estreito da vila onde ficava o acanhado escritório da CPT. A casa era a última, e isto possibilitou tempo para o meu coração subir até a boca, e eu tornar a engoli-lo. Nos cumprimentamos, e eu entrei firme:

-Estava à espera do senhor.

- Nós marcamos alguma coisa? Perguntou, cravando em mim os olhos grandes e azuis – ou seriam verdes?

-Não marcamos, mas eu gostaria de conversar. Posso?

-Claro, vamos entrar – respondeu, já indicando uma das cadeiras da mesa redonda, de madeira escura.

- E o que você quer? Como posso ajudá-la?

-Eu preciso apenas de uma resposta. (Frei Fernando estava com as duas mãos pousadas sobre a mesa). Vestia uma camisa clara, social. Eu agarrei as suas duas mãos, pressionando-as de leve contra a mesa, e olhando diretamente para os seus olhos, perguntei: até quando o senhor vai querer ser o filho-da-puta desta história?

- Não precisei dizer do que estávamos falando. O homem tranquilo e solícito que estava na minha frente desabou num choro convulsivo. Fiquei em silêncio até que ele se acalmasse, o que levou alguns minutos.

Fernando se recompôs e me olhando agora com os olhos vermelhos, mas confiantes, me disse:

- Você tem razão. Eu estou farto disto tudo. Acho que está na hora de contar a minha versão. Me encontre amanhã, às 19h na Casa Paroquial de Piraí. Estaremos fazendo uma procissão, e em seguida conversamos com calma.

-Posso encomendar carro e fotógrafo? Estamos combinados? (Temi que ele desistisse, tendo uma noite no meio).

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No dia seguinte, como o horário ultrapassava o da creche e o da babá que cuidava do meu filho, então com três aninhos, rumamos: eu, João, Ferreirinha (o motorista) e o fotógrafo Aguinaldo Ramos – não há meio dele se lembrar que foi ele a fazer a foto – para Piraí.

Lá, encontramos uma linda cena. Fernando, com seu hábito marrom, arrematado por uma bata rendada, branca, seguia à frente da procissão, levando uma cruz de madeira tosta, feita de galhos de árvore. A seu lado iam senhoras com velas nas mãos e cestas de produtos do cultivo. Todos cantavam hinos religiosos. Chegavam ao final do percurso. Fernando fez um sinal da cruz, abençoando a todos e entrou para a casa paroquial, onde iria remexer num passado de dores.

Perguntei se poderia gravar. Ele me incentivou. Considerou importante que fosse assim. E por mais de uma hora revisitou o dia da prisão no Rio de janeiro, (2 de novembro de 1969) quando descia de um ônibus, no Catete. As torturas começaram por lá mesmo, até que fosse levado para São Paulo, onde só se intensificaram.

Não. Fernando não entregou Marighella ao cerco. Era a primeira vez que falava disto. Suas frases eram entrecortadas pela emoção. Tivemos que interromper em alguns trechos, para que ele conseguisse prosseguir.

Tal como eu sempre acreditei, Fernando revelou que trabalhava na Livraria das Cidades, no Centro de São Paulo e lá recebia os contatos, por telefone, de Marighella. A polícia, que já vinha monitorando os dominicanos desde a prisão de Frei Tito, juntamente com o Frei Ratton Mascarenhas, grampeou a linha e vinha acompanhando os planos da ALN, combinados nas ligações. Esperaram até que finalmente Marighella marcou um ponto em São Paulo. Dali foi só os seguir e dar o bote em todos juntos, no Rio de Janeiro. Nesse dia caíram Ivo, Fernando e Frei Betto.

Levados a São Paulo, ficaram sob a vigilância da Polícia até o dia 4, quando então foi montado uma verdadeira ópera macabra para abater Marighella, na Alameda Casa Branca. O delegado Fleury se deu ao trabalho de desenhar croquis (vide reprodução abaixo), levar uma policial para encenar um namoro num carro frio, da Polícia, tudo para dissimular o cerco ao líder da ALN.

 

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O fusca em que os dominicanos Ivo e Fernando seguiram para o "ponto", estava sob forte escolta. Ao saltarem no local combinado, os policiais descarregaram as armas contra o único ocupante do veículo naquele instante. Ele havia atravessado a rua calmamente, observado por todos os agentes, escondidos sob uma lona, e se instalado no banco de trás, como sempre fazia quando cumpria pontos. O tiro que o abateu foi desfechado pela winchesther do agente João Carlos Tralli, que fez questão de alardear o feito e cantou loas à sua "Vilminha", como chamava a arma.

Era o fim de Marighella, mas não o do martírio de Fernando Brito, que mal começava. Ao chegarem de volta ao Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), Fleury atirou o dominicano dentro de uma cela dos presos da ALN, juntamente com uma caixa de goiabada (o prêmio), e anunciou: "O líder está morto. Foi ele quem entregou".

A indignação tomou conta de todos. Revoltados, alguns chegaram a esmurrar Fernando, que sucumbiu. "Eu comecei a acreditar na versão deles. Eles gravaram a minha conversa com o Marighella. Eu ouvi a gravação durante a tortura", reagia, ainda com muita dor, naquela noite, na casa paroquial de Piraí.

Mas não satisfeitos em fazê-lo acreditar que era um traidor e levar os companheiros a também ficarem convencidos, Fleury passou esta versão para a imprensa, que bancou. Conforme lembrou o site GGN, em 10/08/2014, "O Globo deu na primeira página a fotografia do convento dos dominicanos com a manchete: "Aqui é o reduto dos terroristas do Brasil". E fez um editorial, "O beijo de Judas" que não honra a história da nossa imprensa."

No editorial O Globo convence à opinião pública de que os dominicanos foram os responsáveis pela morte de Carlos Marighella. Fernando de Brito pegou para si toda a culpa, até poder chorá-la naquela noite em Piraí.

Como vivíamos ainda tempos difíceis, a matéria com as suas revelações ficou engavetada até junho de 1988, quando depois de muitos bilhetes insistentes de minha parte, enfim foi editada no Caderno B Especial do Jornal do Brasil.

Depois disto a sua trajetória ganhou uma versão em livro, em 2009, graças ao trabalho de Frei Betto, que reuniu as anotações que Brito fez em papel de seda enrolado na carga da caneta Bic, e entregou a vários dos seus visitantes, na prisão. Descanse em paz, Fernando de Brito. Sua história foi passada a limpo em vida e agradecemos por sua luta.

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