Morreu Paul Volcker, que banalizou o mal na economia

Há quatro décadas, ao estabelecer a supremacia do capital financeiro sobre o conjunto da economia, o presidente do Banco Central americano iniciou a substituição do desenvolvimentismo pelo neoliberalismo, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Tim Chong/Reuters)

A morte de Paul Volcker (1927-2019) permite à humanidade fazer um ajuste consigo mesma após três séculos de capitalismo. Sua passagem de oito anos pela presidência Federal Reserve americano -- instituição que ocupa o núcleo dos mercados financeiros do planeta -- marcou um passo decisivo na evolução doentia do capitalismo como o conhecemos hoje.

Nós sabíamos, desde Adam Smith (1723-1790),  que o capitalismo é um sistema que se alimenta do egoísmo dos indivíduos e não de seus valores morais.

Nas décadas finais do século XX, quando esteve à frente de decisões da grande máquina econômica da economia mundial, capazes de mudar o destino de uma fábrica no interior de Winconsin, um supermercado no interior da Argentina e os investimentos na industria naval da Coreia do Sul, Volcker foi o principal líder de uma geração de altos funcionários do Estado e executivos do mercado financeiro que contribuiu para dar um passo além.

Utilizou todos os meios a seu alcance -- em especial a taxa de juros  -- para provar que o capitalismo não deve ter princípios morais, que, numa contradição própria das sociedades humanas,  sempre ajudaram homens e mulheres  a resistir contra aos piores efeitos da exploração econômica.    

Foram muito bem sucedidos, como se comprovou ao longo dos últimos quarenta anos de história econômica.

Neste início de século XXI, habitantes do período de maior produção de riqueza na história da humanidade, partilhamos uma época de opressão e pobreza em escala nunca vista, enfraquecimento induzido dos estados de bem-estar social e perda de substância  de regimes democráticos.

Transformando a indiferença pelos mais fracos em bússola e método de trabalho, a política econômica instituída no período decisivo em que Paul Volcker deu as cartas na economia dos EUA fez muito mais do que promover ajustes de curto prazo, quem sabe sacrifícios passageiros.

Ele foi um dos mais obsessivos advogados da chamada independência do Banco Central norte-americano, eufemismo destinado a encobrir a supremacia do capital financeiro sobre o conjunto da economia norte-americana e, por contágio, mundial.


Em movimentos metódicos para elevar a taxa de juros cobrados de países que haviam sido estimulados a endividar-se por taxas módicas, inverteu o curso na história, derrubando um esforço -- de décadas -- de desenvolvimento na América Latina, a começar por México, Argentina e Brasil. Enfraqueceu a Europa Ocidental e devastou a Oriental. Resumindo: abriu as portas para a substituição do desenvolvimentismo pelo neo-liberalismo.  

Nos Estados Unidos, taxas de juros gigantescas jogaram o país na pior recessão em décadas, contribuindo para esvaziar os cofres do New Deal -- o pacto social que sustentou  políticas publicas progressistas --,  abrindo caminho para a desregulamentação social e a ruptura de direitos. 

O rentismo consolidou-se como principal caminho para a multiplicação da riqueza e a exploração dos mais pobres, cada vez mais pobres e menos protegidos.
Nasceram assim as sociedades sem esperança real de nosso tempo. Mesmo nos países mais ricos,  impera uma única utopia, de caráter negativo: evitar a pobreza e a desigualdade já consideradas como  males sem cura nos povos de países atrasados.  

Pedindo licença a Hanna Arendt, não há dúvidas que o curso assumido pela abrupta mudança de rumo, há quatro décadas, jogou nossas sociedades no caminho da banalização do mal.

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