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João Lister

Advogado, graduado pelo UNIUBE – Universidade de Uberaba, Pós Graduado MBA, em Direito Empresarial pela FGV e psicanalista

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Morte assistida e a objetização do ser humano

Objetiza-se o ser humano quando ele passa a ser avaliado a partir de sua utilidade, de sua autonomia ou do grau de conforto que seu corpo ainda proporciona

Morte assistida e a objetização do ser humano

Há temas em que a sociedade contemporânea revela, com nitidez desconcertante, a sua miséria moral. A defesa da morte assistida, muitas vezes apresentada como gesto de autonomia, lucidez e compaixão, é um deles. Sob a aparência de humanismo, esconde-se frequentemente uma concepção brutalmente empobrecida da existência humana: a de que viver vale a pena apenas enquanto o corpo funciona, a dor é suportável e a independência física permanece preservada.

Essa lógica, ainda que revestida por uma linguagem de direitos, dignidade e liberdade, reduz o ser humano a um conjunto de funções. A vida passa a ser medida por critérios de desempenho biológico, motor e orgânico. Quando esses elementos falham, fala-se então em “perda da dignidade”. Mas é precisamente aí que se instala o equívoco mais grave: confundir dignidade humana com capacidade física, autonomia corporal ou eficiência biológica.

A dignidade não desaparece quando o corpo fraqueja. Não se dissolve diante da limitação motora, da dor crônica, da dependência ou da fragilidade. Se assim fosse, teríamos de admitir que milhões de seres humanos que nascem sob severas limitações físicas, neurológicas ou sensoriais já nasceriam com uma vida diminuída em valor. E isso seria moralmente monstruoso.

O ponto central é que a defesa da morte assistida não surge no vazio. Ela floresce numa cultura que, há décadas, vem reduzindo o valor humano à produtividade, à autonomia, à performance e ao controle. O capitalismo tardio não mercantilizou apenas o trabalho; ele colonizou a própria ideia de vida digna. Passou-se a pressupor, ainda que silenciosamente, que vale mais quem produz, quem se basta, quem circula sem depender, quem não pesa sobre ninguém, quem não exige cuidado excessivo, quem não interrompe a fluidez dos ritmos sociais da utilidade e do consumo.

Nesse horizonte, a velhice dependente, a deficiência severa, a doença incapacitante e a dor prolongada deixam de ser experiências humanas que convocam solidariedade e passam a ser tratadas como estados de vida diminuída. O sujeito já não é visto em sua inteireza, mas a partir do que ainda consegue fazer. Sua humanidade passa a ser filtrada pela régua da funcionalidade.

É aqui que a retórica da “morte digna” se torna especialmente perigosa. Porque, por trás dela, pode estar se escondendo uma noção indigna de dignidade. Se a dignidade for tomada como sinônimo de independência física, ausência de dor e domínio do próprio corpo, então ela deixa de ser atributo intrínseco da pessoa para tornar-se prêmio concedido apenas aos corpos eficientes. E isso não é defesa da dignidade; é sua negação.

A experiência humana concreta desmente, todos os dias, esse materialismo vulgar. Há pessoas submetidas a intensos sofrimentos físicos que encontram, ainda assim, razões profundas para viver. Há quem, mesmo sem mobilidade, sem fala, sem autonomia ou sem qualquer perspectiva de cura, sustente uma vida interior riquíssima, uma capacidade de afeto extraordinária e uma presença humana insubstituível. O sentido da vida não está aprisionado no bom funcionamento do organismo. Ele nasce também da relação, do vínculo, da memória, da esperança, da transcendência e, sobretudo, do amor.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre morte assistida costuma ser empobrecida por um liberalismo abstrato, que imagina decisões humanas como se elas fossem produzidas em laboratório, isoladas de qualquer contexto social. Quando alguém diz desejar morrer por não suportar mais a dor, a perda de autonomia ou a humilhação da dependência, é preciso ouvir além da superfície. Muitas vezes, por trás do discurso da “escolha” ou da “morte digna”, esconde-se uma solidão devastadora. O que se apresenta como recusa ao sofrimento físico pode ser, em profundidade, a experiência de não se sentir mais amado, querido, necessário ou digno de cuidado.

Em outras palavras: nem sempre o que mata primeiro é a doença. Muitas vezes é o abandono.

Essa é uma dimensão que a sociedade contemporânea prefere não encarar, porque obrigaria a deslocar o debate da abstração jurídica para a crítica social concreta. Uma pessoa não deseja morrer apenas porque sente dor; ela pode desejar morrer porque se percebe como peso, como sobra, como vida cuja continuidade já não mobiliza paciência, ternura, atenção ou amparo. O corpo sofre, sim. Mas sofre também o sujeito produzido por uma cultura que idolatra juventude, eficiência, independência e controle, e que já não sabe o que fazer com a fragilidade senão escondê-la, medicalizá-la ou eliminá-la.

A civilização técnica tende a propor para tudo uma solução funcional. Se a vida sofre, elimina-se o sofrimento pela eliminação da própria vida. É um raciocínio limpo, eficiente, racional e profundamente desumano. Em vez de ampliar a rede de compaixão, de cuidado paliativo, de presença familiar, de escuta e de assistência emocional, oferece-se a morte como resposta final. A mensagem implícita é cruel: quando a dor se torna alta, a dependência excessiva e o custo afetivo ou material se eleva, a saída aceitável é desaparecer.

Isso não é libertação. Isso é objetização.

Objetiza-se o ser humano quando ele passa a ser avaliado a partir de sua utilidade, de sua autonomia produtiva ou do grau de conforto que seu corpo ainda proporciona. Objetiza-se o ser humano quando a sua permanência no mundo precisa ser justificada por parâmetros de funcionalidade. Objetiza-se o ser humano quando sua dor não convoca mais presença, mas descarte. Objetiza-se o ser humano quando a sociedade, incapaz de sustentar eticamente o peso da vulnerabilidade, transforma a eliminação do sofredor em resposta aceitável.

A defesa da morte assistida costuma reivindicar a bandeira da misericórdia. Mas a misericórdia autêntica não consiste em abreviar a existência daquele que sofre; consiste em não o deixar sofrer sozinho. Misericórdia não é a legitimação do gesto letal como política moral. Misericórdia é proximidade. É permanência. É recusa em abandonar o outro quando ele já não consegue corresponder às expectativas de vigor, autonomia e desempenho que a sociedade celebra.

Uma cultura só é verdadeiramente humana quando sabe proteger, cercar e honrar justamente aqueles que já não podem “render”. É fácil defender a vida quando ela é jovem, saudável, bela e potente. O teste moral de uma civilização está em como ela olha para o corpo ferido, para a velhice dependente, para o doente incurável, para aquele cuja existência já não cabe nos padrões estéticos e produtivistas do presente.

O mais perturbador, portanto, não é apenas que se admita a morte assistida em determinados contextos. O mais perturbador é a antropologia subjacente a essa admissão: a noção de que uma vida severamente limitada deixa de ser plenamente vida; de que a dignidade se mede em termos de autocontrole físico; de que o sofrimento retira da pessoa a sua condição de fim em si mesma. Quando isso acontece, a sociedade já não cuida do vulnerável; ela apenas administra, com linguagem polida, a sua eliminação.

É preciso dizer sem rodeios: uma pessoa profundamente limitada, em dor, dependente de terceiros, sem autonomia corporal, continua portadora da mesma dignidade radical e irredutível. Continua necessitando de cuidado, afeto, presença e sentido. Continua sendo alguém, e não um problema a ser resolvido.

A vida humana é maior que sua estrutura biológica. Ela envolve a imagem que a pessoa faz de si, mas também — e decisivamente — o espelho afetivo que recebe dos outros. Ninguém vive apenas de órgãos que funcionam; vive-se também da certeza, ainda que mínima, de que se é amado. Sentir-se amado talvez seja o mais poderoso motivo para permanecer no mundo. Onde há amor, há resistência. Onde há amparo, há sentido. Onde há alguém que diga, por gestos ou palavras, “sua vida ainda importa”, a morte perde parte de seu apelo.

Por isso, diante do sofrimento extremo, a resposta moral mais alta não é oferecer a morte, mas redobrar o amor. Não é abreviar a presença do outro na Terra, mas tornar essa presença suportável, respeitada, acompanhada. O problema de fundo, em muitos casos, não é somente a dor física. É a falência dos laços. É a ausência de mãos. É o silêncio ao redor do leito. É a sensação de ser peso, sobra, estorvo.

Uma sociedade que naturaliza a morte assistida antes de universalizar o cuidado paliativo, o amparo familiar, a assistência psíquica e a proteção afetiva talvez não esteja ampliando direitos; talvez esteja apenas institucionalizando sua incapacidade de amar e de cuidar. Talvez esteja apenas convertendo em escolha individual aquilo que, em larga medida, é produto de uma ordem social que abandonou os frágeis.

No fim, a questão é menos jurídica do que civilizatória. Pergunta-se se o ser humano vale pelo que consegue fazer ou pelo que é. Pergunta-se se a dor reduz a pessoa à condição de objeto ou se convoca ainda mais fortemente o dever coletivo de humanidade. Pergunta-se, enfim, se continuamos capazes de reconhecer que a vida mais frágil, mais dependente e mais ferida não é menos digna, mas talvez seja aquela que mais exige de nós o exercício concreto do amor, da solidariedade e da misericórdia.

É justamente aí que a morte assistida fracassa como ideal moral: porque, ao transformar a existência vulnerável em vida descartável, ela confunde compaixão com desistência, dignidade com funcionalidade e liberdade com abandono social legitimado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.