Multiplicação de escolas ocupadas em SP vai além de reação a Alckmin

Fenômeno em SP já extrapola o combate ao fechamento de escolas; tornou-se expressão da periferia e do público; negação da invisibilidade e da "decadência"

Fenômeno em SP já extrapola o combate ao fechamento de escolas; tornou-se expressão da periferia e do público; negação da invisibilidade e da "decadência"
Fenômeno em SP já extrapola o combate ao fechamento de escolas; tornou-se expressão da periferia e do público; negação da invisibilidade e da "decadência" (Foto: Alceu Castilho)

No começo era uma resposta à “reorganização”. Ao projeto eufemístico do governo estadual paulista que previa o fechamento de 94 escolas. Aos poucos, porém, as ocupações de escolas em São Paulo vão ganhando uma dimensão que vai muito além da resposta ao governador Geraldo Alckmin (que perdeu, fez um movimento absurdo no jogo de xadrez e perdeu), afirmando uma necessidade muito maior de milhares de adolescentes em São Paulo: a do protagonismo.

O crescimento foi viral. Em uma progressão aritmética com momentos de progressão geométrica. E, enquanto se escrevia este texto, eram mais de 170 escolas ocupadas em São Paulo. Quase o dobro das escolas que o governo queria fechar. Ou seja, por um lado há solidariedade de outros estudantes àqueles que iam perder sua escola. Por outro, uma mensagem adicional, a comunicação de que há algo mais, uma demanda dos adolescentes por expressões que a educação bancária não está dando conta.

Não é à toa que as ocupações tenham teatro e circo, aulas alternativas, bateria, esportes. Em meio a muitas assembleias – ao empoderamento. Elas significam um reaproveitamento do espaço público. Uma retomada. Não somente uma garantia do espaço que seria eliminado. Mas a reconquista de uma instituição que, nas últimas décadas, esteve sempre associada à ideia de “decadência”, “baixa qualidade”. Por causa dos salários baixos, da falta de empenho do próprio governo, dos problemas diversos – evasão, violência.

Todos temos parcela de responsabilidade na pecha de “decadência” que imputamos às escolas públicas. E o grito histórico dos estudantes paulistas neste novembro de 2015 significa uma declaração de que cada um deles vive e quer reafirmar uma trajetória transversal a essa ideia, a essa noção mais ou menos assumida de que esses adolescentes estariam caminhando para alguma espécie de cadafalso, um despreparo estrutural. Eles estão nos contando que não – que nunca estiveram totalmente sufocados. Que sabem se reinventar.

Os adolescentes de 2015 são também seus irmãos e primos e amigos que estudaram em outros anos e foram ignorados pelas páginas dos jornais. Que enfrentaram escolas lotadas e ausência de professores, mas também tiveram professores (resistentes, heroicos) que mantiveram a chama acesa. E que passaram à frente algum orgulho de estar ali, pelas amizades, pelo espaço, por todas as brechas que o aparelho burocrático estatal – que só os vê como números – não poderia imaginar que existissem. E existem: eles não são invisíveis.

UNIDADE NA ADVERSIDADE

Esses estudantes não são as avaliações, não são o Saresp nem a Fuvest nem o Enem. Eles representam a maior parte de nossa juventude, aquela que não estuda em escolas particulares e que, como tal, não está fragmentada. Foi por isso que (com a ajuda da internet, dos grupos do WhatsApp) eles se uniram em tão pouco tempo, por causa dessa identidade em comum, dessa unidade potencializada pela trapalhada de Alckmin: a condição de estudantes de escola pública, e de uma rede gigantesca. Exatamente essa face pública veio à tona e atropelou a prepotência dos tecnocratas.

É uma avalanche de humanismo que se projeta, neste momento, em São Paulo. Não se trata de revolução no sentido armado da palavra, de tomada do poder central pela força. De um esboço de revolução de costumes, de atitude, sim. Em meio a um início de século que vinha desesperançoso, após os espasmos politizantes de 2013, e depois do que a poeta Orides Fontela chamava, há duas décadas, de “um fim de século meio chocho”. A retomada estudantil em São Paulo pode ser tudo, menos chocha. É pacífica. E caleidoscópica.

Quem tiver olhos de gelo e sensibilidade destroçada não conseguirá enxergar nada disso; preferirá ver maquinações partidárias, bolivarianismo, inconsequência, qualquer coisa que busque reduzir a dimensão desse espetáculo, tornar opaco o caleidoscópio. Mas um dos baratos dessa comunicação toda – trata-se também de um fenômeno de comunicação – é que ela se dirige às classes C, D e E de forma direta, sem intermediários. Os pais e as comunidades estão vendo, eles não são cegos. Participam, apoiam. (Com as exceções que as forças obscuras tentam promover.) E estão orgulhosos.

SOMOS TODOS PAULO FREIRE

Na primeira semana da ocupação eu estive na EE Fernão Dias Paes, a segunda a ser ocupada (estrategicamente ocupada, como um recado para os endinheirados, na região de Pinheiros) e constatei: “Algo acontece na #OcupaFernão“. Não dava ainda para adivinhar a extensão do fenômeno. Mas ele estava ali, na grande quantidade de lideranças, no jeito de se comunicar, de organizar, no apoio de vizinhos e simpatizantes. Havia um brilho – e se via que não seria fácil mandar os policiais partirem para a porrada. A capitã dava a senha, antes mesmo de suspenderem as reintegrações de posse: “Sim, são adolescentes, é diferente…”

(Mesmo assim, no primeiro dia dessa ocupação foi utilizado gás de pimenta. Em outras ocupações há relatos de torturas físicas e psicológicas, ameaças, corte de luz, água e gás. O governo Alckmin será, por isso, denunciado à OEA. O que não o impede de cortar o bônus de professores de escolas ocupadas. É também contra essa violência e esse autoritarismo que os estudantes se mobilizam, a favor de outra lógica, outras referências, de uma política que não seja movida a balas de borracha, essas palmatórias do século 21.)

São também outros policiais que podem sair de uma escola pública renovada, que não esteja a serviço de políticos que enxergam apenas a formação de técnicos, a educação como somente um instrumento para o mercado de trabalho. Ela é muito mais que isso – ao menos em suas concepções mais belas. Outros policiais, outros operários, outros professores, outros artistas e cidadãos, que sejam todos Piaget e Emília Ferreiro, sejam todos Paulo Freire e Augusto Boal, sejam todos os libertadores e aqueles que não baixaram a cabeça, sejam o público e a periferia. Algo acontece em São Paulo, de forma muito mais rápida e intensa que os pessimistas e semi-mortos poderiam imaginar.

Do blog Outras Palavras

Conheça a TV 247

Ao vivo na TV 247 Youtube 247