Na Lei, tal como no jogo do bicho, deveria valer o que está escrito

Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia,critica a decisão do presidente do STF, Dias Toffoli, de adiar a decisão sobre a Lava Jato e lembra que, "em algum lugar da nossa Constituição – numa interpretação leiga e livre – está dito que se um processo começa viciado e eivado de erros, deve ser anulado. Isto, independente da fala compungida dos nossos queridos comentaristas e da revolta do distinto público teleguiado. É a Lei"

Por Denise Assista para o Jornalistas pela Democracia - Alguém precisa explicar para os colegas jornalistas comentaristas que na Lei, tal como no jogo do bicho, vale o que está escrito. Em qualquer lugar do mundo. Era assim, no Brasil, até bem pouco tempo, quando caminhávamos dentro da normalidade.

Agora, a impressão que se tem é que as decisões tomadas pelo Judiciário, mesmo as votadas pelo Supremo Tribunal Federal, oscilam ao sabor da opinião pública, monitorada ou conduzida pela mídia impressa e televisada. 

Desde que as sessões do STF passaram a ser julgamentos/espetáculos, transmitidos ao vivo pela TV, que a influência dos veículos de Comunicação sobre o que decidem os ministros ou deixam de decidir, transformou-as numa espécie de reality show, em que importa a opinião do público e, de acordo com a tendência, o rumo do resultado.

Em sendo assim, a atitude do presidente do Supremo, Dias Toffoli, pedindo alguns dias (não é um trocadilho) para pensar e divulgar a sua “modulação” em torno da decisão da Corte de que réus não delatores precisam se manifestar por último em ações penais, só virá na próxima quarta-feira. Do contrário, corria-se o risco da defesa do ex-presidente Lula se valer da votação e pedir a revisão de todo o processo que o mantém preso, conseguindo uma anulação. Até lá, Toffoli vai sentindo o pulso do noticiário que, como todos sabemos, faz a cabeça do brasileiro médio no país. 

Não por acaso, as manchetes daquele jornal giram em torno das “vantagens” trazidas pelas ações da Lava-Jato. Quem vai se posicionar contra o retorno aos cofres públicos, de R$ 1,8 bi, não é mesmo? O que o jornalão não recorda ao distinto público, é sobre as tentativas de que o rico dinheirinho que entrou de volta no cofre sofreu tentativas de ir para “um Fundo” proposto pelo procurador Deltan Dallagnol, líder da operação - conforme denúncia da jornalista da Folha de São Paulo, Monica Bergamo, em sua coluna, no dia 14 de março deste ano. E para que unir uma coisa à outra, não é mesmo?

Não satisfeitos, em todos os programas daquele canal que não dorme, e martela notícias 24h, há sempre uma brecha para algum comentário do tipo o quanto a turma de Dallagnol foi útil ao país, promovendo uma assepsia na corrupção desenfreada que grassou “naqueles tempos”. Aqueles, que vocês sabem quais são... E quem vai se posicionar contra a corrupção??? Nem uma palavra sobre as mensagens comprometedoras e criminosas dos procuradores com o ex-juiz, publicadas no The Intercept Brasil, denunciando o desvirtuamento do trabalho de combate à corrupção.

Assim, durante uma semana, consolida-se no público leitor a impressão de que a suprema Corte trabalha no sentido de beneficiar os culpados por toda a “bandalheira” (não é assim que eles falam?). Os telespectadores, ouvintes e leitores que, como sabemos, têm opção preferencial pelo que soa como música aos seus ouvidos, enchem-se de indignação contra os que tentam apenas interpretar a lei, tal como está escrita.

Em algum lugar da nossa Constituição – numa interpretação leiga e livre – está dito que se um processo começa viciado e eivado de erros, deve ser anulado. Isto, independente da fala compungida dos nossos queridos comentaristas e da revolta do distinto público teleguiado. É a Lei. Mas Dias Toffoli, o presidente da Corte máxima, certamente vai preferir se pronunciar depois de decantada a fervura dos comentários e de tirada a pressão da opinião do brasileiro médio. E a Lei, vocês perguntariam? Dá-se um jeito... Somos criativos.

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