Na morte as ‘Excelências’ se superam em insolência, cinismo e estupidez

Companheiras e companheiros. Estudantes, funcionários, professores, amigos da Universidade Federal de Santa Catarina. Não temos outra opção que a luta. Lutemos, pois, que são assim os dias que nos deram a viver 

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Companheiras e companheiros. Estudantes, funcionários, professores, amigos da Universidade Federal de Santa Catarina. Não temos outra opção que a luta. Lutemos, pois, que são assim os dias que nos deram a viver  (Foto: Roberto Requião)


Não sei mais o que possa dizer, depois do que eu já disse na sessão do Congresso Nacional em desagravo ao reitor Luís Carlos Cancellier.

Talvez manifestando a minha estupefação face à nota conjunta de entidades representativas de juízes, de procuradores, de policiais federais, de auditores que, pasmem, saíram em defesa da operação que levou o reitor à morte.

Por favor, ouçam o que afirmaram as ditas autoridades, apreciem a insolência, o cinismo e a estupidez da manifestação das excelências. Cito-as:

"Ao contrário do que vem sendo afirmado por quem quer se aproveitar de uma tragédia para fins políticos, no Brasil os critérios usados para uma prisão processual, ou sua revogação, são controlados, restritos e rígidos".

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Controlados, restritos e rígidos!?

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Aproveitar-se de uma tragédia para fins políticos?! Como assim?

Meu Deus, raras vezes vi tanta arrogância e insensibilidade em uma só frase. Ah, sim. Mais adiante a nota desses novos deuses do Olimpo -juízes, procuradores, policiais federais- repudia afirmações de que houve "eventuais exageros" na prisão de Cancellier.

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Não! Não houve exagero na mobilização de 105 policiais e meia dúzia delegados, dezenas de carros, helicópteros, armamentos pesados como fuzis e metralhadoras. E, é claro, as câmeras da Globo e da Globonews, os fotógrafos de O Globo e os microfones da CBN. Afinal, parece que sem a mídia não se fazem mais operações policias no Brasil...

Se esse aparato, se esse espetáculo não é exagero, o que seria excessivo para as nossas autoridades? As algemas, nas mãos e nas pernas? O desnudamento e a vexaminosa "revista íntima" proctal? A cela, o isolamento, o deboche? Nada disso é exagero?

Não! Porque os critérios para a prisão e a própria prisão "foram controlados, restritos e rígidos", disseram, aliás, ousaram dizer suas excelências!

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A evidência do abuso, a evidência de uma overdose de abusos seria, então, um cadáver?

Não! Para suas excelências não! Nem a morte é uma evidência de abuso para eles! O que pode ser pior do que a morte então?

Os infelizes juízes, procuradores, delegados da Polícia e auditores que assinam a nota não levam em conta a existência de um cadáver, porque, para eles, não há o corpo de Cancellier. Eles anulam a própria morte e só enxergam uma "tragédia para a exploração política" e não um cadáver. Para eles só importa defender o direito de suas excelências de abusar seu poder sobre suas vítimas. Para eles, a vida de Cancellier não tinha valor. Ante a seus direitos de abusar de poder como excelências, os direitos do pobre professor Cancellier não tinham valor.

Pior, nem o direito à morte, nem o direito de Cancellier decidir sobre a sua própria morte eles querem conceder. Não querem conceder ao professor nem mesmo o direito de expressar sua indignação, abstendo-se do que lhe era mais precioso, a própria vida.

Para eles, a difícil e desesperada decisão do professor em expressar sua indignação através do suicídio nada mais foi que um pretexto, um meio escolhido pelo reitor para supostamente falsear a "verdade" de que os abusos seguiram "critérios controlados, restritos e rígidos". Negaram seu direito à vida, negam seu direito à morte e a reparação pelo sangue.

Por isso, talvez eu devesse iniciar a minha intervenção comentando a malfadada nota das excelências acima nomeadas.

E, talvez, pudesse acrescentar as informações vazadas pelos homens e pelas mulheres por trás da ação, para justificar outro espetáculo policial-mediático.

Como é comum hoje no país, todas as informações sobre o caso foram previa e propositalmente embaralhadas, de forma a indigitar Cancellier como mais um desses bandidos que diariamente frequentam o Jornal Nacional, para a espinafração dos irmãos Marinho, de Ali Kamel e William Bonner.

É a colaboração da "imprensa amiga" e seus repórteres e comentadores descerebrados que nunca fazem as perguntas básicas que qualquer bom profissional deveria fazer.

O que espalharam? O que vazaram?

Grudaram em Cancellier um suposto desvio de 80 milhões de reais. Não esclareceram que isso nada tinha a ver com a sua gestão.

Assim, deram em manchetes que o reitor foi preso por ter desviado 80 milhões de reais. É só depois da morte do Cancellier que chega à mídia, mesmo assim timidamente, envergonhadamente, informações sobre a verdade do processo. Se o reitor não tivesse morrido, seria até agora, o ladrão de 80 milhões de reais.

O professor Cancellier não desviou nada. Nem era essa a acusação e não a provas de crime algum. Mas foi isso o que a imprensa e o teatro criado pela operação policial buscou fazer entender.

Operações policiais fascistas e Globo, tudo a ver.

Mas, talvez, eu devesse iniciar esta fala de outra maneira.

Quem sabe eu pudesse recorrer a um discurso famoso, de 84 anos atrás, o "Discurso da Reitoria", com que Martin Heidegger tomou posse como reitor da Universidade de Freiburg, Alemanha, em abril de 1933, quatro meses depois da ascensão de Hitler ao poder.

E um mês depois que o filósofo se filou ao partido nazista.

A rede de proteção que buscou cobrir a militância nazista de Heidegger, por causa de sua contribuição ao estudo e ao desenvolvimento da filosofia, fez (e faz) um grande mal.

Tudo foi (ou é) relativizado. Sua filiação ao Partido Nazista; seu antissemitismo; seu repúdio a princípios que regessem a convivência harmoniosa das nações, já que defendia a ideia do "espaço vital" para a Alemanha, com o sacrifício de países e povos inferiores; e, sobretudo, sua recusa à autocrítica, sempre substituída por debilíssimas declarações mais desculpando do que condenando o nazismo, assim mesmo depois de décadas da derrota de Hitler.

Em que circunstâncias Heidegger faz o "Discurso da Reitoria"? No momento em que o galope nazista acelera-se e atropela as instituições democráticas; banaliza o Direito e o devido processo legal; agride a liberdade de pensamento e de expressão; controla a mídia; generaliza a repressão policial e o abuso de poder; promove prisões arbitrárias e forma os primeiros campos de concentração; estabelece cerco impiedoso a toda manifestação cultural independente e inconformista, o que vai levar, anos depois, à patética exposição da Arte Degenerada, que hoje inspira o MBL e seus amigos fundamentalistas.

Essa foi a conjuntura em que discursa o filósofo. Esse também é o ambiente que, décadas depois, ressurge no Brasil e que mata um outro reitor, um que não abraçou o adesismo ao fascismo, o reitor Cancellier.

É preciso que professores e alunos, é preciso que a chamada academia, esse ainda privilegiadíssimo grupo de brasileiros que ascende ao ensino superior, especialmente nas instituições públicas, é preciso que vocês não só resistam como liderem a resistência antifascista.

Quando pessoas se matam porque encurraladas por um Judiciário, um Ministério Público, uma Polícia e uma imprensa que seguem o ritual de primeiro atirar e só depois investigar e coletar provas; quando essa anomalia se transforma em rotina, calar-se, omitir-se, dar de ombros é um convite –mais que isso- é uma licença, uma permissão para prender, processar e matar à revelia do devido processo legal, esse pequeno empecilho que tanto incomodava os nazistas e tanto irrita os nossos justiceiros no Brasil, hoje.

Se há fatos que têm a magia de condensar a realidade, de resumir toda uma conjuntura, esse fato é a morte de Luís Carlos Cancellier. E que cenário aterrador essa morte revela.

Companheiras e companheiros. Estudantes, funcionários, professores, amigos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Não temos outra opção que a luta. Lutemos, pois, que são assim os dias que nos deram a viver.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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