Na pandemia, elite gaúcha já escolheu: repetir a batalha de Porongos, só que com os do 'grupo de risco'

Eu, médico, tenho a certeza que precisaremos adaptar a sociedade pra nova realidade. Sei que isolamento ou distanciamento são medidas emergenciais. Mas há condições para que sejam deixadas de lado e não as vejo contempladas

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Os Farrapos, em especial os escravos, lutaram pela Elite com a promessa de direitos, de liberdade. Sua vida passaria a ter algum valor.

18 de Abril. O distanciamento social deu muito certo no RS. Finalmente, temos uma façanha para nos orgulharmos. As 24 mortes aqui já são trágicas, porém há sinais de que poderiam ter sido em número muito maior e elas se deram num ambiente de tentativa coletiva: todos faleceram em hospitais, sendo dignamente cuidados. A letalidade da COVID-19 no RS é uma das menores do País.

Foi uma revolução, uma baita ação de solidariedade. Não foi preciso a polícia repreender, nem multas, foi uma decisão em prol da vida. 

E as pessoas surpreenderam criarando formas diversas de ajudar.

No entanto, opinião pessoal, o cuidado deve se manter. 

Quem é contra o distanciamento fala no medo exagerado, no prejuízo e no futuro de dificuldades. Mas esse medo e o prejuízo não vieram, como afirmam repetindo memes e frases prontas, das medidas preventivas tomadas, dos médicos ou da imprensa. Temos uma doença real, grave e que já matou mais de 40 mil pessoas nos EUA, número esse que poderá passar dos 200 mil.  Todos devemos ter medo da COVID-19. Não dá pra cairmos no discurso infeliz e desumanizado de quem relativiza a vida dos outros ou de quem tem seu plano de saúde hospitalar garantido, de quem ainda insiste na meritocracia. 

Eu, médico, tenho a certeza que precisaremos adaptar a sociedade pra nova realidade. Sei que isolamento ou distanciamento são medidas emergenciais. Mas há condições para que sejam deixadas de lado e não as vejo contempladas.

Precisamos, nós enquanto coletividade, pensar na vida e em formas de cuidar, reduzindo os riscos e transformando, construindo formas se convívio para os próximos meses. 

Foram quatro semanas importantes para quem valoriza a vida. Elas nos deram tempo de preparo, só que ainda não temos os leitos de UTI públicos prometidos. Os gestores misturam o SUS com o privado quando fazem suas análises, no entanto sabemos que o acesso à saúde não se dá dessa maneira. Ou será que já tomaram decisões e não as publicaram?

Falta ainda preparo no cotidiano, falta o tal bom senso: mais da metade das pessoas ignora medidas de proteção. Tem gente que ainda debocha daqueles que se cuidam. As testagens não decolaram e ainda ficam restritas a casos mais graves ou a pessoas ricas. Os testes de PCR são bastante limitados no SUS – houve o erro grave na contratação, que se acabou sendo cancelada, de uma Pet Shop ou agropecuária para fazer os testes, porém é algo que pode ser corrigido com o olhar para as universidades. Os testes rápidos que começam a desembarcar servem mais pra epidemiologia, pois falham bastante e no atendimento não são decisivos.

Quem usa o argumento da economia e relativiza vidas, deveria cobrar de seus deputados e do presidente as medidas para lhes proteger ou manter suas empresas. Elegeram deputados e senadores agressivos, bons em destruir, que sabiam tudo e tinham energia, entendedores de gestão, sabiam muito do papel que o Estado tinha que desempenhar, etc - mas que agora votaram até contra a ajuda federal aos estados, em plena crise. O governo federal facilitou a vida dos Bancos e, aqui, pequenos empresários saem às ruas ignorando essa escolha. Seu alvo está errado, pois criticam o que deu certo e que salvou vidas enquanto silenciam sobre essa farra para os bilionários. Protestam pela Liberdade de abrir seus pequenos negócios, mas ignoram se eles terão e se a maioria terá a condição necessária para exercer qualquer forma de liberdade: a Vida.

Falam em alarmismo ou medo, porém ignoram as imagens de NY, os enterros em SP e os corpos em Manaus. 

O dia que um caminhão com câmara fria estacionar ao lado do Clínicas ou do Hospital Geral de Novo Hamburgo para armazenar corpos, o medo será tão grande que ninguém arriscara sair de casa para comprar o que não for comida ou remédio. 

Há uma ilusão naqueles que acreditam que se todos voltarem a trabalhar, as coisas retornam ao normal e o coronavírus deixa de existir, vira uma gripezinha. Há a ilusão de que ele existe porque é lhe dada muita atenção. Se pararmos de falar na pandemia, ela desaparece e a vida renasce.  Delírio?

Pior são aqueles conspiratórios.

É. Parece inevitável: o clamor pelo distanciamento não se manterá nos municípios do RS. As eleições em outubro atrapalham. Políticos, em sua maioria, ancoram-se em recursos eleitorais e apoio de quem hoje os pressionam. São, na maioria, marketeiros e vivem de cargos eletivos. Não têm como resistir.

Além disso, a sociedade gaúcha e suas lideranças empresariais acolheram a injustificada demissão do Ministro da Saúde, não protestaram. Há duas semanas não disfarçam mais, cobram e publicam que já chega de tudo isso. Deixam o Governador e os prefeitos com a faca no pescoço, sabendo das suas fraquezas.

Poucos prefeitos, como Ary Vanazzi e Nelson Marchezan, ousam enfrentar os ataques e as carreatas. Até quando? São administradores sitiados, cercados pelo exército digital, das SUV e outros carrões. Serão intimidados sem qualquer limite. 

Há, os sinais estão aí, uma escolha de quem lidera os gaúchos, ela vem travestida de equilíbrio, de meio termo, de não ser radical. Há a escolha do "Risco que Corro" em abrir o comércio, como disse Bolsonaro. Não haverá como modificá-la. Nada mais fará os prefeitos e o jovem Eduardo Leite resistirem. Aliás, nada mais ridículo que compartilhar meme da vida pessoal do governador. 

Contraria-se a ciência, inventa-se pseudo teses que nenhum país do mundo utiliza, venera-se tolos, usa-se máquinas de manipulação por redes sociais, jogando com o risco, a vida dos outros. O Whatsapp destruiu o mito do gaúcho culto, humanista e politizado.

Prefeitos mais organizados exigirão medidas como máscaras, número máximo de clientes, espaço nas filas, num cenário fictício de fiscalização. Outros, observarão a demanda de leitos em UTI e irão com a maré. O Risco será dividido com os outros 400 prefeitos que, afinal, também farão da mesma maneira. É uma tática covarde, de jogar, diluir e projetar a culpa nos outros e de dizer que não havia alternativa.

Haverá um tempo para avaliarmos o que fazer, porém não me parece que seja nessa segunda-feira, nem na próxima. Países sérios que passaram pelo pico da pandemia ainda estudam como fazer isso. 

No paralelo com o maior orgulho dos gaúchos, o enfrentamento da pandemia pode fazer voltarmos a 1844.

Naquele ano, os líderes farroupilhas não resistiram ao Império. Estavam negociando o fim da Revolução. No ano seguinte, se renderiam no Tratado de Poncho Verde.

Esse mês que passamos, em 2020, para muitos deu no que tinha que dar. Já chega dessa história de preservar vidas de quem não se conhece. O trabalho, a economia, o jeito de viver de antes é o que importa.

E o que faremos com os 1,7 milhão de idosos gaúchos sem plano de saúde? 

Essas pessoas que a vida tem valor no dia das mães, dos pais, no Natal. Pessoas que ainda rezam pelas outras. O que faremos?

Arruma-se uma batalha ímpia, deixa-os dormir, retira-lhes as armas, deixa-os à mercê do inimigo sorrateiro e não dê assistência a todos.

Foi o que fizeram com os escravos Lanceiros Negros na Batalha, ou Traição, dos Porongos. 

"Risco que Corro". "Cada família que cuide de seus Idosos."

Nos encontraremos no inferno.

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

Cortes 247

Apoie o 247

WhatsApp Facebook Twitter Email