Pedro Maciel avatar

Pedro Maciel

Advogado, sócio da Maciel Neto Advocacia, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007

570 artigos

HOME > blog

Não atravessamos o “deserto” para entregar o governo

É bom registrar que há detritos lava jatistas, bolsonaristas e do centrão, dando as cartas em áreas importantes da estrutura governamental

Lula (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil | Pedro França/Agência Senado)

“Lira e Pacheco já engoliram o Lula e seu governo”. (afirmação de um amigo que não quer o nome divulgado)

As questões.

O centrão, hoje representado por Lira e Pacheco, engoliu o governo Lula, como fez com os governos Bolsonaro e Temer?

Qual o rumo do governo Lula?

Um pouco da história recente.

Depois de anos de governos de centro-esquerda virtuosos, com Lula e Dilma no timão, desde 2014 o Brasil atravessa uma de suas maiores crises nas áreas econômica, política e institucional, uma verdadeira tragédia que alvejou injusta e gravemente toda a esquerda, sejam partidos, dirigentes ou simples militantes como eu e tantos outros.

Crise econômica.

Entre os primeiros trimestres de 2014 e de 2017, o PIB, o investimento e o consumo das famílias acumularam quedas de 7,2%, de 32% e de 7,8%, respectivamente, ao passo que o desemprego elevou-se de forma impressionante nesse mesmo período de 7,049 milhões para 14,176 milhões.

Todos os setores produtivos da economia brasileira foram afetados pela crise, no entanto, alguns sofreram ainda mais devido aos impactos da Lava-Jato. 

As quedas da indústria de transformação e da Construção (no acumulado entre os primeiros trimestres de 2014 e de 2017) foram de 21,4% e de 20,1%, respectivamente.

A propaganda diz; “o PT quebrou o Brasil”, evidentemente os governos de 2003 a 2014 não quebraram o Brasil, trata-se de uma bobagem enorme, pois, foram bons governos em muitas áreas e muito bons em algumas, contudo, não foram perfeitos, longe disso, há áreas que mereciam atenção e há deveres não cumpridos.

Quais deveres? Lula tinha apoio de 85% da população e maioria qualificada no Congresso, tinha do dever de realizar reformas (tributária, administrativa e política), mas preferiu não realiza-las, optou por eleger sua sucessora; elegeu Dilma em 2010, que reelegeu-se em 2014.

A Lava-Jata e a crise.

As consultorias “Tendência” e “GO Associados” estimam que a Lava-Jato contribuiu entre 2 e 2,5 pontos percentuais em cada ano nas quedas do PIB de 3,8% em 2015 e de 3,6% em 2016. 

Ou seja, mais da metade da recessão decorreu dos efeitos da Lava Jato.

Algumas estimativas mostram que ocorreu uma perda de R$ 142 bilhões nos setores mais afetados – cerca de três vezes menos do que a operação diz ter recuperado –, impactando fortemente na demissão de funcionários em diversos setores.

A partir das marchas de junho em 2013 e a Lava-Jato em 2014, do chilique do Aécio e da maldade do Cunha, o mundo virou de ponta-cabeça.

Crise política.

Dilma foi criminosamente apeada do poder; Lula foi condenado e preso; um incivilizado de extrema-direita tornou-se presidente; descobrimos que em todas as famílias há “bolsonaros”; a extrema-direita viceja nas igrejas neopentecostais; os arranjos de 1988 não valem mais; há um percentual enorme de jovens e conservadores e o país terá de conviver com os detritos da extrema-direita por décadas.

Quem quebrou o Brasil, foi a elite nacional – entreguista e canalha -, com os auspícios do centrão e da classe-média - sempre dispostos e trair o país em troca da ampliação de seus privilégios.

A elite usou um bando de moleques vaidosos e irresponsáveis da procuradoria da república, um juiz de piso e parte da imprensa, para destruir toda a institucionalidade.

Além desse evento imprevisto (a Lava-Jato), o tal “presidencialismo de coalizão” é defunto e não há outro arranjo político vigente; o cadáver segue insepulto e putrefato bem na nossa frente, ou, noutras palavras, o esgarçamento do arranjo político de 1988 é uma realidade.

A força tarefa, que diz investigar práticas de corrupção na Petrobras e em outros órgãos governamentais, foi um instrumento da extrema-direita e de interesses internacionais, além de ser um dos eixos centrais da crise.

A Lava-Jato expôs a relação entre o Estado e sua burocracia e parte do bloco no poder do capitalismo brasileiro e reafirmou que tais vínculos são, historicamente, marcados por relações não republicanas.

Crise institucional.

A Lava Jato apostou na instabilidade institucional e a alcançou através de vazamentos seletivos de informações sobre as investigações, com o objetivo de deslegitimar a política e legitimar a operação junto à opinião pública.

Legitimada perante a opinião pública, a operação passou a pressionar as instâncias superiores do judiciário, em especial o STF para validar toda sorte de ilegalidades e excessos que cometiam diariamente.

A instabilidade foi o instrumento central utilizado pela operação, mesmo que isso implicasse em elevados custos econômicos e institucionais, por isso, quem quebrou o Brasil foi o método da Lava-Jato.

A forma como a Lava Jato diz ter combatido a corrupção funcionou como um mecanismo de desestruturação de empresas e de suas cadeias produtivas, gerando uma autodestruição das bases produtivas, econômicas e sociais necessárias a qualquer projeto de desenvolvimento. 

É evidente que a corrupção deve ser combatida, no entanto, a operação o fez de maneira equivocada ao criminalizar qualquer tipo de relação entre o privado e o público e ao demorar em realizar os acordos de leniência com as empresas envolvidas nos atos ilícitos.

A coragem nos trouxe até aqui e vencemos em 2022.

Foram nove anos de muito luta, ofensas, tristeza, de sensação de fim dos tempos, pois os nossos líderes, os quais poderiam nos guiar, haviam sido alcançados pelo mensalão ou pela Lava-Jato e outros estavam preocupados demais em manter seus mandatos e seus próprios privilégios.

Mas, graças à Advocacia, que não se curvou à maldade e ao movimento social que não o abandonou, Lula foi solto; foi comprovada e declarada a nulidade dos processos e Lula segue inocente; disputamos eleições em 2020 e 2022 e voltamos ao Planalto; foi uma vitória coletiva, uma vitória do povo brasileiro.

Conclusões.

Todo mundo aqui da Comunidade Brasil 247 sabe disso tudo, não é? 

Então por que escrever sobre isso? 

Porque é bom registrar que há detritos lava jatistas, bolsonaristas e do centrão, dando as cartas em áreas importantes da estrutura governamental, tudo em nome da governabilidade, contudo, a lógica do presidencialismo de coalização não vale mais.

Estou p#t*, pois, não passei inúmeros finais de semana da minha juventude em cursos de formação em Cajamar (quem não se lembra do instituto Cajamar), para ficar em silêncio e ver um ministro das comunicações fazer licitação “sob medida” para o Elon Musk (segundo noticiou o Estadão); um dos secretários de Haddad dizer que a tributação sobre grandes fortunas “não está no radar” e um montão de neossocialistas e neo-petistas ocupando espaços para os quais eles não derramaram uma gota de suor.

Não voto no Lula desde 1982 para isso, nem para assistir o assanhamento dos lobbies e dos lobistas que pela proximidade afetiva seguem “vendendo o Lula e facilidades” pelas costas do nosso líder.

Por isso, repito: está passando da hora de o Lula governar pessoalmente e exigir que seus ministros tragam ideias e projetos novos, pois se a restauração do que Temer e Bolsonaro destruíram é trabalhoso, é a tarefa mais simples, votamos 13 para ver o nosso pessoal governando a partir da nossa visão de mundo e para as pessoas, para as famílias, para as comunidades e para as pequenas empresas e empreendedores, observando os eixos da sustentabilidade, transparência e desenvolvimento social e econômico. 

Essas são as reflexões.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.