Não é engraçado, é sintomático

Quem está por dentro dos memes viu nos últimos dias um vídeo onde jovens falam os valores de suas roupas. Observamos aberrações de toda sorte e natureza, desde estética, passando por um raso ou melhor nenhum domínio do idioma nacional

Quem está por dentro dos memes viu nos últimos dias um vídeo onde jovens falam os valores de suas roupas. Observamos aberrações de toda sorte e natureza, desde estética, passando por um raso ou melhor nenhum domínio do idioma nacional
Quem está por dentro dos memes viu nos últimos dias um vídeo onde jovens falam os valores de suas roupas. Observamos aberrações de toda sorte e natureza, desde estética, passando por um raso ou melhor nenhum domínio do idioma nacional (Foto: Igor Santos)

Quem está por dentro dos memes viu nos últimos dias um vídeo onde jovens falam os valores de suas roupas. Meias custando cinco dezenas de dólares, bermudas custando uma mensalidade do minha casa minha vida, meninas ostentando no pescoço o erário anual de muito trabalhador. Podíamos seguir o caminho fácil e falarmos dos 14 milhões de desempregados no Brasil, falarmos da total insensibilidade com o fato do Brasil em dois anos de governo Temer ter retornado ao mapa da fome e caminhar a passos largos para a queda de 8º lugar na economia mundial para 9º quiça 10º lugar.

No referido vídeo, observamos aberrações de toda sorte e natureza, desde estética, passando por um raso ou melhor nenhum domínio do idioma nacional. Vemos uma moça por exemplo que facilmente poderia ser figurante de algum filme futurista de 5ª categoria, uma abundancia de termos em inglês e total insensibilidade quanto a moda em sua concepção pura. O que existe ali para além do meme, é um retrato da classe media alta brasileira, cujo lastro cultural é baseado em Miami e cuja paleta e composição se inspira em algo pior que uma vernissage do Romero Brito no Canal do Boi em homenagem a Sérgio Moro e sua esposa.

E penso aqui comigo que o histórico baile da Ilha Fiscal, aquele as vésperas da queda do império e proclamação da republica, fosse filmado hoje, seria tão decadente quanto. E como dizia Renato Russo em sua musica A Dança: A sua roupa nova é só uma roupa nova/Você não tem ideias pra acompanhar a moda (…) Você é tão moderno/ Se acha tão moderno/ Mas é igual a seus pais. Somos um arremedo de um passado inglório, os filhos da elite já não estudam na Europa, trocaram por intercambio em Miami regado a muito fast food ou whey protein. Mentalidade rural e arcaica, espirito espoliador, punto y basta. Ali fica evidente, não se persegue beleza ou estilo, mas ostentação, demonstração de poder. São pacotes vazios embrulhados em papel de presente caro e cafona.

Enquanto isso o pessoal do Direito da PUC RJ joga bananas em estudantes negros durante um campeonato dos jogos jurídicos, não me admiraria se algum daqueles jovens do video ostentação fossem estudantes de direito na PUC RJ. Majoritariamente brancos, imensa maioria de filhos de uma classe media alta, alheia ao mundo real. Falam de estado mínimo enquanto ainda temos lugares sem rua asfaltada ou saneamento básico. Os mesmos jovens que estudam a partir de resumos e nunca obras inteiras, sem estofo cultural ou erudição, apesar de todos os privilégios e facilidades. Gente que twitta indignada e indagando se Lula realmente consegue ler 55 páginas diárias. Usam para o mundo a régua medíocre com a qual se medem.

Tempos atrás em uma conversa com uma amiga, debatíamos sobre a maturidade tardia, mesmo entre nós as portas dos 30 anos. A evidencia segundo a mesma era o cinema. Vejamos de 2013 para cá a ebulição de filmes baseados em super heróis de historias em quadrinho, pastiches da cultura pop e diagnostico do grau de infantilismo pelo qual passamos. Terceirizamos nossas responsabilidades, o exemplo é cada vez mais inalcançável e assim serve como aspira para maturidade que não querem alcançar. Não são mais homens e mulheres reais nas telas, são hipérboles anabolizadas e dotadas de poderes mágicos. Não existem mais homens como Humphrey Bogart, Sean Penn ou mulheres como Marisa Tomei, Marilyn Monroe. Vamos ao cinema não mais para observar a magia do cotidiano, mas a negação da mesma, assim como estudante de classe média em um curso de engenharia numa universidade aos 25 anos ainda com a mesada do papai.

E talvez essa terceirização de responsabilidade, não seja exclusividade de uma faixa etária, mas de toda uma classe, vide os dinossauros e vivandeiras pedindo por intervenção militar, democracia por sinal é coisa de gente adulta e resolvida. Pessoas que assumem que erraram ou possuem coragem de apontar os erros, participar, sabe como é?

Os playboys ostentando off white e out fit, numa demonstração infantil igual ao execravel comercial dos anos 90 ‘‘eu tenho, você não tem’’ são um meme, mas também são exemplares do que fracassamos como humanidade. Para que maturidade se você pode ostentar um guarda roupas no valor de um apartamento do CDHU, não é mesmo?

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