Não é guerra, é extração
A invasão que se desenha não tem como motor a liberdade nem a democracia. O alvo real é o petróleo, são as terras raras, são as entranhas do solo
Entre Diários de Motocicleta e Acabe com Eles, a América Latina reaparece como território em disputa permanente: ora espaço de encontro e reconhecimento, ora campo de posse e eliminação, enquanto a cobiça por petróleo e terras raras empurra a Venezuela para o centro de uma guerra extrativista sob o silêncio global.
Assisti a Diários de Motocicleta e Acabe com Eles em sequência, pouco antes de a ameaça de invasão à Venezuela ocupar o centro do debate internacional. Ver esses dois filmes juntos foi como observar duas formas opostas de organizar o mundo. De um lado, a estrada, o deslocamento e o reconhecimento do outro. De outro, a cerca, a posse absoluta da terra e a violência que se impõe quando a palavra desaparece. A Venezuela surge nesse cruzamento como símbolo de um continente que nunca resolveu essa tensão.
Em Diários de Motocicleta, a estrada é política e subjetiva. Ao cruzar vilarejos, minas e leprosários, Ernesto Guevara passa a enxergar o continente como espelho de desigualdades compartilhadas. O encontro produz consciência, e a consciência gera responsabilidade. A política nasce da escuta e do reconhecimento humano.
Acabe com Eles, ambientado em uma área rural isolada da Irlanda contemporânea, acompanha a rixa entre duas famílias de pastores de ovelhas, os O’Shea e os Killeen. Ali não há travessia, apenas território defendido até o limite da destruição. A terra deixa de ser meio de vida e se transforma em motivo de morte. Quando não há mediação, a violência se converte em linguagem legítima.
Esses dois filmes ajudam a compreender a encruzilhada geopolítica atual. A lógica da estrada aponta para negociação e pacto. A lógica da cerca revela o colapso da política quando a posse do solo se sobrepõe à vida. O que se projeta sobre a Venezuela dialoga com essa segunda lógica. Não se trata de um conflito ideológico clássico, mas da disputa crua por território, recursos e controle estratégico.
A invasão que se desenha não tem como motor a liberdade nem a democracia. O alvo real é o petróleo, são as terras raras, são as entranhas do solo que sustentam tanto o velho modelo energético quanto a nova economia tecnológica. A guerra do século 21 é extrativista. O povo venezuelano deixa de ser sujeito e passa a ser obstáculo. Onde deveria haver diplomacia, resta a perfuração do solo e o cálculo do lucro.
O silêncio do mundo revela paralisia moral. Não é neutralidade, é cumplicidade. Assim como em Acabe com Eles, quando instituições falham em conter a violência, o sistema internacional normaliza o saque travestido de pragmatismo.
É nesse ponto que as posições políticas se revelam. Da extrema direita europeia de Marine Le Pen a setores liberais que se calam diante da violação da soberania, predomina a acomodação à lógica da extração. No Brasil, enquanto figuras como Eduardo Leite e João Amoêdo oscilam entre prudência técnica e neutralidade conveniente, e Ratinho Jr. reproduz um pragmatismo alinhado ao capital global, vozes como Roberto Requião e Requião Filho recolocam soberania e controle dos recursos no centro do debate. Nesse campo, a posição de Lula, acompanhada por lideranças como Gleisi Hoffmann, rompe com a inércia ao afirmar que a América Latina não pode aceitar seu destino como colônia mineral do século 21.
A escolha é clara: seguir pela estrada do encontro ou aceitar a lógica da cerca que transforma terra em fetiche e vida em descartável. Não é ideológica. É histórica.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

