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Marina do MST

Dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e deputada estadual na Alerj pelo PT

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Não existe justiça climática sem justiça social

Não é mais possível discutir justiça climática sem levar em conta quem está na linha de frente dos seus impactos

5 de junho: Dia Mundial do Meio Ambiente (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
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As mudanças climáticas já afetam 85% dos brasileiros. Em outras palavras, oito em cada dez pessoas no país já sentem, de alguma forma, os seus impactos, segundo a pesquisa Clima, Trabalho e Transição Justa. No entanto, é importante destacar que, especialmente no Estado do Rio de Janeiro, há grupos que ainda sofrem de forma mais intensa os efeitos dessas mudanças.

O Censo de 2022 revelou que pessoas pretas, pardas e indígenas são as mais afetadas pelas privações de recursos e direitos no Brasil, o que as torna mais expostas aos impactos das mudanças climáticas. Entre os principais problemas enfrentados estão o aumento do custo de vida, o adoecimento físico e mental, as dificuldades de mobilidade e a perda de renda e trabalho.

Grande parte dessa população vive nas favelas do estado, que concentram cerca de 2,1 milhões de pessoas, majoritariamente negras e mulheres. Também fazem parte dessa realidade os povos indígenas, que somam quase 17 mil pessoas, além das mais de 65 mil unidades agrícolas do Rio de Janeiro, das quais cerca de 42 mil pertencem à agricultura familiar, muitas delas localizadas em áreas urbanas.

Estamos falando de pessoas que convivem diariamente com dificuldades de acesso à água, à rede de esgoto, à coleta de lixo, à energia elétrica e a condições dignas de moradia. E mesmo quando conseguem garantir esses direitos básicos por meio de suas próprias estratégias de sobrevivência, seguem enfrentando obstáculos para assegurar às suas famílias serviços públicos de qualidade.

Por isso, quando falamos de mudanças climáticas no Brasil, precisamos considerar não apenas as transformações ambientais, mas também as desigualdades sociais que definem quem sentirá primeiro e com mais intensidade os efeitos da crise climática. Não é mais possível discutir esse tema sem levar em conta quem está na linha de frente dos seus impactos.

Diante desse cenário, não basta reconhecer os efeitos das mudanças climáticas. É necessário construir políticas públicas capazes de preparar a população para enfrentá-los e reduzir as desigualdades que ampliam seus impactos. A adaptação à crise que assola o estado exige investimentos em infraestrutura, saneamento, habitação, proteção social e educação ambiental.

A situação no campo ilustra bem esse desafio. Na década de 1980, existiam 14 escolas agrícolas espalhadas pelo Rio de Janeiro. Atualmente, restam apenas cinco unidades, uma redução superior a 64%. Esse processo não representa apenas uma perda educacional, mas também enfraquece a formação de agricultores e agricultoras preparados para enfrentar os desafios do presente e do futuro.

Além disso, lutar por justiça ambiental também é lutar pela qualidade de vida das mulheres, que estão entre as mais afetadas pelos impactos da desigualdade social e da crise climática. São elas que sustentam suas famílias, assumem a maior parte do trabalho de cuidado e enfrentam, diariamente, as consequências da falta de acesso a serviços públicos de qualidade nas favelas, aldeias e assentamentos.

Portanto, no Rio de Janeiro, a crise climática tem endereço, classe, gênero e cor. Enquanto poucos acumularam riqueza com a exploração da terra e dos territórios, milhões de pessoas seguem expostas às enchentes, ao calor extremo, à insegurança alimentar e à ausência de políticas públicas. Por isso, não haverá solução para esse desafio sem enfrentar as desigualdades no acesso à terra, aos recursos naturais e aos direitos básicos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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