Não fui e não gostei

Saio ainda mais preocupado com o grau de agressividade e intolerância. E com a escalada de argumentos bobos empunhados como bandeiras em ambos os campos do espectro político

Não fui às ruas no dia 13.

Minha observação dos atos, portanto, deu-se via internet, redes sociais e meios de comunicação. Não gostei do que vi.

Não gostei, obviamente, porque reprovo o impeachment, apoio o PT e me preocupo com a forma com que Sérgio Moro conduz a Lava Jato.

Também noto excessos dos promotores de São Paulo, abusos da imprensa, falsidade na oposição.

Mas não é só isso.

Saio ainda mais preocupado com o grau de agressividade e intolerância. E com a escalada de argumentos bobos empunhados como bandeiras em ambos os campos do espectro político.

Vi uma faixa na qual se lia "balança que essa quenga cai". Sei bem o significado de quenga (desde que Beth Faria gravou Tieta) e me incomoda profundamente o que uma faixa como essa representa.

Vi uma faixa repudiando todos os partidos políticos, externando o orgulho de se dizer apartidário como quem se diz avesso à ladroagem e à corrupção. Sei bem o que pode acontecer com um país que prefere virar as costas para os partidos ao invés de consertá-los, abdicar da representação democrática ao invés de lutar pela lisura das instituições. Quem se orgulha de querer o fim dos partidos flerta indiretamente com o fim da cidadania.

Vi muita gente em êxtase porque três políticos de oposição — Aécio, Alckmin e Marta — foram hostilizados na avenida. Não cometerei aqui a incoerência de comemorar uma agressão sofrida por meu adversário apenas por ser meu adversário. Vaia é bom no estádio, quando zagueiro não larga a bola, faz catimba, anti-jogo. Sobretudo, estremeço ao pensar que Aécio, Alckmin e Marta foram vaiados enquanto Jair Bolsonaro foi ovacionado. Não é bom.

Vi a luta de classes virar alegoria, e isso é péssimo. Um governo deve governar para todos, e não para uma classe ou um partido. Nesse sentido, não se deve desmerecer um descontentamento da elite apenas por ser da elite. Reproduzir esse hábito não é muito diferente de desmerecer o voto no PT como sendo voto de ignorantes, miseráveis, "nordestinos", como vimos acontecer num passado não muito remoto. Bobagem dizer que havia apenas ricos na Avenida Paulista, embora seja evidente a predominância deles. Da mesma maneira como é bobagem concluir que a babá apoia a Dilma, votou no Lula e esteja satisfeita com a evolução do PT simplesmente por ser babá.

Vi notícias de que o metrô de SP foi liberado. Isso é gravíssimo. Não é à toa que é proibido dar carona em dia de eleição. Trata-se de benefício concedido em troca de vantagem, de apoio, uma decisão perigosíssima revestida de valor simbólico. É usar o aparato do Estado, a máquina, em benefício próprio, em benefício de um partido, uma causa, um projeto de poder. Há algo de muito errado em quem não enxerga isso e vai protestar contra a corrupção.

Vi trio elétrico reproduzindo a música "O Bêbado e a Equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, canção que virou hino da Anistia ao registrar o exílio de Betinho, o "irmão do Henfil", e o choro de "marias e clarices", como Clarice Herzog, viúva do Vlado. No âmbito dos afetos, foi como se me roubassem uma música, confiscassem e se apropriassem de forma indevida de um Zeitgest que já não se aplica, que já não existe. Não se pode nem deve medir os tempos atuais com a régua de 1979.

Vi gente comparando o evento de domingo com o movimento das Diretas e o impeachment de Collor. Posso estar enganado, mas também nisso manifesto minha incredulidade. Não me lembro das Diretas, era muito pequeno em 1984, mas desconfio que a população brasileira fosse, então, aproximadamente a metade do que é hoje, de modo que o número de manifestantes em cada marcha não deveria ser comparado com pesos iguais. Um milhão de pessoas em 2016 não é a mesma coisa que um milhão de pessoas 30 anos atrás. Ou é? Já o impeachment de Collor eu acompanhei razoavelmente de perto para lembrar que, a despeito das canções de Gabriel o Pensador, o ex-presidente não era tratado com o mesmo grau de hostilidade e escárnio que tem caracterizado tanto a imprensa quanto a opinião pública de hoje. Havia respeito pela defesa, as capas de revista não resvalavam para o sensacionalismo bufo nem para o grotesco. Não acho que tenha havido uma faixa parecida com "balança que essa quenga cai" na época em que o caçador de marajás era quem estava na corda bamba.

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