Não há perdão possível para o Holocausto

O presidente Jair Bolsonaro afirmou que “o Holocausto pode ser perdoado”. Há, obviamente, uma série de consequências potencialmente desastrosas quando tal frase é pronunciada pelo mandatário de um país como o Brasil

Não há perdão possível para o Holocausto
Não há perdão possível para o Holocausto (Foto: Adriano Machado - Reuters)

Esta semana, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “o Holocausto pode ser perdoado”. Há, obviamente, uma série de consequências potencialmente desastrosas quando tal frase é pronunciada pelo mandatário de um país como o Brasil. Dentre elas, destaco apenas uma, para efeito de análise. Quando Bolsonaro afirma que o evento histórico responsável pela morte de milhões de pessoas – das formas mais atrozes até então vista – ele abre um caminho narrativo para dizer que as mortes de Marielle Franco, de Evaldo dos Santos Rosa e de mais milhares de brasileiros, vítimas do Estado ou de sua inércia, também são perdoáveis.
 
Depois da instituição do Tribunal de Nuremberg, e também depois dos conflitos e comissões que se sucederam em todas as partes do mundo, uma espécie de novo imperativo político surgiu na cena dos contextos nacionais e internacionais. Em nome da unidade nacional, por exemplo, muitos representantes de Estado clamaram por um dever de esquecimento. Seria preciso saber esquecer para que o curso da história continuasse. Predominou aí uma linguagem de conciliação e de apaziguamento, muitas vezes com o objetivo de anistiar os envolvidos nos crimes de guerra e ditaduras.
 
Na maior parte dos casos, os horrores e traumas de uma guerra são seguidos por uma espécie de paralisia do Estado. Dessa maneira, seria preciso seguir adiante, com novos arranjos sociais e políticos, capazes de devolver à nação a sua saúde social. Essa obsessão terapêutica, que reivindica certa cena de perdão, não tem, no entanto, qualquer correspondência com o perdão como tal.
 
Tem-se que a emergência de um contexto de exigência de políticas do perdão se dá a partir do apelo das vítimas pelo reconhecimento dos seus flagelos. Compreendidos aí, evidentemente, os erros ou danos cometidos eventualmente por sujeitos particulares, mas também aqueles prejuízos provenientes das instituições, sejam elas políticas, universitárias ou religiosas – cujas ações em muitos casos alcançam a forma do mal radical. 
 
Há, em suma, a expressão de um desejo das vítimas de se fazerem ouvir. Um desejo de justiça que teria lugar a partir do reconhecimento das vítimas como vítimas. Mas há, ao mesmo tempo, a busca por condições de instauração de uma outra narrativa. Ou seja, a tentativa de construção de um relato histórico não mais único e hegemônico, mas que dê conta das múltiplas vozes sobreviventes.
Em nossos dias, o perdão é utilizado como um meio, como um recurso não político para fins políticos. Segue-se daí a sua instrumentalização, a fim de resolver os conflitos, apaziguar os ânimos e garantir a manutenção do poder. As instituições, os Estados e seus representantes colocam em movimento as grandes cenas de pedidos de perdão públicos e coletivos, reconhecem determinados erros que possam ter sido cometidos no passado e colocam em movimento, assim, encenações com um caráter terapêutico. 
 
Nesse sentido, a ordem social é supostamente garantida pela reconciliação de ofendidos e ofensores. Além disso, instrumentalizam o próprio estatuto das vítimas, enquanto vítimas, como um capital político. Empenham-se, cuidadosa e estrategicamente, até o limite de suas conveniências – convertendo o erro político em um erro moral, até mesmo religioso –, organizando o luto e criando o ambiente emocional necessário para que as demandas das vítimas sejam, a partir do reconhecimento das faltas, reduzidas a níveis politicamente aceitáveis.
 
Desse modo, os discursos de reconciliação nacional, de apaziguamento e de terapêutica coletiva representam, com efeito, estratégias de manutenção do poder político por meio da manipulação de um princípio não político, o perdão. E talvez seja possível dizer que, mesmo quando o perdão é trazido à cena política com pretensões sinceras e genuínas, a sua apropriação pelo político representa o risco da sua instrumentalização perniciosa. Porque, uma vez no plano político, um pedido de perdão não corresponde propriamente a um contexto de arrependimento e má consciência pelos erros cometidos, e sim a uma manobra que garante precisamente a ausência de punição.

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