"Não quero morar em outro país, quero morar em outro Brasil". Será?

A verdade é clara: enquanto houver essa hipocrisia de abraçar causas apenas para aparecer nas redes sociais e não houver real engajamento na busca do que realmente nos fará um país melhor, continuaremos a ser um país sem futuro e seremos uma nação de hipócritas. Como foi dito ontem, "não quero morar em outro país, quero morar em outro Brasil"

O Brasil assistiu nesse domingo a uma das maiores, senão a maior, manifestações políticas já ocorridas no Brasil. Existem, em meio aos manifestantes, distintos perfis: desde os mais radicais até aqueles que realmente estão sofrendo com a crise. Segundo a organização, pouco mais de 3 milhões de pessoas saíram às ruas em todo o Brasil. As Polícias Militares contaram 1,4 milhão. Seja qual for o número correto, o asfalto roncou fortemente e a insatisfação demonstrou ser generalizada.

A rejeição não é apenas a um governo fraco, atolado em escândalos de corrupção e crise econômica, mas à forma como é feita a política no Brasil, uma vez que até quem convocou os manifestantes recebeu vaias e bastante hostilidade na Avenida Paulista. Obviamente, entre os que entoavam palavras de ordem contra o governo, havia golpistas e viúvas da ditadura militar, mas esses não merecem sequer nosso reconhecimento, apesar de ser necessário acompanha-los de perto. Precisamos pensar, na verdade, naqueles que não aguentam mais tanta lama, seja ela de que partido for.

Só que infelizmente, a hipocrisia tem reinado no Brasil. Estive conversando com algumas pessoas, entre elas estavam manifestantes e também aqueles que acham uma palhaçada ir às ruas, afinal "em nada vai mudar mesmo". Vou transcrever aqui alguns trechos interessantes do que ouvi:

"A foto da babá empurrando o carrinho dos gêmeos tornou-se ouro para os petistas e a foto da família de catadores no protesto foi o santo graal dos coxinhas. Mas sabemos que os que defenderam a empregada não estão nem aí para os seus direitos quando são eles os patrões, aqueles que precisam pagar horas-extras, FGTS, 13º salário e os impostos para o governo. Nessa hora, tudo é caro demais. E os que saíram na defesa dos catadores, sequer olham para eles quando o encontram nas ruas e não estão nem aí se os seus filhos estão com saúde ou se já fizeram alguma refeição". Tem razão, afinal, o legal é tirar selfie nas manifestações e ficar batendo boca nas redes sociais e também nas ruas, para demonstrar que são politizados e engajados na "luta por um país melhor e mais decente". A Sicília, residente em Belo Horizonte, Minas Gerais, expressou o que muito de nós sabe e percebe em nosso dia-a-dia.

Já as palavras da minha prima Ada, residente em Vitória, no Espírito Santo eram de tamanha lucidez, que eu não poderia deixar de trazê-las em meu texto. Segundo ela, "o nosso Brasil está doente, infeccionado, já em estágio purulento e não sabemos mais qual antibiótico usar para estancar o avanço desordenado da maldade". Forte isso, não é? Em outro trecho diz que "não sou estudiosa política, não entendo de câmbio, exportação, PIB, (...), mas sei que estamos nos distanciando mais e mais do equilíbrio". Verdade! Enfim, alguém com equilíbrio entre tantas opiniões desastrosas. E finalizou martelando em um ponto que deveria ser o foco de todas as nossas lutas: "Enquanto não compreendermos que partido político jamais fará de nós uma nação justa e próspera, enquanto o fanatismo político dividir o país como time de futebol, enquanto não vestirmos a camisa de que o investimento em educação é a saída principal para os problemas que nos afligem, estaremos por aí perdidos nos esgotos que a ignorância nos impõe".

A verdade é clara: enquanto houver essa hipocrisia de abraçar causas apenas para aparecer nas redes sociais e não houver real engajamento na busca do que realmente nos fará um país melhor, continuaremos a ser um país sem futuro e seremos uma nação de hipócritas. Como foi dito ontem, "não quero morar em outro país, quero morar em outro Brasil".

Conheça a TV 247

Ao vivo na TV 247 Youtube 247