Não são tempos de obviedades

É preciso imediatamente intervir nessa crise de forma independente, chamando a derrubada não apenas de Bolsonaro, mas também de Mourão, de todos os militares do governo, de Moro, de Guedes, de todos aqueles que participaram do golpe de 2016

Não são tempos de obviedades

O próprio Estadão dá mais importância para as ameaças feitas por Bolsonaro nesta semana de dar um golpe de estado, fechar o congresso etc., do que a própria esquerda. Que existe uma crise cada vez mais aguda dentro do governo não pode haver dúvidas. Diante do cenário econômico, diante da dificuldade de passar a destruição da previdência, diante a mobilização dos estudantes, pode-se afirmar facilmente que nos aproximamos de um desenlace.

Os ataques de um setor contra o outro não poderão se resolver por cima. De um lado, temos o imperialismo que quer controlar a Amazônia de forma direta e para isso precisa da reforma da previdência. De outro, temos setores também ligados ao imperialismo não dispostos a perder todos os anéis que lhes restam para manter as suas mãos. Eles apostam na fraqueza da ala bolsonarista para manter seus interesses, barganha-los contra o imperialismo.

É preciso que fique claro: as duas alas em briga são alas pró-imperialistas e fascistas. A estratégia, ou seja, os objetivos de longo prazo são os mesmos, mas a tática, a velocidade, intensidade, o modo de chegar aos objetivos é que são diferentes. Nesse sentido, seria um dos piores erros da esquerda escolher uma das alas para defender contra a outra.
Muitos já dão como resolvido o conflito a favor de Mourão. A vitória desse setor levaria à uma ditadura tal ou pior contra a população.

Entretanto, gostaria de levantar algumas questões para que fujamos do óbvio. Dado o grau de colapso do capitalismo, não são tempos para obviedades. Essas questões indicariam que sim, poderá ter um golpe de Bolsonaro contra o congresso, contra a imprensa, contra setores do próprio exército. Pois a questão não se resolverá por quem é mais são, ou melhor, menos maluco.

O imperialismo mundial está num beco sem saída. Há 16 anos ele tenta sequestrar o petróleo do Oriente Médio, ele já destruiu vários países e não consegue atingir seus objetivos. Por isso, no último período, se intensificou o ataque contra a América Latina, principalmente contra a Venezuela. Os EUA não podem sobreviver sem a maior jazida de petróleo do mundo. Embora existam milhões de trabalhadores armados no país vizinho garantindo a sua soberania, os EUA não dão mostras de recuo. Bolsonaro defende a guerra contra a Venezuela, os militares no governo, não.

O imperialismo mundial iniciou um processo de transformação dos mercados de terra nacionais em mercados internacionais há mais de quarenta anos. O Banco Mundial, FMI, BIRD investiram somas inimagináveis nesses anos todos financiando projetos que atacassem a estrutura agrária dos países atrasados e com a crise de 2008 chamou os investidores de todo o mundo para uma “Corrida Mundial por Terras” como solução para lastrear a enorme bolha financeira que se formou no último período e ainda está longe de ter se resolvido.

Os bancos querem controlar o mercado de terras mundialmente e uma pesquisa rápida mostra que todos os países que sofreram golpes de estado desde 2008 sofrem o processo conhecido como land grabbing. A maior fronteira agrária existente no mundo está no Brasil. Nós temos a Amazônia, que desde o golpe de 1964 tem sido ocupada por monopólios estrangeiros. Segundo o atual presidente do IPEA, homem indicado pelo Banco Mundial, a reforma da previdência e a tributária tem como objetivo final facilitar a entrada do capital estrangeiro no mercado de terras brasileiro. Em 2017, uma lei já foi proposta para colocar as terras brasileiras em negociações das Bolsas de Valores, mas foi rejeitada. Contudo, foi a flexibilização da internacionalização das terras que garantiu a Temer uma sobrevida diante da ofensiva geral para derrubá-lo. 

Ou seja, tudo indica que estamos num processo em que o desenvolvimento quantitativo está próximo da transformação qualitativa. O imperialismo necessita que toda essa preparação de décadas comece a dar resultados.
Bolsonaro declarou abertamente: Amazônia não é mais nossa! General Heleno o contradisse. Aqui é preciso novamente fazer uma ressalva, pois muitos vêm nacionalismo onde não tem. O Relatório Velloso de 1968 mostrava que a entrega de território amazônico para os EUA tinha a participação plena dos generais. Gen. Heleno expressa a vontade de manter a boquinha para seu séquito na entrega da Amazônia, eles querem participar da entrega da Amazônia e não ser descartados do botim.

Alguns colocarão a questão de que seria impossível um golpe contra os generais. Mas há que se lembrar duas coisas: existem mais generais que podem substituir estes, o golpe pode ser feito com setores intermediários do exército (todo ele está controlado pela CIA há bastante tempo), e mais importante: todo o aparato militar, passando por guardas municipais, policiais civis e militares estão sob comando de Moro, através do SUSP, um reconhecido capacho da CIA. Somando-se aí as milhares de empresas de segurança privadas, que nada mais são do que milícias proto-fascistas, temos o quadro repressivo que poderia ser utilizado num golpe bolsonarista.

Poderíamos levantar mais indícios, mas estes são os mais importantes do ponto de vista econômico e geopolítico. Eles indicam que a ala bolsonarista está expressando de forma mais coerente os interesses materiais e políticos do imperialismo no continente.

A questão toda, porém, reside no fato de que o imperialismo está divido mundialmente. A eleição de Trump a evidenciou claramente. Contudo, ele está ficando; conseguiu estabelecer aliados fascistas na Itália, na Hungria, e seu principal assessor, Steve Bennon, entrou em negociações com a CIA nesses últimos dias.

A ala pseudodemocrática do imperialismo conseguiu emplacar Macri na Argentina e Macron na França. Os dois sofrem de feridas expostas de meses que não dão meros sinais de resolver-se.

O que queremos dizer é que a crise no interior do Brasil corresponde a uma crise internacional e muito do que acontecerá aqui no futuro imediato dependerá do desenlace dessa crise fora.

Esta semana começam as eleições para o parlamento europeu. O que acontecer aí indicará para qual lado a balança penderá. Não à toa, Bolsonaro chamou para as ruas uma mobilização a seu favor no dia 26 de maio, exatamente no mesmo dia em que terminam as eleições europeias.

A situação é extremamente complexa e grave. Nesses momentos a irracionalidade pode preponderar.

Os trabalhadores, os movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda, contudo, não podem ficar assistindo esse desenlace por cima. Afinal, qualquer dos lados significará maiores ataques contra todos nós. É preciso imediatamente intervir nessa crise de forma independente, chamando a derrubada não apenas de Bolsonaro, mas também de Mourão, de todos os militares do governo, de Moro, de Guedes, de todos aqueles que participaram do golpe de 2016.

A crise por cima está atingindo um ponto de ebulição, o que favorece a intervenção das massas na situação. As mobilizações do dia 15 mostraram apenas uma ponta do iceberg do que pode ser mobilizado. CUT, MST praticamente não se mobilizaram para este ato. E quando falamos em CUT e MST estamos falando na quinta maior central sindical do mundo e do maior movimento social do planeta.

É hora de chamar a greve geral, é hora de derrubar todos os golpistas!

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