Não vai ter shopping

As mesmas armas e truculência usada nas ruas em 2013 contra os manifestantes agora bombardeiam menores de idade e a garotada da periferia que "não sabe o seu lugar"

Os shoppings de São Paulo conseguirem na Justiça uma liminar para impedir os rolêzinhos, encontros de jovens marcados pelo Facebook para se divertirem, paquerar, beijar e zoar em grupo. O que sempre foi divertimento e lazer virou crime!

Os shoppings sempre foram vistos como espaços de "exclusividade" e zonas de conforto climatizadas, perfumadas e vigiadas para deixar de fora os pobres, ex-pobres e emergentes. O que era "velado" se tornou explícito com a reação desproporcional aos rolêzinhos, mobilizando o Estado e a segurança privada para reprimir brutalmente os consumidores indesejáveis.

As mesmas armas e truculência usada nas ruas em 2013 contra os manifestantes agora bombardeiam menores de idade e a garotada da periferia que "não sabe o seu lugar" deixando claro que "ultrapassaram a faixa amarela" que os tolerava fazendo a faxina, atendendo, vendendo nas lojas, mas nunca como frequentadores e clientes do shopping. Apartheid insustentável vendido como comodidade para o consumidor branco de classe média se sentir "seguro" e "especial"!

A racialização do consumo chegou ao absurdo: Bombas de gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, balas de borracha foram usadas pela Polícia Militar para reprimir o "rolêzinho" realizado no shopping Itaquera, na zona leste de São Paulo no dia 11/01/2014.

O shopping Iguatemi, um dos mais luxuosos de São Paulo, foi mais longe: portas blindadas, cassetetes e uma liminar! Já proibiu a entrada de "menores de idade desacompanhados" e barrou a entrada até mesmo de funcionários, obrigando qualquer cliente a apresentar identidade na entrada. Pegos "fazendo rolêzinho" o garoto ou garota terá que pagar uma multa de R$ 10 mil (!).

Mas quem decide quem está comprando, olhando, passeando, zoando ou dando um rolê? Os seguranças, lojistas e clientes, muitos deles francamente racistas e preconceituosos?

A reação da Casa Grande diante da mobilidade urbana e do direito de ir e vir da juventude popular brasileira é assustadora. A juventude negra e periférica não é bem-vinda nos espaços de consumo da classe média branca? O Estado de exceção e a violência contra os pobres nas favelas terão uma igualmente vergonhosa polícia de comportamento como foi a repressão ao funk?

A incapacidade do mercado e do Estado de entender as novas formas de sociabilidade e mobilidade dos jovens traz à cena o velho horror das classes populares e o apartheid racial, social e cultural. À racialização da repressão nas favelas se acrescenta o seu complemento e suprema perversão: a racialização dos espaços de consumo!

O que é insuportável para certa classe média é ter a periferia negra e pobre nos seus espaços de exclusividade e de poder, frequentando a Casa Grande (os shoppings, as companhias aéreas, a Universidade com as cotas, fazendo mídia e nos espaços de poder/lazer) e se apropriando e ressignificando e zoando com o mundinho de distinção das grifes, marcas, autores, músicas.

O rolezinho também expõe a crise das cidades e a privatização dos espaços públicos e o desinvestimento nos equipamentos de lazer, parques, pistas, quadras e praças.

O Occupy Shopping da periferia é uma manifestação política, com ou sem intenção. O esquema de segurança dos shoppings é a ostentação do fracasso do Estado e da sociedade na partilha da cidade.

2014 começa com uma fratura exposta. Se a sociedade brasileira não redistribuir renda e valor, só vai agravar o processo de produção de crime e desigualdades. É uma democracia mínima essa: partilhar o conforto, o ar condicionado e a praça de alimentação ou "não vai ter shopping"!

Partiu rolezinho!

Eu vou entrar aqui, não vou embora, não quero ir!

OccupyShopping! #Rolêzinho#NaoVaiterShopping

Artigo publicado originalmente pelo grupo Midia Ninja

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