Washington Araújo avatar

Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

397 artigos

HOME > blog

Nenhuma vitória sobrevive ao corpo de um filho

Nenhuma vitória apaga a dor. Reconhecer o sofrimento do outro é o início da humanidade possível

Representação de Príamo, Aquiles e Heitor (Foto: Gerada por IA/DALL-E)

No último canto da Ilíada, a guerra ainda respira, mas já não grita. O que se vê não é o choque das lanças, mas o peso do que restou. A fúria de Aquiles, que por tantos dias incendiou homens e deuses, começa a ceder diante de algo mais antigo que a própria guerra: o reconhecimento da dor alheia.

Heitor está morto. Seu corpo, arrastado por Aquiles ao redor do túmulo de Pátroclo, tornou-se símbolo de uma vingança que ultrapassou os limites do humano. Ainda assim, nem os deuses suportam por muito tempo o excesso. Zeus intervém. Decide que aquele ciclo precisa ser interrompido — não por vitória, mas por compaixão.

Príamo, rei de Troia, velho e já esvaziado por tantas perdas, recebe a ordem mais improvável: deve ir até o acampamento inimigo e pedir o corpo do filho ao homem que o matou. Não há escolta que proteja esse gesto. Não há garantia de retorno. Há apenas a urgência de um pai.

Guiado por Hermes, Príamo atravessa a noite. Entra silenciosamente na tenda de Aquiles. E então ocorre uma das cenas mais humanas de toda a literatura antiga: o rei ajoelha-se, beija as mãos de Aquiles — as mesmas mãos que mataram Heitor — e implora. Não em nome de Troia. Não em nome da guerra. Em nome daquilo que ambos ainda compartilham: a condição de filhos e de pais.

Aquiles escuta.

E, ao escutar, algo se transforma. A dor de Pátroclo continua ali, intacta, mas já não é a única. Ele vê em Príamo o reflexo de seu próprio pai, Peleu, distante, envelhecendo sem saber se voltará a ver o filho. Pela primeira vez, Aquiles não responde como guerreiro, mas como homem.

Os dois choram.

Não há vitória nesse choro. Há reconhecimento. Há pausa.

Aquiles ordena que o corpo de Heitor seja devolvido. Manda lavá-lo, prepará-lo com dignidade. E mais: concede a Príamo uma trégua para que Troia realize os ritos fúnebres. Por alguns dias, a guerra suspende seu curso, como se até ela precisasse respirar diante daquele encontro.

O canto final não termina com batalha, mas com um funeral.

Heitor é levado de volta à cidade. As mulheres choram — Andrômaca, Hécuba, Helena — cada uma com sua perda, cada uma com sua memória. Troia inteira se curva ao corpo daquele que a defendeu até o último instante.

E então, sem anúncio grandioso, Homero encerra: “Assim celebraram os funerais de Heitor, domador de cavalos.”

Nada mais.

Não há epílogo. Não há julgamento. Apenas o silêncio que segue quando até a guerra, por um instante, reconhece seus próprios limites.

Escrita provavelmente no século VIII a.C., atribuída ao poeta grego Homero — figura envolta em névoa histórica, possivelmente um poeta da tradição oral que transmitia esses versos de geração em geração —, a Ilíada tornou-se um dos pilares da cultura ocidental. Não é apenas um poema sobre a Guerra de Troia, mas uma investigação profunda sobre honra, perda, destino e limite humano. Seus personagens não são heróis intocáveis: Aquiles é o maior guerreiro grego, filho da deusa Tétis e do mortal Peleu; Heitor, príncipe de Troia, é o defensor da cidade; Príamo, seu pai, encarna a velhice devastada pela guerra.

No encontro decisivo, Homero coloca na boca de Príamo palavras que atravessaram séculos:

— “Lembra-te de teu pai, Aquiles, semelhante aos deuses… tem piedade de mim, que sofri o que nenhum outro mortal sofreu, beijei as mãos do homem que matou meu filho".

E Aquiles responde, já tocado por algo maior que a cólera:

— “Ah, desventurado, quantas dores tens suportado no coração… senta-te e deixemos a dor repousar por um instante".

Esse diálogo não é apenas literário — é civilizacional. Ele ensina que até o inimigo carrega uma história, um pai, uma ausência.

Num mundo que hoje assiste a guerras como Estados Unidos e Israel contra o Irã, ou Rússia contra a Ucrânia, o Canto 24 permanece inquietantemente atual. A tecnologia mudou, os mísseis substituíram lanças, mas a dor — essa matéria silenciosa — continua idêntica. Em cada cidade bombardeada, há um Príamo invisível. Em cada decisão militar, há um Aquiles diante da escolha entre perpetuar ou interromper o ciclo.

A Ilíada não oferece soluções. Mas impõe uma pergunta perturbadora: até quando a vitória será medida pelo número de mortos, e não pela coragem de reconhecer o outro como humano?

Por muito tempo, na minha adolescência, voltei inúmeras vezes a trechos específicos da Ilíada. Não como quem estuda um clássico distante, mas como quem procura algo que ainda não sabe nomear. Havia ali, mesmo sem que eu compreendesse plenamente, uma espécie de convocação silenciosa. Muito cedo comecei a perceber que aquele livro antigo não falava apenas de heróis e batalhas, mas de algo que germinava em mim — uma semente de humanidade que buscava forma, linguagem, direção.

Foi esse encontro precoce que, sem alarde, começou a moldar minha forma de olhar o mundo. A Ilíada, tão antiga quanto o próprio senso de humanidade, ensinou-me que as guerras mais decisivas não são apenas aquelas travadas entre exércitos. Há outras, mais íntimas e inadiáveis: a guerra contra o ego, que insiste em se sobrepor ao outro; a guerra contra a discriminação, que reduz vidas a categorias; a guerra contra a injustiça, que se naturaliza quando não é confrontada.

Com o tempo, compreendi que esse legado não era apenas literário — era ético. Ele me empurrou para as trincheiras invisíveis do nosso tempo: a defesa das populações vulneráveis e indefesas, dos condenados da Terra, dos povos indígenas, dos povos que foram escravizados, dos povos ciganos, dos migrantes, dos refugiados e, sobretudo, das populações civis que continuam sendo dizimadas em combates que não escolheram.

Talvez seja essa a permanência mais inquietante da Ilíada: ela não nos deixa assistir à guerra como espetáculo distante. Ela nos chama — com a força de milênios — a decidir, todos os dias, de que lado da nossa própria humanidade estamos dispostos a permanecer.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.