Neoliberalismo, carestia e a teologia da prosperidade: o ciclo vicioso que assombra o futuro do Brasil

"Quanto maior é a carestia organizada pelo neoliberalismo, maior é a adesão da população a tais ideias e às igrejas que as avançam", escreve Cesar Calejon

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(Foto: Divulgação)


Por Cesar Calejon, para o 247

Desde ontem, diversas análises foram elaboradas no sentido de entender a atual conjuntura brasileira e os motivos que levaram o bolsonarismo a ter um desempenho superior ao que prognosticaram as sondagens de todos os principais institutos de pesquisa do país. 

A meu ver, o cerne desse debate não se encontra no âmbito conjuntural, mas remete à expressão estrutural de três dimensões fundamentais de como o Brasil está organizando no começo do século XXI: o neoliberalismo, a carestia e a teologia da prosperidade. 

Essas três dimensões, interagindo de forma dialética, formam o mecanismo de um círculo vicioso que vem conduzindo o país rumo à formação de uma espécie de teocracia evangélica miliciana.

Resumidamente, o neoliberalismo, ao agravar a situação da imensa maioria da população nacional, a exemplo do que aconteceu com a reforma da previdência, trabalhista etc. após o golpe de 2016, gera uma situação de carestia e ausência estatal, principalmente no que diz respeito a serviços elementares (educação, saúde, alimentação e infraestrutura civil) nas comunidades mais empobrecidas da nação. 

Essa carestia e o vácuo do estado nos locais mais vulneráveis do país geram uma adesão proporcionalmente crescente à teologia da prosperidade e às propostas neopentecostais, que se baseiam nas pautas morais amplamente utilizadas pelo bolsonarismo. Dos cinco deputados mais votados do país, quatro são bolsonaristas e o PL elegeu as maiores bancadas na Câmara e no Senado. Todos esses candidatos se elegeram com base nas pautas morais a cerca da “família”, “deus”, “valores cristãos” e assim por diante.

Ou seja, quanto maior é a carestia organizada pelo neoliberalismo, maior é a adesão da população a tais ideias e às igrejas que as avançam. Por sua vez, essas igrejas passam a arregimentar seguidores de forma simples e estimulam a multiplicação das novas células com táticas de guerrilha. 

Conforme abordado nos livros A ascensão do bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a covid-19 no Brasil (Contracorrente), o dogma religioso, mais precisamente considerando a notória adesão de diferentes correntes e grupos evangélicos, foi fundamental à eleição de Jair Bolsonaro em outubro de 2018. 

Desde então, o processo de expansão desses grupos evangélicos em todas as dimensões da vida social, política e econômica foi ainda mais catalisado. Alguns pontos centrais ajudam a refletir sobre esta inflexão: a hierarquia, a multiplicação celular e a facilidade de ascensão social presentes na proposta neopentecostal como ela está organizada no Brasil no começo do século XXI. 

Evidentemente, as organizações hierárquicas das igrejas evangélicas variam de acordo com cada grupo e ramificação histórica. Em linhas gerais, contudo, existe uma estrutura rígida determinada neste sentido por ordem de importância: apóstolo, bispo, pastor, presbítero, ministro, coordenadores e líderes de células, obreiros e os fiéis. 

Apesar das primeiras posições desta pirâmide serem ocupadas pelas figuras centrais de cada movimento, invariavelmente, e de oferecerem poucas possibilidades de mobilidade sucessória, os cargos inferiores do arranjo podem ser acessados com muito mais facilidade, o que potencializa o caráter de multiplicação celular dos grupos. 

No Brasil, a igreja católica, por exemplo, reúne os seus seguidores somente dentro das igrejas. Os padres são eclesiásticos, com formação em teologia e falam uma linguagem cada vez mais distante da população em geral. Na igreja evangélica, qualquer cidadão pode se tornar um líder de célula em questão de meses após o ingresso na entidade. 

Esse novo membro, que na maioria dos casos não precisa de nenhuma formação prévia, passa a reunir a comunidade dentro da sua própria casa e promove a multiplicação desta célula como orientação formal de desenvolvimento da doutrina. Soma-se à equação o fato de que o televagelismo é muito mais um fenômeno da comunicação social de massa, político e econômico do que de caráter religioso, propriamente. 

No Brasil, todos os principais pastores evangélicos que promoveram a ascensão do bolsonarismo em 2018 transmitem as suas ideias por meio da televisão aberta e da Internet. Alguns são proprietários de veículos de comunicação hegemônicos e figuram na lista de bilionários da revista Forbes. 

Assim, nenhuma outra área da atuação social brasileira oferece uma oportunidade tão rápida, segura e promissora como projeto de vida, principalmente nas regiões mais empobrecidas do país, nas quais o estado é totalmente ausente, conforme ressaltado. 

Além disso, as igrejas são isentas de impostos, arrecadam os dízimos por deliberação dos fiéis que as pagam e são capazes de estabelecer, sem nenhuma forma de contestação ou abertura ao debate, as narrativas sociopolíticas que mais lhes interessam em determinada ocasião. 

Por esses motivos, diversos estudos projetam que o Brasil poderá se tornar um país de maioria evangélica ainda nessa década, organizado de forma cada vez mais homogênea e intolerante com a diversidade do seu próprio povo, principalmente considerando a forma como essas filosofias rechaçam a participação da comunidade LGBTQIA+, mulheres, pretos e pardos nos espaços de poder. 

O resultado de ontem, no qual o bolsonarismo saiu fortalecido a despeito da derrota de Jair Bolsonaro para Lula no primeiro turno, é fruto, em larga medida, desta estrutura de forma mais ampla, que por fim estabelece a atual conjuntura sociopolítica do país.

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