Neoliberalismo não é uma política econômica, é a dilaceração da civilização humana

Não basta apenas trocar a política econômica neoliberal, são necessárias mudanças estruturais e profundas

www.brasil247.com - O presidente da Repblica, Jair Bolsonaro, acompanhado do ministro da Economia, Paulo Guedes
O presidente da Repblica, Jair Bolsonaro, acompanhado do ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Alan Santos/PR)


A mais renomada filósofa brasileira, Marilena Chaui constata que o Neoliberalismo é muito mais que uma política econômica. É uma forma de pensar, uma ideologia destrutiva de tudo que a humanidade considera civilizatório. Aniquila todas as conquistas feitas pela humanidade por séculos e séculos de construção e lutas.

A ideologia é a distância entre a realidade social cotidiana e os discursos usados para legitimá-la. Não é um ideário ou crenças que formam a realidade, é a lógica das ideias da classe dominante. Ela serve para que as classes exploradas não tenham ideias opostas aos interesses da classe dominante. Para isso, ela afirma que as causas das divisões na sociedade são os maus sujeitos sociais, bandidos, migrantes, homossexuais e a ignorância dos pobres e atrasados. Sendo assim, a causa do injusto são as pessoas injustas, mal-patrão, governo, político, bandido etc. Transforma-se tudo em uma questão MORAL.

O Negacionismo é a resposta social à ideologia da competência e da tecnicidade

A ideologia da Competência afirma que seriam as exigências técnicas que comandam as pesquisas científicas e as decisões políticas. Sendo assim, transforma a divisão social entre os que seriam os competentes, os especialistas detentores de conhecimento científico e tecnológico e os “incompetentes”, os que executam. Portanto, não é qualquer um que tem o direito de dizer ou ser ouvido, nem em qualquer lugar, nem em qualquer circunstância. O direito de dizer e ser ouvido é apenas dos “especialistas”.

O neoliberalismo abusa desse discurso da competência como método de dar fim à democracia. A filósofa e matemática Tatiana Roque relaciona o discurso da competência com o Negacionismo. Para ela, os “especialistas” dizem estar tomando decisões políticas através da ciência, quando na verdade, são decisões de interesses outros. É isso o que está em contestação. Pois, dessa forma diminui-se o poder de decisão política da população. 

Há também a defesa da troca de cargos políticos por técnicos. E é nesse contexto que surge o político-gestor, cujo dever é aplicar o gerencialismo, seguir planilhas e tabelas. Tenta-se apagar o político-representante do povo. Aquele que é eleito para tomar as decisões conforme as necessidades da população e a lógica da administração pública, a busca do bem-comum e o melhor ao coletivo. 

Não obstante, defende-se a criação de leis (Teto de gastos, Banco Central independente, interferências do Ministérios Público nos Municípios, e até a Lei da Responsabilidade Fiscal usada atipicamente contra o governante). Assim, remove-se a discricionariedade do executivo. Amarra-se o governante, cuja obrigação é decidir em qual determinada área (saúde, educação, infraestrutura etc.) o orçamento do ente federativo ou da União precisa ser direcionado para melhor atender as necessidades da população. 

Muitas das vezes, a tomada de decisão “técnica” é a partir de evidências duvidosas e nada científicas. São apenas para legitimar atos econômicos contrários aos interesses da população. As insistentes defesas de privatizações, corte de gastos, retirada de direitos realizadas, pela mídia brasileira baseiam-se nisso.

O neoliberalismo não é apenas um sistema econômico

Dentre as inúmeras características do neoliberalismo destaca-se algumas das mais vis:

1 – Tudo é empresa

A empresa não é mais onde se realiza a produção econômica, a empresa é a forma de organização da sociedade. Considera-se a sociedade em seu todo, economia, educação, cultura, ciência, saúde, lazer, tudo, é constituído por um tipo determinado de organização, a empresa. 

2 – A privatização dos direitos, do ser humano, da Democracia

O neoliberalismo introduz a privatização, não tão-somente de empresas estatais, essa é a superfície. O que o neoliberalismo faz é a privatização dos direitos sociais. Os direitos sociais deixam de ser considerados direitos e se tornam serviços, os quais se compram ou vendem para os indivíduos que conseguem comprá-los. Não há mais direito à educação, existe o serviço educacional, não há mais o direito à saúde, existe o serviço a saúde etc. Absolutamente tudo são serviços e são empresas, o transporte, o centro cultural, as escolas, os parques e suas árvores, atendimento médico, ..., ....

O que é Democracia e como o neoliberalismo a destrói

Democracia não é um regime político da lei e da ordem, nem a competição entre partidos políticos, que ocupam o poder a partir de eleições, por uma rotação periódica no poder. Essa é uma casca oca, vazia e formal. Isso é a democracia-liberal cujo mundo todo está agora contestando. Os direitos são a definição de democracia - O Estado Democrático de Direito -, é a criação e afirmação de direitos, no entanto, o neoliberalismo transforma os direitos em serviços privados, commodities. Quando direitos não são para todos, eles deixam de ser direitos e passam a ser privilégios de alguns, daqueles que têm capital para comprá-los. Desse modo se destrói a própria essência da democracia.

3 – A meritocracia: o ser humano é um empreendimento

O indivíduo é uma empresa individual, passa a ser chamado de capital humano, empresário de si mesmo. Portanto, está destinado e, é regido pelo princípio universal da concorrência, disfarçada como uma ideia de meritocracia. O desemprego estrutural é ocultado com o nome de uberização. O salário passa a ser visto como renda individual. 

A educação é considerada um investimento para que a criança aprenda a desempenhar comportamento competitivo. Assim, desde o nascimento até a entrada no mercado de trabalho, o indivíduo é treinado a ser um investimento bem-sucedido e interiorizar a culpa quando não vencer a competição. A culpa desencadeia frustrações, ódios, ressentimentos e violência de todo o tipo, destroçando a percepção de si como um membro de uma classe social, destruindo modos de solidariedade e desencadeando práticas de ódio e extermínio do outro. 

Ao introduzir o desemprego estrutural e a fragmentação Toyotista no trabalho, o neoliberalismo dá origem a uma nova classe trabalhadora denominada Precariado. Um novo trabalhador sem emprego estável, sem contrato de trabalho, sem sindicalização, sem seguridade social e que não é simplesmente um trabalhador pobre. Sua identidade social não é dada mais pelo trabalho, mas pela ocupação. Não sendo um cidadão pleno, tem a mente alimentada e motivada pelo medo, pela perda da autoestima, pela perda da dignidade, pela insegurança e sobretudo, pela ilusão meritocrática de vencer a competição com outros e pela culpa perante o fracasso.

Os estímulos sociais cujo neoliberalismo alimenta para explorar

1 – Ao ódio 

Estimula-se o ódio ao outro, ao diferente, ao socialmente vulnerável, imigrantes, refugiados, LGBTs, sofredores mentais, negros, idosos, moradores de rua etc. Esse estímulo ideológico torna-se justificativa para a prática de extermínios. 

2 – Ao discurso totalitário

Institui o que Herbert Marcuse denominou de discurso totalitário. Um discurso denotativo, repetitivo, ritualístico, normativo, fechado sobre si, o Marxismo Cultural. Visando-se perseguir todas as formas de expressão do pensamento crítico, inventando a divisão da sociedade entre o bom-povo e os diabólicos, desenvolvendo uma teoria da conspiração comunista, que seria liderada por intelectuais e artistas de esquerda.

A palavra comunista perde todo o sentido e torna-se um slogan. Comunista significa todo o pensamento e ação que questione o Status Quo e o senso comum. Cabendo qualquer coisa, pessoa ou pensamento que se deseje declarar como inimigo. Enquanto a ideologia tradicional tinha a pretensão unificadora e universalista. Dizia-se que todos são livres e iguais, pertencentes à mesma nação. A ideologia neoliberal apoiada na ideologia da competência vai na direção contrária, acirra conflitos através de argumentos homofóbicos, racistas, machistas, religiosos, transformando-os em medos, ódios sociais e ressentimentos em discurso do poder e justificativa para práticas de censuras e extermínios.

3 - Às narrativas e a destruição dos referenciais 

A subjetividade não é considerada reflexão e interrogação, torna-se a intimidade narcisista e a objetividade deixa de ser o conhecimento do que é exterior diverso ao sujeito, passando a ser um conjunto de estratégias montadas sobre jogos de linguagens, que representam jogos de pensamento, sem que o conhecimento jamais enfrente a realidade como experiência, para suscitar a interrogação e o pensamento.

Jogos de linguagem são as chamadas “narrativas”, a partir da destruição dos referenciais espaciais e temporais. A linguagem não se refere mais ao mundo. A linguagem é um jogo, a narrativa, a qual não fala a verdade, nem sobre nada, não informa, não transmite conhecimento. É por isso que os noticiários não trazem informação nenhuma, trazem “narrativas”.

4 – O presente é fugaz, o passado não existiu e o futuro não virá

 A fugacidade do presente, há ausência de laços com o passado objetivo e da esperança de um futuro emancipador. Esse niilismo suscita o reaparecimento do imaginário religioso e a figura do empresário de si mesmo é sustentada e reforçada pela Teologia da Prosperidade., desenvolvida pelo neopentecostalismo. Só resta às pessoas encontrar sentido no divino, no mundo espiritual.

5 – O aparelho ideológico tecnológico das redes sociais

Com o mundo eletrônico e informático, e a irrealidade virtual, a ideologia apaga todo o contato do espaço-tempo como estrutura do mundo. O que Harvey chama de compressão espaço-temporal (os meios eletrônicos comprimem o espaço à tela, há o aqui. E o tempo à tela, há o agora). O passado não tem a profundidade da memória, o futuro não tem a profundidade da esperança, o espaço não tem diferenças sociais, culturais, geográficas, porque tudo se reduz ao aqui e ao agora da tela.

O neoliberalismo dá surgimento a uma nova forma de subjetividade, marcada por dois traços aparentemente contrários, mas que, na verdade, são complementares. De um lado uma subjetividade depressiva, porque é marcada pelo vencer toda e qualquer competição e pela culpa de se fracassar. Por outro lado, há uma personalidade narcisista, marcada pelas práticas das tecnologias de comunicação, as redes sociais. 

Os algoritmos operam ideologicamente pela imagem ilusória da liberdade, mas se oculta que o que se tem, é a liberdade de escolher obedecer. Os estudos em neurologia revelam que nos usuários, ininterruptos dos aparelhos eletrônicos, existe uma diminuição nas capacidades de reflexão e um grande desenvolvimento da parte do cérebro responsável pelo desejo. 

Pensa-se menos, deseja-se muito e as empresas desenvolvem aplicativos para enfatizar, direcionar, induzir e estimular desejos e compras. Na ideologia contemporânea, curtir tornou-se uma obrigação, o self, o like, o meme, torna-se aos poucos a definição do ser de cada um. Pois, começa-se a acreditar que o existir é ser visto. 

Na ideologia tradicional, a referência era o discurso da sociedade una, agora a sociabilidade é dividida não mais em classes, mas em bolhas eletrônicas, que produzem a ilusão da sociabilidade e a verdade da solidão e da competição

Bolsonaro não é causa, é consequência 

Para Chaui, do lado da população existe o medo e a desesperança, do lado dos governantes existe o ódio e das instituições impera o cinismo diante da população. Não é possível alterar a ideologia neoliberal de algo incorreto, para algo correto. A ideologia usa as lacunas e o vazio daquilo que não se deve ser dito. Ao se preencher os vazios a ideologia se autodestrói. Enquanto em outros países houve força institucional e da sociedade para se pôr um freio ao arbítrio, no Brasil, por ser um país autoritário e violento, não houve freios. Aqui, a democracia não conseguiu se institucionalizar e as instituições nunca foram democráticas. 

São por essas razões que não basta apenas trocar a política econômica neoliberal, são necessárias mudanças estruturais e profundas. Quando pessoas como José Genuíno, Marcio Pochmann, Vladimir Safatle, Eduardo Costa Pinto, Breno Altman, Elias Jabbor e outros, dizem ser necessário radicalizar. Eles não estão referindo-se a fazer revoltas armadas ou romper com o sistema capitalista, mas sim, com toda a ideologia neoliberal. Inclusive conscientizar a população. O que é uma opinião unânime de que faltou nos governos do PT. 

Não o fazendo, há o risco de acontecer no Brasil o mesmo que está se desenhando nos EUA ou na França, o retorno do Trump e da Le Pen. Todas as esquerdas-liberais, ou as que tentam conciliar com o neoliberalismo, estão sendo derrotadas nas eleições pela extrema-direita ou perdem apoio popular, culminando em suas derrubadas do governo.

Não bastará vencer Bolsonaro. Parafraseando Rauzito: Bolsonaro é uma mosca e não adiante o dedetizar, porque você mata uma e virá outra em seu lugar. E nem o capital estrangeiro e o capital nacional irão apoiar ou ficarão estáticos permitindo a menor mudança. 

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