Neoliberalismo: o politicamente incorreto

Acredita-se que a pobreza é culpa dos pobres- geralmente negros e indígenas- ainda vistos como cidadãos de segunda classe desde a colonização; diante da falta de oportunidades de educação e emprego gerada pelo estado, se aceita a pobreza endêmica

Desde sua concepção, o neoliberalismo valida-se do ethos da globalização, integração e modernização. A ideia predominante, o antiestadismo, baseia-se na lei da oferta e demanda do mercado, onde o conceito de serviços públicos destinados à população não faz parte da agenda econômica. Contudo, se o que prevalece é a não interferência do governo na economia e o culto ao individualismo, no âmbito político a interferência governamental sepulta a liberdade individual e constrói o pensamento da massa- detentora de moral conservadora, religiosa e elitista que opera contra os acordos multilaterais de direitos humanos, a soberania de outros países e a democracia.

Essas características expõem uma linha muito tênue entre o neoliberalismo e o neoconservadorismo no que tange seus valores, de caráter autoritário. O discurso dos líderes e seus seguidores propaga a noção de que os valores da família devem ser preservados assim como o nome de Deus, constantemente exaltado em enunciados e campanhas políticas. Para eles, uma sociedade permissiva e livre não possui ética ou moral. Isso compromete a liberdade de gênero, da mulher e religiosa, que, por sua vez, sofrem ataques e exclusão social. 

Acredita-se que a pobreza é culpa dos pobres- geralmente negros e indígenas- ainda vistos como cidadãos de segunda classe desde a colonização; diante da falta de oportunidades de educação e emprego gerada pelo estado, se aceita a pobreza endêmica. O ter comanda essa nova fábrica social.

Surge um novo ideal de população, que aprova a dissidência contra grupos minoritários, imigrantes pobres e refugiados tanto quanto o meio ambiente, renegando convenções internacionais em consonância com a ONU. Assim, estes governos desconsideram os direitos humanos, deixando de garantir ao povo o respeito pela sua dignidade por meio da proteção contra o arbítrio do poder estatal.

Quando introduzida, a propaganda do neoliberalismo apresentou como slogan o “libertarianismo”, cuja promessa de crescimento econômico tornou-se um salmo anticomunista. Proveniente do Chicago Boys, no Chile dos anos 1970, o pensamento neoliberal detém, como representantes máximos: Pinochet, um ditador condenado por crimes contra a humanidade; Ronald Reagan, responsável por armar militares de direita na América Latina, resultando em ditaduras sanguinárias na região; e Margaret Thatcher, cunhada de “a dama de ferro”, que deixou o cargo de Primeira-Ministra da Inglaterra com o legado de corruptora dos princípios de solidariedade no país e perseguição ao socialismo. 

Na América Latina, vários golpes de estado foram orquestrados para destituir a esquerda do poder. A narrativa atual é obsessiva e de constante reprovação à Venezuela e Cuba sob a justificativa da pobreza gerada por seus ditadores. Porém, os neoliberais aprovam sanções econômicas contra esses países, isolando-os do acesso ao mercado; o que afeta diretamente suas populações e, consequentemente, as deixam cada vez mais pobres. Ademais, se são contra a pobreza e a ditadura, por que criam medidas austeras que aumentam a pobreza e a desigualdade social em seus próprios territórios, apoiam ditadores e se tornam autoritários? Com isso, a noção de democracia e soberania não se aplicam a outras nações socialistas, mas somente aos países sob a égide neoliberal quando alvos de críticas internacionais. 

Assim, a oposição passou a ser demonizada, indo contra os princípios fundamentais da democracia que garante a liberdade de associação e liberdade política. Além do mais, o conceito de uma nova classe governamental, distante das necessidades do povo, se fortalece a base de autoritarismo, uso das forças armadas e devotamento à elite.  

Os registros oficiais não sabem precisar quantos manifestantes foram às ruas no Chile e Equador recentemente, nem aos protestos na Argentina e no Brasil ao longo dos últimos anos contra cortes públicos e a exclusão de direitos de parte da população.

Corroborando o que foi observado, em conversas interceptadas do WhatsApp entre Cecilia Morel e suas amigas, a primeira dama do Chile compara os protestantes de seu País a “alienígenas” e sugere que “diminuamos nossos privilégios para compartilhá-los com os demais". Por seu turno, os protestos são marcados por intensa violência policial que extrapola a manutenção da ordem. Já no Equador, o presidente neoliberal Lenín Moreno retira direitos estendidos à população indígena, decreta ato de recolher, militarização e prisões arbitrárias contra os manifestantes. Na Argentina, Mauricio Macri promulgou medidas tão austeras contra seu povo, as quais elevaram o índice de fome e da pobreza estrutural no país, pontuando 31.3% no final de 2018. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro já fez declarações elitistas de exclusão sobre grande parcela da população ao demonstrar desafeto pelos negros, homossexuais e indígenas, e ameaçou metralhar a “petralhada” - alcunha para os simpatizantes do partido rival de centro-esquerda, desrespeitando, assim, o pluralismo político previsto em uma democracia. Além disso, em relação à política externa, proferiu invadir a Venezuela devido ao governo ditatorial de Maduro, mas contradizendo-se, responsabilizou os protestos no Chile justamente pela ausência da ditadura no país e votou a favor do embargo econômico a Cuba, na ONU. 

Isso demonstra que na América Latina, o neoliberalismo reproduz-se como uma URSAL às avessas; talvez, poderíamos até chamá-la de conspiração LASRU, ao inverter o acrônimo e os ideais de liberdade, democracia e desenvolvimento humano. 

Entretanto, de acordo com a ideologia liberal que deu origem ao neoliberalismo, o estado é criado por indivíduos e para indivíduos, onde governos surgem com o consentimento dos que são governados. Isso implica que quando a legitimidade do sistema político se deteriora está assegurado o direito à manifestação pelo contrato social entre o estado e o povo.  Opõem-se, também, ao paternalismo- cujo pai (governo), com ações punitivas, castiga seus filhos (povo), aumentando a violência militar, prendendo e matando manifestantes. 

Por assim dizer, o neoliberalismo contradiz-se em sua essência, sendo marcado pelo atomismo- (quando a sociedade não existe); e pela meritocracia (que nega a máxima “a diferença é cega) ao mesmo tempo que o estado controla a liberdade individual ao ditar valores e princípios e avaliza um ‘Deus’ que permite excluir, torturar, exilar e matar. O que o neoliberalismo destacou, desde seus predecessores, é uma política autoritária que nega direitos humanos à população e combate opositores de forma violenta e antidemocrática. Quando se pensava que o fim da ideologia estava se aproximando para dar lugar a uma sociedade mais moderna e justa, presenciamos o afloramento de doutrinas governamentais onde o politicamente incorreto é reverenciado. 

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