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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Nikolas, Michelle e Flávio abrem a guerra pela herança de Jair

Sem Bolsonaro no páreo, a extrema direita entra em guerra interna e transforma a sucessão em disputa feroz por poder, influência e controle eleitoral até 2030

Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados | Carlos Moura/Agência Senado)

Racha exposto por reportagens recentes revela disputa entre Flávio, Michelle e Nikolas pelo comando da extrema direita rumo a 2026 e 2030. Sem Jair Bolsonaro elegível, o campo que se organizou por obediência ao líder entra em sua fase mais instável: a luta entre herdeiros.

A crise que expôs o racha

A extrema direita brasileira entrou oficialmente em fase de disputa interna aberta. Em coluna publicada na terça-feira (10), a jornalista Juliana Piva revelou uma “crise sem precedentes” entre Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente, capaz de ameaçar a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e desorganizar o campo rumo a 2026. Segundo a apuração, dirigentes do PL não sabem sequer se Michelle trabalhará para eleger o senador apontado pelo pai como seu sucessor.

O que parecia sucessão automática dentro do clã tornou-se conflito explícito por protagonismo. O bolsonarismo, estruturado por anos sob comando vertical, entra agora em sua fase mais delicada: a disputa pela herança política do líder que já não pode disputar eleições. Jair Bolsonaro está na Papudinha, cumprindo pena de 27 anos de prisão.

A crise envolvendo Michelle não é episódio isolado. Soma-se ao distanciamento de Nikolas Ferreira da campanha de Flávio e a outros sinais de fragmentação. O campo que se organizava por lealdade passa a operar com múltiplos centros de gravidade: o filho indicado, a ex-primeira-dama que preserva o sobrenome e a liderança jovem que constrói base própria.

A extrema direita não recua. Reorganiza-se.

O gesto que rompeu a expectativa de obediência

Ao declarar que não integra o planejamento da eventual campanha presidencial de Flávio e que atuará prioritariamente em Minas Gerais, Nikolas quebrou a lógica de adesão automática ao candidato do clã. Em um movimento que sempre operou por hierarquia pessoal, isso tem peso estrutural.

Não há divergência ideológica substantiva entre Nikolas e o núcleo bolsonarista. Há disputa de centralidade. Com Jair Bolsonaro fora das urnas, a autoridade incontestável se dilui, e a sucessão deixa de ser automática.

O gesto não representa ruptura com o bolsonarismo. Representa o início da disputa por seu comando.

Três polos na sucessão

Flávio, o filho 01 de Jair, representa a continuidade familiar direta. Michelle Bolsonaro representa a continuidade simbólica e religiosa do bolsonarismo. Nikolas Ferreira representa a continuidade de base digital e mobilização jovem.

Eleito deputado federal por Minas Gerais em 2022 com 1.492.047 votos — a maior votação do país naquele pleito —, Nikolas consolidou-se como uma das principais lideranças de massa da nova extrema direita. O desempenho eleitoral o projetou nacionalmente e o transformou em referência para o eleitorado jovem e digitalmente mobilizado.

Com mais de 20 milhões de seguidores somados nas redes sociais, o deputado opera com alcance direto sobre uma base altamente engajada. Sua comunicação conecta-se ao universo evangélico conservador, que reúne dezenas de milhões de fiéis no Brasil e constitui hoje um dos pilares de sustentação social da extrema direita.

Essa combinação — votação recorde, presença digital massiva e inserção no campo religioso — fornece a Nikolas um capital político próprio, relativamente autônomo em relação ao núcleo familiar de Bolsonaro. A disputa deixa de ser linear e torna-se tripla.

Flávio carrega o sobrenome e a indicação paterna. Michelle preserva o capital simbólico do período no poder e dialoga diretamente com o eleitorado evangélico. Nikolas, por sua vez, acumulou base própria nas redes e votação recorde.

Em movimentos personalistas, a ausência do líder fundador não produz vazio. Produz competição entre herdeiros.

Michelle: sobrenome, fé e ambição

A eventual presença de Michelle como vice em uma chapa encabeçada por Tarcísio de Freitas é tratada por aliados como plano viável. A estratégia manteria o nome Bolsonaro no topo do tabuleiro eleitoral e daria a Michelle densidade política nacional.

Esse movimento, no entanto, desloca o protagonismo de Flávio e aprofunda tensões internas. A crise relatada por Juliana Piva revela que o conflito deixou de ser discreto. O clã já não opera em harmonia automática.

Michelle ocupa posição singular: não é filha do líder, mas carrega o sobrenome e a legitimidade simbólica de ter sido sua principal parceira política e religiosa durante o governo e após a saída do poder. Seu diálogo direto com o eleitorado evangélico a torna peça central na disputa.

A unção simbólica e a disputa real

Elogios públicos de Michelle a Nikolas, nos últimos meses, foram interpretados como sinal de legitimação interna. Em movimentos personalistas, a consagração simbólica costuma anteceder a disputa formal.

Quando uma liderança passa a ser tratada como “líder” antes de disputar cargos majoritários, não se trata apenas de elogio. Trata-se de preparação de sucessão.

O bolsonarismo começa a viver o momento em que a unção simbólica deixa de ser consensual e se transforma em competição.

A força de Nikolas não se resume ao Parlamento. Sustenta-se em uma base digital altamente mobilizada e emocionalmente conectada. A política se mistura à linguagem religiosa e identitária, reforçando laços de pertencimento.

Quando a disputa interna se dá nesse terreno, deixa de ser apenas por votos. Passa a ser por devoção e autoridade simbólica. Quem mobiliza a base emocional acumula poder real.

O horizonte de 2030

Desde a caminhada que liderou em protesto contra a prisão de Jair Bolsonaro, Nikolas passou a se comportar como liderança nacional em construção. Pela Constituição, não pode disputar a Presidência em 2026, mas poderá em 2030. Sua trajetória recente é coerente com esse calendário.

Se tivesse idade para concorrer agora, dificilmente aceitaria papel secundário. O capital acumulado — votação recorde, presença digital massiva e inserção no eleitorado evangélico — o coloca entre os nomes mais competitivos da extrema direita no cenário pós-Bolsonaro. Sem poder disputar em 2026, consolida base para o ciclo seguinte.

Mais de 20 milhões de seguidores

Eleito deputado federal por Minas Gerais em 2022, com a maior votação do país naquele pleito, amparado em seus milhões de seguidores nas redes sociais e com forte inserção no campo evangélico conservador — que reúne dezenas de milhões de fiéis no Brasil —, Nikolas tornou-se uma das principais lideranças de massa da nova extrema direita, com capital político próprio, relativamente autônomo do núcleo familiar de Bolsonaro. É esse capital que torna seu distanciamento politicamente relevante.

Movimentos personalistas atravessam um ciclo previsível: ascendem sob liderança única, consolidam coesão e entram em fragmentação quando o líder perde viabilidade eleitoral. O bolsonarismo chega a esse estágio.

Sem Bolsonaro — preso e inelegível — surgem polos concorrentes: o filho indicado, a ex-primeira-dama e a liderança jovem de base digital e religiosa. A sucessão deixa de ser linha de transmissão e torna-se campo de batalha.

A disputa pela herança já começou

O que se abriu no bolsonarismo não é uma crise passageira. É a transição de um movimento centrado em um homem para um campo político que disputa o comando de milhões de votos, milhões de fiéis e milhões de seguidores. Quando a liderança deixa de ser única, a luta pelo legado se torna inevitável.

Flávio, Michelle e Nikolas não disputam apenas candidaturas. Disputam a autoridade de falar em nome de um eleitorado que permanece mobilizado e radicalizado. Essa disputa moldará a extrema direita brasileira na próxima década e provavelmente a tornará mais organizada, mais competitiva e mais preparada para o ciclo de 2030.

A democracia brasileira não enfrenta um adversário em retirada. Enfrenta um adversário em reorganização. E a história mostra que movimentos assim raramente desaparecem. Eles se reconfiguram, escolhem novos líderes e voltam ao jogo com mais experiência e menos ilusões.

A sucessão bolsonarista está em curso. E dela sairá a próxima liderança nacional da extrema direita. Quem subestimar esse processo corre o risco de enfrentá-lo tarde demais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.