No Brasil, a cor da pele ainda define salários
Trabalhadores brancos recebem até 67% a mais por hora que pretos ou pardos, expondo uma desigualdade estrutural que atravessa gerações no Brasil
O debate sobre desigualdade no Brasil costuma ser envolvido por uma névoa confortável de opiniões e suposições. Mas há um território onde a retórica perde espaço: o das estatísticas oficiais. Quando os números entram em cena, o argumento deixa de ser retórico e passa a ser factual. E quem os produz com regularidade, método e responsabilidade institucional é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Este texto nasce de um incômodo que não desaparece ao longo dos anos de observação das estatísticas sociais brasileiras. Há algo profundamente revelador na regularidade desses números. Eles se repetem com pequenas variações, mas com o mesmo desenho estrutural.
A base desses dados é a PNAD Contínua, a principal pesquisa sobre mercado de trabalho no país. Na Síntese de Indicadores Sociais divulgada em 6 de dezembro de 2023, com base no ano de 2022, o IBGE apresentou um dado direto: o rendimento médio por hora de trabalhadores brancos era de R$ 20, enquanto pretos ou pardos recebiam R$ 12,40. A diferença alcançava 61,4%.
Não se tratava de uma anomalia estatística. Na atualização divulgada em dezembro de 2024, já com dados de 2023, a distância havia aumentado. O rendimento médio por hora chegou a R$ 23,02 para trabalhadores brancos e R$ 13,73 para pretos ou pardos, ampliando o diferencial para 67,7%.
Esses números dizem algo que o discurso público muitas vezes tenta suavizar: a desigualdade racial no mercado de trabalho brasileiro não está desaparecendo. Ela permanece incrustada na estrutura econômica.
Quem acompanha essas estatísticas percebe rapidamente que não se trata de números neutros. Cada decimal traduz escolhas sociais acumuladas ao longo de décadas. Cada diferença salarial revela como uma sociedade distribui valor e reconhecimento entre seus trabalhadores.
O recorte de gênero amplia ainda mais a fratura. Mulheres continuam recebendo cerca de um quarto a menos que homens, mesmo quando apresentam níveis de escolaridade iguais ou superiores. Quando raça e gênero se cruzam, o padrão torna-se brutalmente previsível: mulheres negras permanecem na base da pirâmide de renda do país.
Esse quadro não surge por acaso. O sociólogo Florestan Fernandes já alertava que o Brasil aboliu juridicamente a escravidão, mas não desfez a estrutura social que a sustentava. Em outras palavras, a liberdade formal não foi acompanhada de uma redistribuição real de oportunidades.
Ao observar a série histórica da PNAD Contínua, torna-se impossível ignorar a persistência desse padrão. A desigualdade salarial atravessa níveis de educação, setores econômicos e posições ocupacionais. Mesmo entre trabalhadores com ensino superior completo, a diferença salarial entre brancos e pretos ou pardos continua elevada, frequentemente superior a 40% no rendimento por hora.
Há também outro indicador revelador: o acesso ao poder dentro das empresas. Pretos e pardos representam mais da metade da força de trabalho brasileira, mas continuam sub-representados em cargos de direção e gerência.
Esse descompasso indica que o problema não está apenas no salário recebido ao final do mês. Ele está no acesso às posições onde as decisões econômicas são tomadas.
Analisando esse cenário, o economista ganhador do Nobel Amartya Sen observa que desigualdades persistentes no trabalho não refletem apenas imperfeições de mercado, mas restrições sociais que impedem milhões de pessoas de desenvolver plenamente suas capacidades. Quando essas restrições se tornam sistemáticas, a própria ideia de meritocracia começa a desmoronar.
Negar a existência de racismo estrutural no Brasil tornou-se uma espécie de ilusão de ótica coletiva. Só não enxerga o fenômeno quem decide olhar para outro lado. O Brasil que aparece nos dados não é o país idealizado em discursos sobre cordialidade racial. É um país em que o valor da hora de trabalho ainda é afetado pela cor da pele e pelo gênero de quem trabalha.
A historiadora Lilia Schwarcz tem insistido que o Brasil construiu ao longo do século XX uma narrativa confortável sobre si mesmo, celebrando a miscigenação como prova de harmonia social. As estatísticas contemporâneas, porém, contam outra história: uma sociedade em que desigualdades raciais continuam profundamente entranhadas na economia.
Se produtividade e esforço fossem os únicos critérios determinantes, não haveria razão estatística para que a cor da pele e o gênero continuassem funcionando como marcadores tão previsíveis de renda.
O que os dados revelam é outra coisa: o mercado de trabalho brasileiro ainda opera com hierarquias silenciosas herdadas da história social do país. Hierarquias que começaram na escravidão, atravessaram a industrialização e permanecem incrustadas na economia contemporânea.
Essas desigualdades não são apenas um problema ético. São também um problema econômico.
Uma sociedade que paga menos a milhões de trabalhadores por razões sociais — e não produtivas — desperdiça talento, reduz mobilidade social e limita seu próprio crescimento.
Economias modernas prosperam quando conseguem mobilizar plenamente o potencial humano de sua população. O Brasil, ao manter barreiras salariais previsíveis por raça e gênero, escolhe fazer exatamente o contrário.
Os números do IBGE, portanto, não são apenas estatísticas. Eles funcionam como um diagnóstico incômodo sobre como o país continua distribuindo valor, oportunidade e reconhecimento.
Enquanto essas diferenças permanecerem estruturalmente intactas, qualquer discurso sobre igualdade de oportunidades continuará incompleto.
Porque não existe mercado realmente competitivo quando o preço da hora de trabalho ainda é influenciado pela cor da pele ou pelo gênero de quem trabalha.
E não existe projeto sério de desenvolvimento nacional enquanto a economia brasileira continuar aceitando — quase como se fosse natural — que milhões de trabalhadores precisem produzir mais, resistir mais e esperar mais apenas para continuar recebendo menos. Quando um país normaliza essa lógica, não está diante de uma imperfeição estatística do mercado. Está diante de uma escolha histórica sobre quem merece prosperar e quem será condenado a sustentar, silenciosamente, a base da pirâmide social.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
