No labirinto, tentando decifrar o minotauro

Em sua instabilidade, o quadro atual exige pensar sobre como estaremos em 2022. Sob regime mais autoritário? Ou sob uma dinâmica menos fechada que, vendo-se como o outro extremo do bolsonarismo, articula desde já mil 'compromissos superadores'?

No labirinto, tentando decifrar o minotauro
No labirinto, tentando decifrar o minotauro (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

"Les esclaves ont besoin d´esclaves pour afficher l´autorité des tyrans';

René Char, "Chants de la Balandrane'

Ao se completarem dois meses de governo extremista - essa entidade imprecisa que na retórica de seu chefe se proclama revolucionária, redentora da nação e refundadora do Brasil -, alguns traços constitutivos parecem suficientemente bem delineados, o que permite exercício de 'especulação educada' quanto ao significado do pesadelo que vivemos e de seus prováveis desdobramentos de curto e médio prazo.

Para boa parte do público - os que, outubro passado, não votaram no capitão reformado, ou aqueles que, em o havendo sufragado, começam a se arrepender da equivocada escolha -, algo parece claro. Enquanto a grande mídia, capitaneada por Estadão, Folha e Globo, mais os trêfegos 'analistas do mercado' e demais atores essenciais do 'establishment' disseminam suas narrativas convergentes, o que desde 2016 é dramática ameaça, um ou dois anos mais poderá se converter em tragédia. Acompanhar as manifestações diárias desse conjunto de 'formadores de opinião' gera estranha sensação: tudo se passa como se estivéssemos vivendo, se não no melhor dos mundos possíveis, num Brasil em plena normalidade.

O grande ponto de convergência desse amplo leque, em meio a discordâncias secundárias, mais do que evidente.Os formadores de opinião, tanto os conservadores que se passam por liberais quanto os extremistas que se apresentam como conservadores, sublinham em uníssono que o verdadeiramente resgatável, o estrategicamente defensável e imprescindível, de tudo o que é sustentado com quase nula coerência pelo atual governo, é o neoliberalismo emblemático do Ministro da Economia. O essencial, nessa linha de análise comprometida, é defender e justificar o conjunto de iniciativas de ordem econômica focado na destruição do estado desenvolvimentista originado com Vargas, do estado e visão de sociedade que se manteve , a despeito de tantas metamorfoses e avatares, até o golpe contra Dilma Roussef.

Caso o projeto de reformas neoliberais extremadas, do qual as mudanças regressivas na previdências social são o primeiro passo, obtenha a aprovação do congresso, abre-se a possibilidade de o domínio político da extrema direita, franja ideológica que nunca antes governou o país na vigência de regime democrático, se estender por oito anos ou mais. Esse cenário é teoricamente plausível, mas seu prazo real de validade é incerto. O proposto por Guedes só terá condições de se manter enquanto os resultados sociais catastróficos das reestruturações selvagens planejadas e prometidas, em permanente sintonia fina com o que vai pelo mundo do 1%, não revele no cotidiano sua monstruosidade, seu objetivo prioritário sendo a expropriação de direitos da imensa maior parte da população.

A reestruturação do estado e da sociedade brasileira, fenômeno estreitamente vinculado ao que vem sendo construído em escala planetária desde os anos 70 do século passado. Aos trancos e barrancos, de Pinochet, Reagan e Thatcher para cá, o neoliberalismo se expandiu, ao mesmo tempo em que engendrava crises, guerras, golpes e agressões. Hoje, tenta gerir o planeta transformado em terra em transe na qual a quase totalidade das sociedades deslizam no plano inclinado - diria o Rousseau do Discurso sobre a Origem da Desigualdade - que, ao destruir a sociedade nascente, conduz à mais impiedosa guerra civil.

Os bem-pensantes do neoliberalismo no Brasil avaliam que, para conter a tendência ao caos que ainda permanece entre nós, prioritário solucionar os problemas principais desses novos tempos: o próprio capitão, os filhos, as milícias, os sindicatos, os movimentos sociais, os partidos vagamente socialdemocratas, os defensores de direitos humanos, a herança iluminista, esquerdista e atrasada que misteriosamente ainda tem alguma vigência por aqui, ali, acolá. Para esses habitantes do Olimpo pós-moderno, muito ruim, pior que tudo, o populismo indeterminado, o populismo pensado como categoria 'portemanteau' que recobre num só termo o que Oropa, França e Bahia (São Paulo também...) detestam. Aqui, ali, acolá, nesses lugares todos, o detestar se torna odiar. E a política cada vez mais é pensada como operação de guerra.

Como a força do bolsonarismo surpreendeu também essa elite da elite, bom seria para 'i grandi', se possível fosse, manter com dose adequada de falsa harmonia essa abstrata separação cartesiana, mas sempre devidamente interconectada: alguma ligação entre corpo pútrido e alma virtuosa, entre 'res extensa' e 'res cogitans', entre Bolsonaro e Guedes, entre paixão mórbida, desenfreada e perversa, e razão pura, cristalina e neoliberal. Mas não dá. Esse 'tour de force' é de concretização manifestamente impossível.

Isso porque o anjo do mercado, Guedes Azrael, só pode funcionar - nisso assumindo o papel do Golem destruidor do estado getulista, janguista, geiseliano e petista -, se contar com Bolsonaro e 'famiglia', mais os teólogos da prosperidade, ou seja, se mantiver explícitos seus vinculos com a rua. Mas para que o anjo instaure o progresso que é tormenta, indispensável, também e sobretudo, o aval dos generais que, convertidos à religião do deus mercado, hoje mais parecem o aguadeiro Gunga Din. Completando a arquitetônica, o projeto não vai para frente sem que a grande mídia e os altos tribunais parcializados cumpram seu papel no melhor estilo das harmonias funcionalistas pré-estabelecidas. Há, portanto, que unir a rua ao cimo em caráter permanente.

Essa complicada e insolúvel equação me faz lembrar o título de um livro de René Char , 'Recherche de la base et du sommet'. A base e o cimo pensados por Char, completamente diferentes da base e do cimo que definem nosso dramático contexto. Nas nossas circunstâncias, o mais inquietante e amedrontador para 'i grandi' são as imprevisíveis reações do 'popolo minuto', esse corpo desejante, urbano e rural, presente nos centros e nas periferias, a cada tanto insubmisso, a cada tanto inclinado, mais tempo ou menos tempo, a se deixar levar pelas temíveis 'émotions populaires' que tanto preocupavam Tocqueville.

Em sua instabilidade, o quadro atual exige pensar sobre como estaremos em 2022. Sob regime mais autoritário? Ou sob uma dinâmica menos fechada que, vendo-se como o outro extremo do bolsonarismo, articula desde já mil 'compromissos superadores'?

No tempo que resta, os que cultivam a dinâmica imantada pela ideia de um regime menos fechado, os integrantes do 'arco democrático ampliado'que afinal parece emergir, laboriosamente tentam recompor, à luz do desastre ocorrido nos últimos quatro anos, um 'centro mais ou menos esclarecido', pedra de toque que possa contribuir efetivamente para novo intento de constitucionalização que, bem-sucedido, quem sabe lembre o regime de 88, esse morto que caminha. O falecido perambulante, coisa evidente, outro fantasma que ainda não acabou de tropeçar, bêbado sem equilibrista. Ordem constitucional em estado comatoso.

O que restou do regime que instaurou a Nova República é como o herói dos quadrinhos da minha juventude? Não. O Fantasma e o fiel Capeto sempre caminharam com passos firmes, não como o projeto democrático fracassado, marcado pelo júbilo que foi a proclamação da Constituição Cidadã, mas também ferido pelo fatal olvido do significado real da Lei de Anistia. Projeto que se tornou vida e sobreviveu por 30 anos. Regime que rendeu importantes frutos, mas que desde seu início perdeu vitalidade. Promessa de um 'Brasil aggiornato' afinal incumprida sobretudo pela elite da elite, o que quer que isso realmente signifique no Brasil de hoje. O regime foi golpeado, os lobos da alcateia mais retrógrada afinal se instalando no poder desde ao menos o golpe de 2016.

De toda forma, ao que tudo indica bem antes da duvidosa chegada do futuro 'tempo eleitoral quente', a campanha e os dois turnos das presidenciais de 2022, viveremos o esgotamento completo, em termos institucionais, do ciclo que de momento teve como clímax o desvario de outubro passado. Em lugar de programadas eleições, prudente refletir que talvez vivamos, enquanto o governo Bolsonaro se enfraquece, o começo de outro drama, em vez da esperada renovação democrática por conta do voto consciente. Situação futura, pior do que a atual? Drama? Tragédia? Catástrofe? Fênix? Saberemos.

O mais difícil no plano imediato é que os vencedores de outubro possam assegurar a continuidade de Bolsonaro como líder atuante. Provavelmente conviveremos com alguma variante de Bolsonaro títere. Bolsonaro Bordaberry, prevejo, não será surpresa. O capitão, nessa hipótese, reduzido a figura tão somente decorativa, simbolicamente a serviço de Guedes e do grande empresariado, dos generais que tautologicamente são a 'ultima ratio' deste governo, e dos teólogos da prosperidade cujo projeto de poder é distinto do entoado pelo bolsonarismo.

O destronado capitão provavelmente aproveitará o 'tempo livre' que talvez lhe caiba para constituir seu partido de massas, a organização encarregada de cristalizar o neofascismo tropical . Pitadas de integralismo, talvez, na violência retórica. Mais do que pitadas de violência física, no estilo dos 'squadristi', no agir cotidiano. E muito de neoliberalismo mal deglutido, a dimensão teórico-prática que assegura financiamento forte de grandes empresários. O nome do partido já se sabe. Ao menos por hoje beira a justiça poética, ao evocar o lacerdismo dos anos 50 e 60.

O pior cenário, se crise explosiva do governo bolsonarista vier se instalar em ritmo galopante - visionários preveem a queda do capitão por volta de junho vindouro -, seria a tentativa de escapar da tormenta pelo seu espantoso aumento, pela aposta catastrófica da direita extremista num regime bonapartista explícito. Esse tipo de regime tem sempre muito fôlego, sabemos no vivido os que já passamos pela experiência. Não se confunde com o que aí está, embora de certa forma essa variante de dominação mliitar já aí esteja.

Caso se comprometa a continuar e aprofundar o projeto neoliberal puro e duro, inaugurado formalmente por Temer, o que quer que venha a substituir o governo Bolsonaro, concretizada a hipótese de seu esgotamento, disporá do apoio declarado ou discreto da grande imprensa, do grande empresariado, da cúpula do estado em seus três poderes. Nada de novo sob o sol.

Enquanto isso, o fantasma encarnado pelo neoliberalismo, contradição em termos lógico-formais, mescla de racionalidade funcional com irracionalismo substancial, continua a parir um mundo, por temporário que venha a se revelar, extremado e direitista. Bem instalado na Europa, talvez esteja por se fortalecer com as próximas eleições no âmbito da UE. Bem instalado nos EUA, mas talvez ameaçado pelas investigações sobre as relações perigosas de Trump com a Rússia. Bem instalado no mundo em geral, sua figura atual tendo algo a ver com as múltiplas faces de um mesmo deus hinduísta, ora quem diria. Modi diria. Duterte, Sisi e Bolsonaro também.

Mas o bem desse 'bem instalado mundo' é problemático. Seu prazo de vigência talvez esteja começando a se desenhar no horizonte do médio prazo, dizem os otimistas como eu. Ou não, infelizmente não, porque na outra ponta do raciocínio algo oposto também pode ser afirmado com igual probabilidade de acerto: a coisa que é besta e fera e ultradireitismo 'neofasacista' em escala planetária bem pode durar uma geração mais. Isso, certo, sussurram os pessimistas como eu.

Menos mal que, a despeito de tudo, existem tantos e tantas, homens e mulheres esperançados, dispostos a resistir à barbárie. Aqui, ali, nesses lugares todos. Tomara 'gaudium et spes' sejam suficientes. Ao menos servem, e muito, para o começo desta nossa longa caminhada.

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