Oliveiros Marques avatar

Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

279 artigos

HOME > blog

No vayas a Chile. No nos quieren allí

O discurso que criminaliza o estrangeiro, que associa pobreza à ameaça e que transforma diferenças culturais em motivo de desconfiança não surge por acaso

Bandeiras do Chile (Foto: Ivan Alvarado/Reuters)

Há momentos na história em que o turismo deixa de ser apenas lazer e passa a ser também um gesto político. O Chile de hoje, sob a condução de seu atual presidente José Kast, vive um desses momentos que exigem atitudes que o questionem. Um país que já foi referência de abertura e convivência na América Latina agora flerta perigosamente com discursos que alimentam o medo, a exclusão e a xenofobia.

Nenhuma sociedade está imune a tensões quando fluxos migratórios crescem. Mas há uma diferença fundamental entre tratar o tema com responsabilidade e governar estimulando ressentimentos. Quando autoridades optam por transformar imigrantes em bodes expiatórios, deixam de liderar para apenas ecoar o pior dos instintos sociais.

O discurso que criminaliza o estrangeiro, que associa pobreza à ameaça e que transforma diferenças culturais em motivo de desconfiança não surge por acaso. Ele é cuidadosamente construído para gerar coesão pelo medo, desviando o foco dos verdadeiros objetivos de determinados projetos políticos. É uma velha tática: dividir para governar. E, nesse processo, alimenta-se um ambiente onde brasileiros, venezuelanos, haitianos e tantos outros passam a ser vistos não como pessoas, mas como problemas.

Diante disso, qual deve ser a resposta de quem acredita em uma sociedade mais justa, plural e democrática? Há muitas formas de resistência, mas uma delas é simples e direta: não contribuir com economias que validam esse tipo de postura. O turismo movimenta bilhões e representa uma fonte importante de renda. Escolher não visitar um país que adota políticas hostis a estrangeiros é, também, um posicionamento ético-político.

Não é um chamado ao isolamento, nem à hostilidade recíproca. Pelo contrário. É um convite à coerência. Se um governo sinaliza que não quer determinados povos dentro de suas fronteiras, por que esses povos deveriam investir seu dinheiro ali? Por que fortalecer economicamente um projeto político que os rejeita?

Pessoas de bem - sejam de esquerda, de centro ou até mesmo de direita - precisam reconhecer quando uma linha perigosa está sendo cruzada. A normalização da xenofobia nunca começa de forma escancarada; ela avança aos poucos, travestida de preocupação com segurança, emprego ou identidade nacional. Quando percebemos, já se tornou política de Estado. O nazismo está na história para nos ensinar isso.

O Chile é maior do que seu governo, assim como qualquer país é maior do que seus líderes momentâneos. Há uma sociedade vibrante, diversa e cheia de gente que rejeita esse caminho. Mas enquanto a máquina pública for utilizada para estimular o preconceito, é legítimo que haja uma resposta externa, ainda que silenciosa e minoritária.

Viajar é um ato de escolha. E, em tempos como estes, escolher também é um ato político.

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.