No Yad Vashem a relação bizarra de Netanyahu, Bolsonaro e Holocausto

No caso de Bolsonaro, a visita ao Yad Vashem, museu do Holocausto em Jerusalém, é um ritual macabro, tratando-se de um homem que elogia torturadores, insufla ódio e prega que  as minorias têm que se adaptar à maioria. Netanyahu já causou celeumas em Israel ao levar os presidentes da Hungria, da Polônia e das Filipinas, todos com perfis semelhantes de personagens que utilizam o ódio nas suas linguagens e práticas

No Yad Vashem a relação bizarra de Netanyahu, Bolsonaro e Holocausto
No Yad Vashem a relação bizarra de Netanyahu, Bolsonaro e Holocausto (Foto: Alan Santos/PR)

A visita de quatro dias de Bolsonaro a Israel (mais tempo que no país de Trump) mostra o quanto o Brasil tornou-se importante para Netanyahu, embora seja ainda nebuloso o quanto Netanyahu é importante para Bolsonaro e seus companheiros militares.

A aposta frustrada de Netanyahu de conseguir a mudança da embaixada brasileira tinha motivo: era vital para demonstrar aos eleitores que votarão no 9 de abril a sua eficiência na política externa. Até agora só conseguiu mudança das embaixadas com Trump e a Guatemala, que descumpriram decisão internacional de fazê-lo apenas quando houver também capital do Estado Palestino. No isolamento internacional produzido pela arrogância de Netanyahu, que manifestou-se até ao enfrentar o presidente Obama no Congresso, Israel precisa de votos na ONU, e o Brasil tem peso simbólico grande.

Na agenda, a visita programada para 2 de abril ao Yad Vashem, museu do Holocausto em Jerusalém, é um pequeno detalhe, mas pode abrir para o entendimento de significados bastante ricos.

Quem for a Israel interessado nas raízes judaicas e no entendimento da História não deve deixar de visitar o Yad Vashem. É uma referência mundial no cultivo e transmissão da memória judaica e universal em relação a uma das maiores tragédias humanitárias da História, em que os nazistas exterminaram ⅔ da população judaica da Europa, na execução da chamada “Solução Final, ao longo do curto período de 1942 a 1945 . O Yad Vashem é o centro irradiador da educação sobre o Holocausto, na ideia de provocar consciências para que uma barbárie como aquela jamais se repita em lugar algum, com povo nenhum. Para lideranças de grupos sociais que têm tragédias coletivas em sua História, o Yad Vashem é uma inspiração no sentido da universalidade da importância da memória para fortalecer a fibra de seus povos.

O significado de uma visita ao Yad Vashem é diferente quando o visitante representa ódio, opressão e desvalorização da vida. Netanyahu não tem essa preocupação ao levar Bolsonaro. Para entender a visita de Bolsonaro ao Yad Vashem é preciso entender o uso que Netanyahu faz da memória do Holocausto.

No caso de Bolsonaro, a visita ao Yad Vashem é um ritual macabro, tratando-se de um homem que elogia torturadores, insufla ódio e prega que  as minorias têm que se adaptar à maioria. Netanyahu já causou celeumas em Israel ao levar os presidentes da Hungria, da Polônia e das Filipinas, todos com perfis semelhantes de personagens que utilizam o ódio nas suas linguagens e práticas.

Vale notar, para leitores internacionais, um detalhe especialmente importante: a campanha brasileira lançada semana passada por dezenas de organizações da sociedade civil contra o “pacote anticrime” enviado ao Congresso pelo seu ministro da Justiça Sergio Moro, que revela no pacote o caráter de solução “fake” para a criminalidade, engendrando níveis de violência e desproteção social à população pobre, que podem ser equiparados à falta de garantias à vida de palestinos nos territórios ocupados ilegalmente por Israel.

Netanyahu não é um tonto, e levar esses chefes de estado ao Yad Vashem não é sem motivo. A memória do Holocausto e o antissemitismo são para Netanyahu instrumentos políticos.

Às vésperas das eleições em que pode vencer por margem estreita, para o público interno a imagem do presidente do Brasil aparentando reverenciar o sofrimento judaico conta votos.  Mas não se trata apenas da picuinha imediatista de alguns votos a mais. Bolsonaro é apenas mais um de uma sequência narrativa, em que Netanyahu reescreve a História nos seus próprios termos, sequestrando a memória judaica de forma análoga ao que faz ao destituir palestinos de terras que lhes pertencem.

O Holocausto para ele tem serventia, assim como o antissemitismo. A mentira em que incorre ao levar Bolsonaro ao Yad Vashem é continuação da mentira no que disse após a chacina cometida por um supremacista branco (“fine people” segundo Trump) na sinagoga Tree of Life, de Pittsburgh. A chacina serviu para que Netanyahu apontasse para a esquerda a acusação de promover o antissemitismo. Nenhuma palavra contra os supremacistas inspirados pela xenofobia de Trump.

Ao mostrar reverência pelo Yad Vashem, esses chefes de estado recebem a bênção do “whitewashing”: a foto no Yad Vashem mostra que antissemitas já não são mais, embora isso nada tenha a ver com o ódio a outros grupos sociais, como é o caso na Hungria e na Polônia em relação aos imigrantes e refugiados muçulmanos e africanos, o caso de Trump em relação aos mexicanos, e, óbvio, é o caso de Bolsonaro em relação aos povos indígenas e ao genocídio aos pretos na periferia, e mesmo o genocídio implícito na Reforma da Previdência. Visitar o Yad Vashem tem essa propriedade de lavagem de culpas, até mesmo para governos que continuam usando discurso antissemita. Aliás, Netanyahu os tem ajudado ao pressionar pesquisadores do Holocausto para mudarem a História inocentando a corresponsabilidade desses povos no Holocausto, como é o caso de iniciativas na Hungria e na Polônia.

Semelhante manipulação de sentidos é feita com o antissemitismo. A ideia mestra que Netanyahu promove é que o antissemitismo do século 21 é criticar Israel. E aí se fecha o círculo da operação de deslizamento semântico de transformação de sentido: a visita de um personagem diminuto como Bolsonaro ao Yad Vashem complementa o que Netanyahu tem conseguido ao instituir mundialmente, através de forçar a barra, com apoio dos setores conservadores das comunidades judaicas (como foi o caso no Reino Unido) para a aceitação explícita de uma tal “definição prática” (“working definition”) de antissemitismo promovida através de uma instituição cujo nome sugere seriedade: a IHRA - International Holocaust Remembrance Alliance. Nessa definição operacional de antissemitismo inclui-se como antissemitismo fazer críticas a Israel. Tem servido para pressionar com “lawfare” lideranças políticas como Jeremy Corbyn, e ativistas internacionais da solidariedade palestina, como Roger Waters (Pink Flloyd).

Ou seja, Netanyahu, que todos sabem que não é burro, sabe perfeitamente o que faz. Não é necessariamente o caso das lideranças de comunidades judaicas que pode-se presumir que muitas vezes seguem ingenuamente o seu script . Não creio que seja o caso das lideranças no Brasil que operaram a vinda, o fiasco e, apesar disso, a condecoração agora dos 130 salvavidas israelenses que vieram com as melhores intenções individuais para auxiliar as vítimas de Brumadinho. Serviram de instrumentos para Netanyahu fazer bonito para seus eleitores e fortalecer a narrativa de “bonzinho”, que utiliza para continuar oprimindo o povo palestino impunemente. Muito menos é o caso dos milhares de judeus brasileiros, talvez maioria, que escolheram Bolsonaro com base na ideia fabricada de que é “amigo dos judeus”, ideia que a visita ao Yad Vashem lhes confirmará.

Pode-se ler nessa visita de Bolsonaro ao Yad Vashem esse significado maior: o da fabricação da mentira. E talvez seja essa a principal explicação para a importância de Netanyahu para Bolsonaro. É um passo a mais na formação da internacional do fake, na qual entra em cena mais um personagem, Steve Bannon…

Bolsonaro no Yad Vashem pode ser uma chave valiosa para entender as placas tectônicas da geopolítica mundial, nas quais a parte bélica de Israel, integrada ao America First, tem tanta importância. Não é à toa que o general Heleno está junto, provavelmente com agenda bem mais apertada que Bolsonaro (e porisso será curioso observar se ele também dedicará um tempo ao Yad Vashem, pois o que importa para as eleições no 9 de abril são as fotos do chefe.)

Para quem possa chamar atenção de israelenses e de judeus no Brasil para o insulto à memória de dois brasileiros que figuram entre os “Justos entre as Nações” (“Righteous among the Nations”), os não-judeus que salvaram vidas de judeus no Holocausto, a resposta à presença de Bolsonaro no Yad Vashem pode ser respondida com a lembrança dos diplomatas Aracy Guimarães Rosa e Luiz Martins de Souza Dantas.   e transpondo para o século 21 pela solidariedade ao povo brasileiro que eles certamente clamariam: “Quem matou Marielle? Quem mandou matar?”

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