Nossa luta é contra duas formas de não se ver o futuro
Há mais de um modo de se matar o futuro. O modo bolsonarista é o apego ao passado, à terrivelmente cínica Idade de Ouro em que as crianças trabalhavam. O modo dos jornalões é o terror econômico
Quem lê as manchetes dos tablóides como Veja, Folha, Estado e o Globo percebe que o poder econômico não é contra as fake news, mas sim contra a perda de seu monopólio. Nesse instante, a desinformação programática está nas mãos também de atores econômicos para nós invisíveis, os patrocinadores e propulsores ocultos das redes digitais.
Ambos, contudo, são terroristas. A cruzada de fé, de um lado, contra inimigos imaginários, contra o comunismo e o empenho em transformar a “guerra cultural” em guerra tradicional, armada, toma os meios digitais; de outro, o massacre do futuro operado pelos jornalões, a partir de um falso bom senso econômico. São ambos terroristas, a seu modo. Por quê?
Ensaio uma tentativa, uma aproximação alternativa ao problema, de explicar o que seria essa ação de terror. O terrorismo é o resultado da repressão ao sonho. Aquele que não consegue mais imaginar um futuro político, uma utopia; que não vê meios pelos quais seus sonhos possam se tornar realidade, até o momento em que cessa de sonhar e especular, caminha para o terror. Quem abdica de imaginar o futuro, esse fundamento político, cede ao retorno reprimido do passado, da dor traumática, e seu sonho passa a ser tornar real e concreto o pesadelo. O bolsonarismo é, nesse sentido, o pesadelo brasileiro. O bolsonarismo é o fantasma colonial, o monstro que mora nas fundações, é o Batalhão da Rota da PM de São Paulo comemorando na semana passada sua missão histórica na destruição de Canudos.
O arcabuz, o pelourinho, a roupa encharcada de varíola, o pau-de-arara, o chicote estão esparramados nas fundações podres do Brasil. Ao lado da Folha da Manhã, dos papéis de grilagem, dos éditos e dos códigos legais, dos títulos de posse. O pesadelo, nesse sentido, é a falta de futuro, o eterno retorno do mesmo.
Mas há mais de um modo de se matar o futuro. O modo bolsonarista é o apego ao passado, à terrivelmente cínica Idade de Ouro em que as crianças trabalhavam. O modo dos jornalões é o terror econômico: não há alternativas ao teto de gastos, à responsabilidade fiscal, aos imperativos de mercado. É a ideia que saiu da boca de Bolsonaro na corrida presidencial (única corrida em que alguém esfaqueado corre mais rápido): “É direito ou emprego”, que fez brilhar o desejo no coração da elite. “Não há alternativas”, logo, não há futuro senão o não-futuro.
Estamos, portanto, sendo atacados por duas formas concomitantes de castração utópica. Uma, a volta ao passado verde-amarelo, à violência física toda vez que surja um sonho na rua. Porque a greve, por exemplo, é uma das formas reais da utopia, a concretização momentânea de um mundo sem trabalho. Os partidos políticos de esquerda são formas de articulação concretas da imaginação; utopia que às vezes vaza um conteúdo de ingenuidade que nos lembra de sua matéria, de suas propriedades ainda não reais, como esse estranho símbolo: um panfleto cuja escrita violácea, medicamentosa, sai de um etílico mimeógrafo.
A outra forma de não aceitar a utopia e de matá-la é dar premência a um presente sem alternativa. É o método preferível das elites econômicas atualmente. É esmagar a opinião, cevar uma trupe de economistas, bem remunerados para o único ofício de impedir o trabalho comum da imaginação - é o “ou isso ou nada”.
Em ambos os casos, não há alternativa, não havendo, portanto, futuro. São terroristas, porque o terrorismo é a política a que se proibiu a utopia.
Quem não consegue sonhar acaba por estourar uma bomba ou um tiro nas ruas, para despertar de si mesmo. A impotência utópica resulta em destruição da realidade. Olhe o nosso asfalto, as nossas calçadas, os bancos das nossas praças, os nossos museus, os terrenos baldios, os fios d’água meio perdidos, meio esganados no meio da cidade, os nossos postinhos de saúde, e veja se as fundações de nosso país não são a própria destruição; se isso não é o resultado concreto da falta de sonho. “Ame-o ou deixe-o”, Brasil ufanista, propaganda verde-amarela, jogos olímpicos militares, veja se não são delírios para se impedir o sonho; veja se as colunas da Folha de São Paulo e os editoriais do Estado não tentam por todos os modos lançar pesticida na imaginação, transformando a resignação em sentimento de superioridade (“sei reconhecer que não tem jeito e, por isso, sou melhor que ‘eles’”). As fake news de um são diferentes das fake news do outro: um, para não sonhar, persegue inimigos imaginários, reedita o passado, delira, ataca, se convulsiona de olhos fechados; o outro, para impedir o sonho, repete sem ironia o mantra punk de “no future”, o mantra das reformas, da racionalidade, a canção de ninar que transforma a impotência em desejo de impotência, como se não ter escolhas fosse a mais sensata das escolhas, e termina o telejornal com uma mensagem filantrópica - o vampiro suga o sangue dos vivos para se manter morto; induz-se ao sono sem sonhos e só presente, sem passado, sem futuro.
Essas duas formas de destruição vão brigar pelo monopólio da desinformação. O objetivo, contudo, é o mesmo: extrair o futuro de nossos corações, seja pela ênfase ao falso passado ou ao falso presente. Arrisco dizer que as notícias são falsas porque, primeiramente, a própria realidade o é. Chamam, aliás, nosso sonho de futuro como desejo passadista, a “refundação do Brasil” de Breno Altman de mero terceiro mandato. Ambos convergem em nos deixar restritos a um ambiente em que o futuro é o teto de gastos ou o golpe, a privatização emergencial ou a pauta de voto impresso. Continuar nos fazendo olhar para o asfalto em pedaços e pensar: é essa a realidade. Assistir à absurda, à única boiada que passa em silêncio. Abrir um balcão de negócios, lavar dinheiro dentro dos nossos pesadelos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

