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Pedro Marchioro

Doutor em sociologia, professor e escritor

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Notas para o combate da nova intervenção no Haiti (Parte 1)

Nesse pequeno artigo exponho o que compreendo ser os principais pontos para combater o novo plano de intervenção que avança rumo à concretização

Pessoas deixam suas casas carregando seus pertences para escapar da violência de gangues em Porto Príncipe, enquanto o Haiti continua em estado de emergência (Foto: RALPH TEDY EROL / REUTERS)
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Estamos em 2024 e, mais uma vez, passado apenas seis anos da retirada vergonhosa das tropas da MINUSTAH, discutimos mais uma dentre tantas e fracassadas intervenções no Haiti. Para nascer, o Haiti teve de quebrar a casca das intervenções estrangeiras. Porém, para não morrer de fome, teve de aceitá-las novamente. Só entre 1993 e 2013 foram sete, todas com resultados fracassados, destrutivos. Nesse pequeno artigo exponho o que compreendo ser os principais pontos para combater o novo plano de intervenção que avança rumo à concretização. 

Comecemos pelas perguntas básicas: porquê, onde e como? Segundo autoridades dos EUA e agora do Quênia, junto ao recém ex-presidente Ariel Henry, bandos armados estariam ameaçando a estabilidade no Haiti, haveria necessidade de enviar tropas militares para os combater e estabilizar a região. Os mesmos atores, abastecidos do Conselho de Segurança da ONU, expressam “profunda preocupação” ao que definiram como “atos abomináveis”, referindo-se aos “ataques levados a cabo por grupos armados nas principais prisões haitianas, que permitiram a fuga de milhares de prisioneiros”, que fariam “ameaças inaceitáveis de violência seletiva contra a polícia e membros do governo”. Afirmam também que a Policia Nacional Haitiana (PNH) não teria forças suficientes para combater os novos bandos, já que, outro motivo da intervenção, esses bandos estariam se valendo de novos armamentos mais sofisticados e de maior mortalidade. Somemos aí a conversa de sempre: o Estado haitiano é incapaz de resolver o quadro de instituições falidas, seu corpo social arrasado e a insurgência de grupos e bandos...

Há pelo menos duas linhas para construirmos nossa rejeição a qualquer nova intervenção externa travestida em novas maquiagens: primeiro, a dubiedade ou mesmo ilegalidade dessas intervenções; segundo, a historicidade das intervenções e suas razões, as sequenciadas inventivas dessa natureza e suas sequenciadas consequências catastróficas.

Primeiro, o instrumento de intervenção externa em outro país não se faz (segundo o Direito Internacional que, para nós do sul Global, jamais pode ser levado a sério) conforme o capricho ou incômodo de um ou outro país em paricular. A ONU tenta regular tais práticas desde a sua criação. Atualmente, para legitimar essas práticas, aciona-se o capítulo VII de sua Carta junto à algumas  Resoluções de seu Conselho. Grosso modo, estes dispositivos só liberam a intervenção militar sob duas razões: devido à grave ameaça à estabilidade ou paz internacional, ou grave violação dos direitos humanos, como perseguição a determinado grupo étnico, religioso, minorias, etc. Ilustra tais preceitos a operação Provide Comfort, de 1991, em que tropas norte-americanas, inglesas e francesas vieram em socorro à população Curda perseguida por forças iraquianas.

Ora, aos minimamente atentos, não é difícil avaliar como, nos últimos grandes conflitos intraregionais eclodidos no mundo, essas medidas foram parcial ou totalmente desprezadas, revelando o desinteresse da maioria dos membros do Conselho de Segurança da ONU em neles imiscuir-se ou, ao contrário, o interesse direto em administrá-los conforme suas vantagens. Casos desinteressantes porém de mortandades recordes como em Ruanda em 1994, República do Congo em 1996 e Serra Leoa em 1990, dentre outros perfeitamente cabíveis naqueles critérios. Para não falar da omissão total em relação aos genocídios deliberados, recentes ou em curso, como o praticado contra os iemenitas pela alegre coligação entre Arábia Saudita, EUA e Grã-Bretanha; contra os Yanomamis no Brasil de Bolsonaro; e na Palestina pelo estado sionista de Israel, cuja barbárie e crueldade teremos de inventar novo instrumentos para medir. Dentre muitos outros.

Pois no Haiti em nenhuma das intervenções existiam ou estavam claros os motivos para intervenção. Assim mesmo, e portanto violando as normas internacionais, somente entre 1993 a 2013 foram nada menos do que sete delas. Na última dessas aventuras, a MINUSTAH, inciada em 2006, sustentou-se na alegação de que, devido à instabilidade social, econômica e política, o Haiti produziria elementos nocivos à paz internacional. E quais elementos eram esses? Os boat peoples, isso mesmo, aquelas dezenas ou centenas de desesperados que se jogavam ao mar em boias e barcos improvisados esperando bater nas praias da Flórida. Para se ter uma ideia, no pico dos boat peoples, entre 1977 a 1981, ainda no amigável regime dos Duvaliers, e portanto quando esse ainda não era o motivo de intervenções, estima-se que entre 50 a 70 mil haitianos jogaram-se desse modo ao mar e que 72% foram interceptados e deportados ao seu país. 

Na segunda linha de combate à intervenção, abrimos os acontecimentos congêneres ocorridos na história. Em meu último artigo aqui no 247 relembrei as primeiras e mais célebres das intervenções em um Haiti que já tinha vencido a revolução impossível e agora buscava sua independência. Para ganhar existência, ou comprar seu direito à vida, a primeira república a abolir a escravidão em um mundo racial escravocrata teve de aceitar sua primeira intervenção ocidental em 1825, tendo a França à cabeça da coalisão entusiasmada com os Estados Unidos, Inglaterra e Espanha. Na ocasião afirmei: “não é preciso dizer que esse reconhecimento foi obtido mediante um acordo em que, de um lado estava um Haiti devastado pelas 3 décadas de guerras e destruição, e de outro os 14 navios de guerra franceses com seus 528 canhões com ordem de por fogo na ilha. O Estado haitiano estava obrigado a pagar uma indenização de 150 milhões de francos [22 bilhões de euros atuais]. O plano de pagamento da dívida se deu sobre o aumento de impostos que recaiu sobre os camponeses, os primeiros a migrar após a Independência”.

Essa foi sua primeira intervenção moderna de grande porte e longuíssimo tempo (a dívida só terminou em 1950). Penso que estamos de acordo, caro leitor, quanto ao significado real das intervenções externas não serem somente as “humanitárias” que trazem o selo azul da ONU; que concordamos quanto à sua natureza estruturalmente dependente daquilo que Lênin chamou a fase superior do capital monopolista. Sendo assim, é difícil contabilizá-las se pensarmos que no Haiti foram incessantes os conflitos civis, ditaduras e colapsos, e que todo o ocidente, sob a espada de Washington, teve um dedo ou um braço na participação desses eventos. Por exemplo, no sinistro regime Duvalier, de 1957 a 1986, se Washington não necessariamente amou essa figura nas três décadas em que Papa e Baby Doc dominaram o país, defendeu-os com unhas e dentes devido ao temor maior de que os ventos revolucionários cubanos, latino americanos e soviéticos, despertassem a fibra rebelde da ilha. 

Depois disso foram pelo menos mais 4 golpes de Estado: dois em 1988, um em 1991 e outro em 2004 contra Aristide, outro em 2012 contra René Preval e seu candidato Jule Celestin - que conseguiu o feito inédito de ir do primeiro lugar nas prévias eleitorais a desclassificação para o segundo turno, em que venceu Maichel Martelly, um cantor e humorista e, principalmente, candidato da OEA. E o mais recente golpe/intervenção: o assassinato de Jovenel Moïse, em circunstâncias que ainda precisam ser aclaradas mas que já confirmaram haver digitais estrangeiras. Este último nos trouxe à recente demissão de Ariel Henry, cada vez mais suspeito de estar entre os conspiradores da morte do ex-presidente e que desde os últimos meses de 2023 vem lutando para obter uma nova intervenção em seu país. 

Acrescento mais dois golpes não diretamente políticos, mas que motivaram pesadas intervenção e mais golpes: primeiro a sabotagem constante aos programas de ajuda de Cuba, enviando médicos, professores e recursos humanos aos recônditos do Haiti; e o segundo as sabotagens dos acordos em torno do Petrocaribe, programa encabeçado pela Venezuela de Hugo Chaves e levado adiante num esforço hercúleo por Nicolás Maduro. O programa visa transacionar o petróleo a preços irrisórios, com taxas de 1% a serem pagas em 25 anos, como meio de eliminar a interferência das companhias internacionais e fomentar a autonomia energética e o desenvolvimento econômico entre os mais 18 estados membros do Caribe e América Latina. Aí vemos os porquês dos faniquitos do Tio Sam: entre 2012 e 2013, em meio ao bloqueio ao poder público haitiano promovido pelo tal Grupo de Amigos do Haiti - outra comédia ocidental -, os recursos disponibilizados pelo Petrocaribe representavam mais de 94% da capacidade de investimento do Estado haitiano! Aí faltou carniça pro bico do velho.

Todos esses golpes/intervenções não só contribuíram para a instabilidade e caos que são utilizados como pretexto para novas intervenções, como se tornaram um fim em si mesmo. Como dito noutro artigo, no Haiti não há crises (sociopolíticas econômicas), ali a crise tornou-se o Estado normal, regular, estrutural a ser administrado, a ser preservado para a sobrevivência das milhares de ONGs que fazem do Haiti a República das ONGS, das igrejas neopentecostais dos Estados Unidos e, agora, do Brasil, do turismo do terror (helicópteros e veículos blindados que fazem bate-volta com turistas entediados ou tarados), do mercado das armas e da bilionária lavagem de dinheiro que ocorre por meio de todas essas instituições e mesmo dos Estados norte-americanos (EUA e Canadá), francês, inglês e outros esporádicos como Jamaica, República Dominicana, Colômbia e agora, provavelmente, o Quênia.

Continuo na Parte 2.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.