Notícias insignificantes desviam a atenção da necessidade de centrar-se numa tarefa mais à frente

Pelo nível de seus membros, o comportamento errático deste governo não é surpresa. Em lugar de indignação ou irritação, produz simplesmente melancolia, diante de um ocaso que chega antecipado. A decisão das urnas encaminhou infelizmente nessa direção

Notícias insignificantes desviam a atenção da necessidade de centrar-se numa tarefa mais à frente
Notícias insignificantes desviam a atenção da necessidade de centrar-se numa tarefa mais à frente
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

As mídias têm trazido uma avalanche de informações-fofocas sobre um governo que se esvai em sua própria incompetência e desnorteio. Vídeos mostram à saciedade diálogos patéticos e sem importância alguma. Eles são reproduzidos por muitos que perdem seu tempo e entopem desnecessariamente WhatsApps. Assim a atenção é desviada do essencial.

Pelo nível de seus membros, o comportamento errático deste governo não é surpresa. Em lugar de indignação ou irritação, produz simplesmente melancolia, diante de um ocaso que chega antecipado. A decisão das urnas encaminhou infelizmente nessa direção.

Além disso, denunciar um possível golpe já em curso e a ação direta de uma junta na sombra, por mais verossímil que possa parecer, pode deixar-nos despreparados diante de uma ação mais grave adiante, com aparência de legalidade formal, como em golpes anteriores. Lembro do que meu avô contava, a partir de sua experiência numa aldeia espanhola. Cada vez que havia um movimento suspeito nas montanhas circundantes, um jovem clamava aflito para defender-se da chegada de lobos. À força de repetir o alerta, este passou a não preocupar os aldeões. E quando o lobo realmente chegou, encontrou a comunidade desprevenida.

De todo esse monturo de informações aparentemente menores, há que garimpar somente algumas que podem ser relevantes. O governo tenta desviar a atenção de suas fragilidades fingindo que agora, com a apresentação de medidas ao congresso, começa realmente a governar. Analistas a serviço da situação, que se sentiam "desconfortáveis" (termo muito empregado por um deles), saúdam as medidas apresentadas.

A primeira, do inefável Moro, curiosamente desvincula os crimes do caixa dois (pedra no sapato do governo), do conjunto de medidas propostas. Vale comparar o ministro com o juiz que foi. Disse o juiz: o caixa dois "é uma trapaça, um atentado à democracia. E "é pior do que a corrupção praticada para benefício próprio." Era uma espinha dorsal da lava-jato. Fala o ministro: "é um crime grave, mas não tem a mesma gravidade da corrupção, crime organizado e crimes violentos"... Um texto de Luiz Eduardo Soares, que ajudei a difundir, desmonta a medida apresentada.

Na segunda proposta, o presidente faz um mea culpa sobre sua atuação no passado. O que aparentemente pareceria uma prova de honestidade e transparência, poderia sinalizar uma bússola movendo-se ao sabor das circunstâncias e de decisões de seu ministro da economia. As primeiras críticas apontam, na lógica neoliberal de Paulo Guedes, o massacre dos trabalhadores, levando ao aumento das desigualdades sociais. Neste caso, não bastaria denunciar o projeto governamental, mas começar a desenhar uma alternativa na frente.

É, pois, o momento de centrar-nos na construção do futuro. Volto ao que tenho repetido e que tem sido sinalizado por um número cada vez maior de analistas: a construção de uma Frente Nacional, Popular e Democrática.

Há indícios promissores nessa direção. No legislativo, a indicação de Alessandro Molon, do PSB, como líder da oposição (encontra do outro lado lideranças despreparadas) é um bom resultado dessa união.

Mas é na sociedade onde a aliança deve ser costurada. Um sinal significativo. Ativistas, intelectuais e jornalistas lançaram em São Paulo uma Comissão em de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, que vai de debruçar-se sobre casos graves de violações aos direitos humano contra pessoas e comunidades. O interessante é a constituição ampla da comissão. Presidida por Paulo Sérgio Pinheiro, participam personalidades de relevo como Fabio Konder Comparato e também Luiz Carlos Bresser Pereira e Luiz Felipe Alencastro, ao lado de lideranças de esquerda como Paulo Vannuchi. Direitos humanos é tema crucial num momento em que se quer minimizar sua importância.

Ao nível internacional (a crise é global, palavra anátema em certas esferas), nos Estados Unidos Bernie Sanders, à esquerda dos liberais democratas, acaba de lançar sua candidatura à presidência. Yanis Varoufakis, o ex-ministro de Syriza na Grécia, vem tentando uma coordenação ao nível europeu. Ambos, com a presença de Fernando Haddad, lançaram em Nova Iorque, dia primeiro de dezembro de 2018, a proposta de uma Articulação Progressista em Defesa da Democracia. A pouca repercussão interna nos partidos à esquerda mostra, entretanto, entre nós, desatenção por iniciativas inovadoras.

Num momento de preocupante refluxo de governos progressistas, há que seguir com atenção a Frente Ampla desde alguns anos no Uruguai, a "geringonça" em Portugal, como uma aliança de esquerdas e, agora, o governo de López Obrador no México. Uma nota de desalento: na Espanha haverá logo eleições gerais. "Podemos", recebido com tantas esperanças, divide-se e chegará enfraquecido nas urnas. Que terrível a capacidade de divisão das esquerdas!

Num prazo curto, diante da tentativa de desmonte social e econômico à vista, seria talvez importante desenhar medidas preventivas e, logo, restauradoras. A expectativa parece ser que este governo não se sustente, esgotando-se mais rápido do que Jânio ou Collor. Nesse caso, qual a alternativa ao nível do poder político? O governo acaba de ser derrotado quando a Câmara, por grande maioria, derrubou o decreto presidencial que ampliava perigosamente o poder de sigilo sobre informações públicas. Só teve o apoio de um PSL inorgânico (seu presidente votou contra, talvez por engano). Não deveríamos ficar apenas à mercê das manobras sorrateiras de Rodrigo Maia. João Dória e o próprio Moro estão à espreita, no caso de uma crise terminal. Não parece, à primeira vista, que o general Hamilton Mourão, nesse caso, consiga manter-se. Haverá uma alternativa progressista no curto prazo? Pouco provável. Pelo menos há que preparar, então, uma ação consistente mais adiante.

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247