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Carlos Lima

Economista, empregado da CAIXA, dirigente sindical da CTB-RJ e do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e Organizador do Núcleo do RJ do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (CES)

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Novo governo assume sob o peso da crise social e terá de romper com o legado de omissão no Rio de Janeiro

Após anos de arrocho, queda da renda e paralisia do Piso Estadual, o governo tem a responsabilidade de reverter a deterioração econômica e social no estado

Desembargador Ricardo Couto de Castro, governador interino do Rio de Janeiro (Foto: Bruno Dantas/ TJRJ)

O Rio de Janeiro não chega a 2026 por acaso nesse estado de coisas. A crise social, a perda de renda e o enfraquecimento da economia não são fenômenos naturais — são o resultado direto de escolhas políticas feitas ao longo dos últimos anos. A saída de Cláudio Castro encerra um ciclo marcado por omissões graves, enquanto o governo interino, sob o comando do desembargador Ricardo Couto de Castro, assume com a responsabilidade histórica de interromper essa trajetória de deterioração.

O dado mais evidente dessa política de abandono é o congelamento do Piso Estadual de Salários desde 2019. Durante quase duas décadas, o Rio manteve uma política regular de valorização salarial que protegia trabalhadores sem negociação coletiva e ajudava a sustentar o mercado interno. Essa política foi simplesmente interrompida. Não por impossibilidade, mas por decisão.

O resultado é brutal. Com inflação acumulada superior a 40% nesse período, segundo o DIEESE, milhões de trabalhadores perderam poder de compra. Isso significa menos comida na mesa, menos consumo, menos circulação de renda. O impacto se espalhou por toda a economia: o comércio retraiu, os serviços perderam dinamismo, pequenos negócios foram estrangulados. O Rio passou a viver um processo de empobrecimento estrutural.

Mas o problema não se resume ao Piso Estadual. Ele é apenas a expressão mais visível de um modelo de gestão que fracassou. Ao longo do período recente, consolidou-se um ambiente político marcado por denúncias recorrentes de aparelhamento da máquina pública, relações profundamente questionadas no interior da Assembleia Legislativa e a exposição constante, pela imprensa, de conexões entre setores da política e práticas ilegais e criminosas. Trata-se de um cenário que compromete a confiança institucional e afasta qualquer projeto sério de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, o estado assistiu à completa ausência de uma política estruturada de desenvolvimento, trabalho e renda. Não houve estratégia para reindustrialização, nem para fortalecimento do mercado interno, tampouco para geração de emprego de qualidade. O que se viu foi a substituição de políticas estruturantes por medidas fragmentadas e de curto prazo, incapazes de enfrentar os problemas reais da economia fluminense.

A consequência está posta: queda da renda, aumento da precarização, expansão da informalidade e aprofundamento das desigualdades regionais. O Rio de Janeiro tornou-se um estado mais pobre, mais desigual e mais vulnerável.

E isso não pode ser naturalizado. O mais grave é que, mesmo diante desse quadro, uma parte da solução já está formulada — e foi ignorada. Em 2025, o Conselho Estadual de Emprego, Trabalho e Renda do RJ (CETER-RJ) aprovou uma proposta concreta para o Piso Estadual de 2026, construída com base na realidade das negociações coletivas. Trata-se de uma proposta tecnicamente sólida, sem impacto direto nas contas públicas e com potencial de reativar a economia pela base. Ainda assim, permanece parada no Executivo.

É aqui que entra o papel decisivo do governo interino. Ricardo Couto de Castro não assume apenas uma função administrativa, mas uma encruzilhada política: pode manter a inércia herdada — e aprofundar a crise — ou pode romper com o ciclo de omissão e recolocar o Estado do Rio de Janeiro no caminho da valorização do trabalho e da reconstrução econômica.

A atualização do Piso Estadual é um primeiro teste concreto dessa escolha. Não resolve todos os problemas, mas sinaliza direção. É uma medida de efeito imediato, capaz de recompor renda, estimular o consumo e devolver algum dinamismo à economia real.

Mais do que isso, trata-se de um gesto político: um gesto de que o Estado volta a cumprir seu papel, de que o trabalho volta a ser valorizado e de que o Rio de Janeiro não aceitará mais a naturalização da pobreza. Porque, no fim das contas, sem renda não há economia — e, sem economia com justiça social, não há futuro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.