Num país que quer amparo na velhice, Onyx fala em banho de sangue

"Numa referência indireta ao regime de capitalização implantado no Chile pela ditadura de Pinochet, na véspera do protesto nacional contra a reforma da Previdência Onyx Lorenzoni disse que 'o Chile teve de dar um banho de sangue", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "Digna de um pedido de explicações por parte do Congresso de um país onde a democracia é cláusula pétrea, a reforma da Previdência é uma exigência do sistema financeiro mas é rejeitada mesmo pelos militares, que recusam a mudança quando ela se aproxima de seus bolsos". 

Num país que quer amparo na velhice, Onyx fala em banho de sangue
Num país que quer amparo na velhice, Onyx fala em banho de sangue

Numa reação reveladora sobre o grau de desorientação que atinge o governo Bolsonaro quando o assunto é reforma da Previdência, o ministro Onyx Lorenzoni chegou a ameaçar os brasileiros, ontem, com uma comparação indecente. 

Referindo-se às bases da economia chilena, país pioneiro na implantação do regime de capitalização individual de aposentadorias que está no coração da proposta Guedes-Bolsonaro, o ministro disse: "No período de Pinochet, o Chile teve de dar um banho de sangue. Triste, o sangue lavou as ruas do Chile..."

Inaceitável em qualquer época,  digna de um pedido de explicações por parte do Congresso de um país onde a democracia é cláusula pétrea, a referência do ministro foi feita na véspera da primeira mobilização -- pacifica, obviamente -- de sindicatos e entidades populares para barrar reforma da Previdência que Bolsonaro-Guedes querem implantar no país com apoio do sistema financeiro e do grande empresariados.  

São protestos que não devem ser enfrentados com ameaças. Afinal, nem os militares, que ocupam papel essencial na sustentação cotidiana do governo Bolsonaro, defendem a reforma quando ela se aproxima dos próprios bolsos.

Anunciada como a prova de que os sacrifícios seriam repartidos entre todos, a reforma na previdência dos militares -- que usufruem do mais caro sistema de aposentadorias do setor público -- acaba de ser divulgada. Revelou-se uma proposta pífia.

Enquanto o conjunto dos brasileiros e brasileiras estão sendo chamados a apertar os cintos para economizar 1 trilhão em dez anos, a economia do setor militar ficará em R$ 10,4 bilhões, ou 1% do total a ser economizado pelo país inteiro.   

Objetivo estratégico do projeto Guedes Bolsonaro, a criação de um sistema de capitalização privada em vigor no Chile é um fiasco no mundo inteiro -- e será um desastre particularmente doloroso num país como o Brasil. Os empresários terão direito a uma vantagem enorme. Se hoje eles são obrigados por lei a colaborar com a aposentadoria dos funcionários que têm carteira assinada, entregando 2 reais para cada real depositado pelo empregado, pelo sistema de capitalização a aposentadoria se torna um problema exclusivo do trabalhador.

Imagine-se o que irá acontecer, no Brasil, país onde 63% da população diz que já não tem renda suficiente para sobreviver, 33% se consideram muito endividados e só 13% poupam com regularidade.

A partir das novas regras, que instituem a idade mínima para homens e mulheres, elevam o tempo de contribuição, e mudam as bases de cálculo para baixo, o resultado prático será fazer o povo trabalhar mais e pagar mais -- para receber menos. Os pobres ficarão mais pobres, os miseráveis descerão a outro patamar de indigência.

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