Números das pesquisas oscilam, mas Lula não se abala, faz aquecimento
O presidente não teme os números das pesquisas, onde uma hora aparece empatado, noutra ultrapassa a ponto se avaliar que pode vencer no primeiro turno
As oscilações das pesquisas, se não preocupam o presidente Lula, servem para colocá-lo cada vez mais envolvido com a disputa eleitoral de outubro, quando concorrerá ao seu quarto mandato. Em entrevista, hoje (14/04/2026), ao Brasil 247, à Revista Fórum e ao DCM, Lula marcou posição e o que se viu foi um candidato indignado, mobilizado e, sim, irritado com uma guerra que se mostrou suja nos primeiros passos dessa estrada, que ele vai percorrer até as urnas.
Não só. Outro ponto que ele tem trazido às suas falas, com indignação, é o das “bets”, que suga para a “jogatina” - jeito como costuma se referir às apostas em jogos eletrônicos viciantes -, não só os jovens, como os pais de família que não sabem explicar em casa onde vai parar o salário no final do mês. Quietos, se endividam e levam junto para as privações, a família.
Cuidadoso, Lula sabe que na sua pauta contra o endividamento terá que colocar esse item em discussão, mas tem consciência também de que esse é um tema espinhoso, que envolve grandes conglomerados de mídia, empresários poderosos, jogadores famosos, times de futebol e outros segmentos que podem abalar os alicerces de sua candidatura. Terá que enfrentá-lo, mas com o cuidado de quem limpa uma cristaleira.
Para não dizer que não fala aos jovens – para os quais não tem ainda um discurso pronto, porque o mundo da política mudou, a linguagem para chegar neles é outra e a naturalização de crimes e desmandos durante o governo anterior resultou nessa massaroca que temos visto nas redes -, Lula se volta para exaltar a educação e acenar para os que, mais pobres, enfrentam o mercado cruel das empresas de entregas. Quer cuidá-los, amenizar um pouco a crueza do cotidiano dos que levam na garupa o que não comem, sem ter nem sequer onde parar para um xixi ou para carregar o celular, o seu instrumento de trabalho.
Lula demonstrou na conversa que ter no seu calcanhar a nulidade de um Flávio Bolsonaro, com um histórico que está mais para folha corrida do que para currículo de candidato, o faz corar e falar com a veemência que usava em seus palanques de campanha. Demonstrou, ainda, uma certa impaciência, a de quem vê o concorrente nadar de braçada numa campanha antecipada, às vistas grossas de quem deveria cuidar, enquanto ele, se erguer o braço, já será cancelado e acusado de ultrapassagem proibida.
Não há nos desvalidos que ele beneficiou, nenhum reconhecimento. “Não fez mais do que a obrigação”, parecem dizer, numa época em que as redes e as igrejas neopentecostais ditam as regras na política. Dá mostras de que está doido para entrar em campo, voltar para as ruas e enfrentar a concorrência no seu velho estilo. Mas, até lá, vai ter que avaliar se seu estilo está mesmo velho. Se o tal “olho no olho”, de que tanto fala, ainda resulta na faísca que hipnotiza o eleitor e o arrasta para apertar o 13. Isso é trabalho para a sua equipe. O que Lula quer mesmo é entrar logo no jogo.
Os números, ainda que não confesse, o preocupam. Certamente que o preocupam. Basta lembrar que nesse mês, o de abril de 2022, o cenário eleitoral mostrava Jair Bolsonaro em segundo lugar, tentando reduzir a vantagem sobre ele, que liderava as pesquisas de intenção de voto. Não é possível que a vantagem, ainda que por uma margem mínima, do opositor, não mexa com os seus nervos.
Àquela atura, em 2022, a pesquisa Quaest (divulgada em 07/04/2022), no principal cenário de primeiro turno, mostrava Lula liderando e Bolsonaro na luta, com crescimento em relação aos meses anteriores (29%), mas apenas aproximando-se da casa dos 30%, enquanto Lula tinha 44%.
Sergio Moro (União Brasil), o que foi sem nunca ter sido, patinava em 6%, e Ciro Gomes (PDT) apresentava magros 5%. Aquele mês, (abril de 2022), porém, foi definidor para que se instalasse, de vez, a tal da polarização. Naquele momento, as pesquisas indicavam recuperação de Bolsonaro, com uma tendência de subida gradual, impulsionada pela saída de Moro da disputa presidencial (o que ocorreu no final de março) e pela melhora em alguns indicadores de percepção econômica, por puro empuxo natural, pós pandemia.
Apesar da subida de Bolsonaro, Lula mantinha uma liderança sólida, vencendo em todos os cenários de segundo turno projetados pelos institutos (com margens que variavam entre 15 e 20 pontos de vantagem) naquele cenário. A tal da terceira via nunca vingou, como também agora não emplaca, deixando patinar candidatos como Ciro Gomes e João Doria, que enfrentavam dificuldades para romper a barreira dos dois dígitos. Somavam, então, menos do que os dois líderes isolados, ainda que seja preciso destacar que, naquele período, as coligações ainda estavam sendo fechadas, o que trazia variações dependendo da lista de candidatos apresentada por instituto.
Lula demonstrou na entrevista, não ter ainda um discurso pronto e acabado para a classe média. Essa mesma, endividada no cartão de crédito, nas páginas digitais da Shein, da Temu e outras pragas, que levam todo o dinheiro das famílias.
Enquanto o vício dos homens são os tigrinhos, as bets, as mulheres se afogam em promoções de blusas, bolsas e calçados nos sites de compras pela internet. Lula, como descreveu, sabe onde aperta os sapatos da classe média, adquiridos via online.
Percebe as mudanças rapidamente, mas ainda persegue a solução. Enquanto pensa e intui, com a rapidez dos que apertam a tecla dos celulares, pula para assuntos onde se sente confortável, sem deixar pergunta sem resposta, mas com mais segurança ao falar dos institutos e faculdades que implantou e ainda sonha implantar. Acena para os jovens com o futuro no conhecimento.
Vai dar tratos à bola para buscar saída fora do empenho do FGTS dos trabalhadores nessa conta. Haverá de apresentar uma solução para que essa classe, onde sobram votos ainda indefinidos, perceba que além do aumento de suas dívidas no consignado, o governo conseguiu segurar o dólar, que caiu abaixo de cinco reais, elevar a movimentação da bolsa de valores e a oferta de emprego.
O difícil é traduzir para o povo que quando esses índices vão bem, a vida melhora. Ainda que a inflação ande pulando a cerca do teto da meta. Lula aguarda no aquecimento a hora de explicar, com a sua linguagem clara, o que é fascismo, o que é defasagem salarial, e por que, afinal, o que é dito lá fora, reverbera aqui, e sacode o preço da gasolina.
O presidente não teme os números das pesquisas, onde uma hora aparece empatado, noutra ultrapassa a ponto se avaliar que pode vencer no primeiro turno. Não se abala. Teme, isto sim, as fake News. E vai para o enfrentamento, a julgar pelo puxão de orelhas que já deu nos produtores de falsos Powerpoints, na TV.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



