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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Nunca foi sobre corrupção

A eleição de 2026 poderá consolidar uma conclusão incômoda para quem acreditou que a polarização brasileira era movida essencialmente pelo combate à corrupção

Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
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Se a pesquisa BTG/Nexus*, divulgada nesta segunda-feira, retratar corretamente o momento eleitoral, ela oferece um dado que vai muito além da disputa presidencial. No cenário principal do primeiro turno, o presidente Lula aparece com 42% das intenções de voto, contra 34% de Flávio Bolsonaro. Em um eventual segundo turno, Lula registra 47% e Flávio, 44%, resultado que configura empate técnico dentro da margem de erro.

Os números chamam a atenção porque surgem em um contexto de intensa exposição negativa do filho de Bolsonaro. Áudios do próprio senador pedindo milhões de reais ao banqueiro Daniel Vorcaro que o colocam no centro do escândalo “BolsoMaster”. Ainda assim, o impacto eleitoral parece limitado.

É justamente aí que reside um dos aspectos mais reveladores da pesquisa. Se os números permanecem estáveis mesmo diante desse contexto, torna-se difícil sustentar que o núcleo do eleitorado bolsonarista tenha construído sua identidade política tendo a corrupção como principal fator de mobilização.

Durante anos, o discurso da extrema-direita brasileira procurou apresentar o combate à corrupção como sua razão de existir. No entanto, quando denúncias atingem lideranças desse mesmo campo, a reação de seus líderes e de parcela significativa de seus apoiadores parece demonstrar que esse nunca foi o verdadeiro elemento estruturante de sua escolha política.

O que move esse eleitorado parece estar em outro lugar. A política brasileira passou a ser organizada, em grande medida, por uma guerra cultural cuidadosamente alimentada ao longo de anos. Nela, temas morais, ressentimentos, preconceitos de classe, antagonismos sociais, xenofobia e uma lógica permanente de “nós contra eles” ocupam espaço muito maior do que debates sobre integridade administrativa ou qualidade da gestão pública.

Sob essa perspectiva, denúncias deixam de importar quando atingem “os seus”. Elas passam a ser interpretadas como perseguição, manipulação ou consequência inevitável da disputa política. A régua moral deixa de ser universal para se tornar seletiva.

Esse fenômeno ajuda a explicar por que episódios potencialmente desgastantes nem sempre produzem grandes mudanças nas pesquisas. O pertencimento ao grupo político pesa mais do que os fatos isolados.

Faltando pouco menos de cem dias para o primeiro turno, o desenho continua muito semelhante ao que venho apontando há bastante tempo: uma disputa extremamente apertada, decidida por pequena margem.

Pesquisas não elegem presidentes. Elas fotografam um momento. E ainda haverá campanha, debates, fatos novos e movimentos capazes de alterar o cenário. Mas, se a fotografia atual estiver captando corretamente a dinâmica da disputa, a tendência continua sendo a de uma eleição polarizada até o último voto.

Nesse ambiente, a vantagem de Lula no segundo turno dependerá da rejeição ao adversário, da percepção, por parte do eleitorado de centro e os hoje indecisos, de que Lula representa uma opção de estabilidade institucional e de um futuro seguro para o país. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro simboliza tempos de incertezas e instabilidades. E o alinhamento do bolsonarismo com Trump reforça essa imagem, permitindo que seja explorada como um fator de risco à autonomia da política externa e aos interesses nacionais.

Se essa leitura estiver correta, a eleição de 2026 poderá consolidar uma conclusão incômoda para quem acreditou que a polarização brasileira era movida essencialmente pelo combate à corrupção: talvez nunca tenha sido sobre isso.

  • Pesquisa registrada no TSE sob o número BR-08521/2026, realizada entre os dias 26 e 28 de junho com 2009 eleitores, margem de erro de 2pp e nível de confiança de 95%

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.