Nunca me sonharam

Assistindo ao documentário Nunca me sonharam, produzido por Maria Farinha Filmes e dirigido por Cacau Rhoden, patrocinado pelo Instituto Unibanco, tendo participação de instituições como Instituto Airton Senna, me peguei pensando sobre a meritocracia

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Assistindo ao documentário Nunca me sonharam, produzido por Maria Farinha Filmes e dirigido por Cacau Rhoden, patrocinado pelo Instituto Unibanco, tendo participação de instituições como Instituto Airton Senna, me peguei pensando sobre a meritocracia. Não é de hoje que as juventudes das classes populares são vistas como juventudes problemáticas e que seus sonhos são normalmente apagados antes mesmo de tomarem forma. Essas juventudes rompem cedo a barreira da adolescência para a vida adulta, entram no mercado de trabalho precocemente e poucas vezes têm acesso ao Ensino Superior. 

O documentário apresenta jovens pobres, de uma cidade pobre, estudantes de uma escola pública com estrutura precária. Esses jovens trazem em seu discurso os sonhos de uma “vida melhor”. Entretanto, cabe observar que esses sonhos estão todos relacionados a um futuro profissional que lhes possibilite adquirir condições financeiras para assim serem felizes; com destaque para o mérito pessoal e para a superação de obstáculos num modelo meritocrático de sociedade. Pode se perceber que o foco se dá no interesse e nos objetivos individuais de “ser alguém na vida”. 

A educação é colocada como a “chave” para a realização dos sonhos desses jovens, mas apenas uma educação que os leve para o Ensino Superior, não uma educação crítica e problematizadora que os faça pensar sobre suas realidades e sobre o sistema econômico que provoca, ou mesmo produz, essas desigualdades. Há, pelo contrário, uma defesa da educação para obter resultados palpáveis e quantificáveis. Resultados que possam ser aferidos em avaliações finais ou nacionais, visando na maioria das vezes a empregabilidade ou o mundo do Ensino Superior. Em nenhum momento o foco é a transformação social e sim – e apenas – a transformação individual e o futuro promissor que os aguarda caso se esforcem e sejam passivos e pacatos diante das desigualdades. A desigualdade não é contestada; esses jovens são ensinados a superar a desigualdade em nível individual e a “correr atrás” do sonho de ser bem-sucedido profissional e economicamente. 

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E ao que podemos observar, o discurso da meritocracia foi comprado e o discurso do sonho de ser bem-sucedido do mesmo modo. Todos e todas demonstram sonhar com esse futuro promissor e mágico onde haverá conforto e bens materiais ao alcance da mão. Não é debatido o porquê desses jovens sonharem em ser como os jovens das classes médias ou altas, o porquê dos seus sonhos serem o de ser como um jovem da classe média ou alta. Muito menos se discutem as próprias existências de classes sociais que os diferenciem desses jovens.

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A meritocracia defende a ideia de que as oportunidades são as mesmas para os jovens de classe média e alta e os das classes populares, e que as condições anteriores à chegada no processo seletivo de mérito não importam nessa disputa. Podemos perceber que a “felicidade” está vinculada ao econômico, para eles a felicidade virá quando estes conseguirem ter dinheiro e condições profissionais que lhes propiciem conforto e bens materiais. 

Entretanto é sabido que a meritocracia privilegia e auxilia os jovens das classes média e alta, em detrimento aos das classes populares. Os jovens das classes populares podem ter acesso às mesmas oportunidades, porém os caminhos percorridos até ali são muito distintos. O acesso à uma educação de qualidade, à cultura, ao lazer, a não necessidade de ir precocemente para o mercado de trabalho, dentre tantas outras diferenças existentes entre os jovens das classes média e alta e os jovens das classes populares, são só alguns exemplos de como o caminho percorrido até o “processo seletivo do mérito” são distintos e até mesmo contrários. 

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Vivemos em um tempo que está em voga romantizar a pobreza e a miséria. E por romantizar entende-se o fato de darem mérito a atitudes de superação realizadas por pessoas que pertencem às camadas populares. Ao invés de questionarem as desigualdades sociais e econômicas da sociedade, dão mérito a atitudes individuais que superaram dificuldades e conseguiram alcançar algum objetivo. Romantizam a mãe que trabalha 3 turnos para dar o mínimo para seus filhos, mas não questionam a natureza da necessidade de uma pessoa precisar trabalhar 3 turnos em empregos precários e com salários baixíssimos – caso contrário não precisaria trabalhar 3 turnos – para criar seus filhos. Romantizam o jovem que catava sua comida no lixo e chegou ao Ensino Superior lendo livros que encontrou no lixão. Romantizam o mérito do “catador de latinhas” que hoje tem uma microempresa, mas não discutem a realidade das desigualdades que o levaram a ter que trabalhar como reciclador. Romantizam o “empreendedorismo” das pessoas, mas não discutem o fato desse empreendedorismo ser fruto da falta de emprego e da necessidade de sobreviver; que tem como resultado a precarização das relações de trabalho e as negações de direitos. Romantizam as superações individuais, sem discutir seus motivos, e as colocam como forma de exemplo a ser seguido.

E no documentário que deu vez a esta escrita, romantizaram o fato de a escola, mesmo sem estruturas adequadas e com professores com baixos salários, realizar, através dos esforços dos gestores e professores, um trabalho que proporciona uma educação de qualidade – medida em avaliações quantificáveis. Finalizam o documentário reafirmando a superação dessa escola, de seus professores e professoras e desses jovens. Romantizam as superações de obstáculos vividas na escola, na profissão docente e nas vidas desses jovens. A estrutura social não é contestada e as desigualdades não são discutidas. Um retrato da escola pública brasileira e do modo como concebemos a educação.

Os jovens aparecem sempre pensando em um futuro, relacionado com o econômico e na esfera individual. Para esses jovens esse futuro depende apenas deles e de seus esforços em superar os obstáculos que aparecerem, numa evidente defesa e valorização da meritocracia. O presente desses jovens é um exemplo vivo das desigualdades vividas em nossa sociedade, mas esse aspecto não é determinante nos diálogos ali apresentados e mesmo nas discussões realizadas com os estudantes em nossas escolas.  

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Romantizam a pobreza, romantizam as ações pessoais e individuais e fazem esses jovens refletirem a imagem da meritocracia de que com seu esforço pessoal conseguirão superar os limites impostos. Porém, não analisam o porquê desses limites existirem. 

É preciso uma mudança na cultura escolar para além das avaliações quantitativas, uma educação que se torne problematizadora e crítica e que questione as realidades, partindo delas e buscando sua transformação. Enquanto a educação for vista como a “chave” para o sucesso pessoal e não para a transformação social, as desigualdades que colocaram esses jovens na situação em que vivem seguirão existindo e seus sonhos seguirão sendo construídos na esfera individual e limitados pela realidade desigual de nossa sociedade. 

Já é tempo de escrevermos uma nova história!

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Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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