“O agente secreto”, a memória do país e as eleições
Reimont denuncia as “lavagens biográficas” como parte dos projetos de esquecimento
Neste domingo, dia 15 de março, estarei grudado em frente à TV, na torcida pelo Oscar para Wagner Moura (Melhor Ator) e para “O agente secreto”, do Kleber Mendonça Filho, candidato nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Seleção de Elenco. Sei que essa torcida junta milhões de brasileiras e brasileiros cada um do seu jeito, com sua origem, idade, cor, gênero e características próprias e únicas; sou apenas mais um.
“O agente secreto” é um filme magnífico e contundente sobre as lembranças do poder destruidor da ditadura, sobre a resistência e sobre a corrupção, o conluio entre o poder público e o submundo do crime e das milícias, o preconceito contra a mulher e todos os brasis que atravessam décadas de uma história que as elites insistem em esconder, apagar, jogar para debaixo do tapete. É, fundamentalmente, um filme sobre a memória, a importância de narrar e transmitir memórias. Sem dar spoiller, o diálogo final se afirma como um alerta sobre essa necessidade vital.
Diante do filme, vejo o Brasil de agora, onde, mesmo um passado mais recente começa a ser apagado para dar lugar a histórias reescritas, embelezadas. Onde a extrema-direita, apoiada por fakenews e por setores da mídia conservadora e comprometida, reinventa biografias tão falsas e irreais como faz agora com Flavio Bolsonaro, para fortalecer a candidatura do 01 da dinastia que quebrou o Brasil e defende uma intervenção armada dos Estados Unidos em nosso país.
Nesse processo de “lavagem biográfica”, esquecem que Flávio Bolsonaro foi amigo e padrinho político de pessoas investigadas por ligações com o Comando Vermelho, como Gutemberg Fonseca, secretário de Defesa do Consumidor, Alessandro Pitombeira Carracena, ex-Secretário Estadual de Esportes do Rio de Janeiro, deputados TH Joias (MDB) e o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Barcelar (União Brasil).
Esquecem que empregou a mãe (Raimunda Veras Magalhães) e a ex-esposa (Danielle Mendonça da Costa) de Adriano da Nóbrega, ex-PM e líder de um grupo de extermínio, morto em uma operação da PM da Bahia, apontado como envolvido nos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. E ainda que homenageou Adriano com a Medalha Tiradentes em 2005, quando ele estava preso, e também Ronald Paulo Alves Pereira, igualmente investigado por envolvimento com milicianos.
Esquecem de Fabrício Queiroz, investigado como operador de um esquema de "rachadinha" no gabinete de Flávio, outro amigo de Adriano, que se escondeu em áreas de milícia no Rio de Janeiro após o início das investigações do COAF.
Esquecem que relatórios do MP-RJ indicaram que o dinheiro da "rachadinha" poderia ter ligações com o financiamento de construções ilegais da milícia.
Esquecem que, entre 2010 e 2017, o então deputado estadual 01 lucrou mais de 3 milhões de reais em transações imobiliárias consideradas suspeitas e que, em 2020, o MPF apontou fortes indícios de lavagem de dinheiro em suas transações imobiliárias na Zona Sul do Rio, que integravam um império formado por 37 imóveis - 14 apartamentos e 23 salas comerciais em Copacabana, Botafogo, Barra da Tijuca e Jacarepaguá.
E ainda que, em 2024, desembolsou 3,4 milhões de reais para quitar antecipadamente um empréstimo controverso que fez em 2021 junto ao Banco de Brasília, o famoso BRB do caso do banco Master, para bancar a compra igualmente controversa de uma mansão em Brasília, cuja parcela inicial, de 2,9 milhões reais, foi paga em dinheiro vivo; a mansão, que fica no Lago Sul, tem 1.100 m2, piscina, jardim planejado, academia, espaço gourmet e cinco suítes.
Esquecem, principalmente, que Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro, é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, apontado como sócio de Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, principal operador do esquema de desvio de dinheiro de aposentados e pensionistas.
Esquecem os crimes da família durante a pandemia.
Fazem o mesmo com Claudio Castro, esquecendo do noticiário o aporte bilionário e criminoso de quase 1 bilhão de reais do Rio Previdência no Banco Master, prejudicando, também ele, aposentados e pensionistas.
Tudo apagado, enquanto, em movimento paralelo, tentam criminalizar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por todos os meios, inventando, distorcendo. Assim se dá a tal polarização das eleições, que, na real, é a polarização da mentira e dos apagamentos da História contra os fatos.
Por isso também, torço muito por “O agente secreto”, por ser uma trincheira contra os apagamentos, a qual temos que nos somar para sacudir as amnésias e despertar as memórias. Para que nunca se esqueça, para que nunca mais aconteça.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
